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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 07 de dezembro de 2021

Família em luta pela igualdade

Família em luta pela igualdadeFoto: Correio Braziliense

Akinnwole Kayode Guimarães, filho de Cristina e o neto Levi Kayode Guimarães

Juliana Andrade-correio Braziliense - 02/12/2019 - 06:46:28

A assistente social Cristina Guimarães combate o preconceito de raça e gênero desde a universidade. Em Brasília, coordenou o Coletivo de Mulheres Negras do Distrito Federal e hoje milita na Frente das Mulheres Negras do DF e Entorno

Ser mulher é um desafio não só no Distrito Federal, como em todo o país. Se a batalha pela igualdade de gênero é travada a cada dia, a assistente social Cristina de Fátima Guimarães, 60 anos, precisa lutar em dobro: pela igualdade de gênero e pela igualdade racial. Mãe de dois filhos, avó de três netos, criada em uma família de seis irmãos, a maranhense escreve sua história pautada no combate ao racismo e ao machismo.

Cristina começou a se envolver com o movimento negro na Universidade Federal do Maranhão. Estudante do curso de assistência social, ela conheceu os grupos culturais e o significado de militância. “Foi na universidade que eu comecei a construir minha visão política enquanto mulher negra”, destaca. Aquele seria apenas o início de uma longa trajetória pela igualdade. Em 1985, Cristina passou em um concurso público em Brasília e, no ano seguinte, mudou-se para a capital. Na mala, além de muito conhecimento, experiência e história, Cristina trouxe a militância.

Em Brasília, a assistente social entrou no Fórum de Mulheres. Em meio a encontros e seminários, assim como outras participantes negras, Cristina viu a necessidade de um movimento destinado a mulheres negras, onde elas poderiam discutir e refletir sobre as especificidades da classe. “A gente não se identificava com aquele espaço, pois ele não pautava as nossas especificidades. No movimento negro, embora tivesse a presença de muitas mulheres, os dirigentes eram sempre homens e, no movimento feminista, as especificidades da mulher negra não eram debatidas”, justifica. Para Cristina, além de ser tratada como inferiores, as mulheres negras ainda lidam com o preconceito racial, um desafio a mais para a igualdade no mercado de trabalho e na sociedade.

Assim, surgiu o 1° Encontro Nacional de Mulheres Negras, em 1988. Esse foi um passo fundamental para o desenvolvimento do Coletivo de Mulheres Negras do Distrito Federal, grupo que Cristina coordenou durante quatro anos. “Eu me constituo e me construo nesses espaços e com essa consciência de que eu sou uma mulher negra que vive em uma sociedade racista”, ressalta.


Serviço público

Para Cristina, o concurso público é uma das poucas formas que o negro tem para chegar ao serviço público. Assim como ela, os quatro irmãos vivos se formaram em universidades públicas e hoje são servidores. A assistente social iniciou a carreira pública no governo federal, no Departamento Administrativo do Serviço Público (Dasp) e, em 2003, foi convidada para compor a equipe da Secretaria Especial de Promoção à Igualdade Racial, onde permaneceu até 2014.

“Foi uma fase muito importante na minha vida. Eu trabalhava na construção e implementação das políticas públicas de igualdade racial, como ações afirmativas e as iniciativas voltadas para a população quilombola”, conta. Na Secretaria, ela ainda era a responsável pelos recortes raciais nas políticas públicas voltadas para as crianças e adolescentes. Atualmente, Cristina faz parte da equipe de especialistas do Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP). Antes disso, ela gerenciou o Centro de Referência de Assistência Social (Cras) de Taguatinga.


Dentro de casa

Cristina também fez questão de levar o debate sobre igualdade para dentro de casa. Ela ensinou aos dois filhos, desde cedo, a importância da luta contra o preconceito e o valor do reconhecimento negro. Os meninos, hoje com 28 e 26 anos, foram batizados com nomes africanos: Akinnwolê Kayodê, que significa bravo que entra em casa trazendo alegria, e Sauandê Kayadê, um sábio que sai em busca da cura. “As pessoas diziam que eles iam odiar esses nomes e que não conseguiriam nem escrever. Quando Akinnwolê aprendeu a escrever, ele veio com um papel, que eu tenho até hoje na agenda, falando para eu mostrar para a minha amiga que disse que ele não conseguiria”, lembra.

Os filhos são o orgulho dela e seguiram os ensinamentos da mãe quando o assunto é o combate ao preconceito. Ensinamento que perpetua de geração em geração. “Muitas coisas mudaram, mas o meu neto ainda sofre discriminação. A minha geração brigou por espaços democráticos, de luta, reflexão, garantia de direitos e respeito à diferença, mas, nos dias

atuais, em pleno século 21, o racismo ainda é muito presente”, lamenta.


Batalha constante

Atualmente, Cristina faz parte da Frente de Mulheres Negras do Distrito Federal e Entorno. Para ela, ainda há um longo caminho para a igualdade racial, que passa pela distribuição de renda, acesso ao mercado de trabalho e aos meios de comunicação, além da educação. “Não é mi-mi-mi são fatos que a gente vivencia cotidianamente, independentemente da classe social do negro. Racismo é crime e precisa ser combatido. Enquanto houver racismo ou discriminação racial, eu e meus filhos vamos continuar lutando”, enfatiza.

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