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Fiamma Zarife: “Nenhum líder do mundo está acima das regras”

Fiamma Zarife: “Nenhum líder do mundo está acima das regras”Foto: João Bertholini)

Fiamma Zarife no escritõrio do twitter, em São Paulo, antes da pandemia

Laura Ancona Lopez E Roberta Malta - Marie Claire - 28/07/2020 - 09:07:18

A diretora-geral do Twitter Brasil, de 48 anos, fala sobre liberdade de expressão, liderança feminina e família.

“Hashtag medo” Foi com essa frase que a diretora-geral do Twitter Brasil, Fiamma Zarife, 48 anos, nos recebeu para esta entrevista via Zoom. Filha de um radialista conhecido – quem não se lembra da vinheta esportiva “Brasil-il-il”, gravada nas eliminatórias da Copa de 1970 por Edmo Zarife? – e de uma professora, passou a infância com a cara enfiada nos livros, enquanto seus amigos brincavam na rua. Formada em publicidade e propaganda pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com pós-graduação em marketing pela PUC-Rio e cursos de especialização na Singularity University e no Massachusetts Institute of Technology (MIT), sonhava ser editora-chefe de telejornal. Mas a vida tomou outro rumo quando, ainda na faculdade, se encantou pela possibilidade de atuar no mundo dos negócios. Mais tarde, com a chegada da internet, foi fisgada pela chance de desvendar algo novo e, mais uma vez, recalculou sua rota. À frente do Twitter Brasil desde 2017, Fiamma é parte importante no voo do pássaro azul mais popular do planeta (só nesta pandemia, foi contabilizado um crescimento de 36% no número de usuários).

Mais do que uma rede social de entretenimento, a plataforma que comanda é um expoente na transparência e na divulgação de informações e funciona hoje como um retrato da sociedade contemporânea. Ponha nessa conta punições a chefes de estado, caso do presidente Jair Bolsonaro, que teve dois tuítes excluídos da rede depois de contrariar as normas de segurança da Organização Mundial da Saúde durante a pandemia do novo coronavírus; notificações sobre conteúdos duvidosos; e uma limpa que, de 18 de março a 11 de maio, desafiou 4,4 milhões de contas automatizadas, todas relacionadas à Covid-19. “O critério para validar essas punições está nas parcerias de conteúdo e dados compartilhados por órgãos oficiais. Informações confiáveis vêm de veículos como vocês, emissoras, rádios”, afirma.


Radicada em São Paulo desde 2008, essa niteroiense saudosa, mãe de uma menina de 16 anos e um menino de 9, que trabalhou em empresas como Banco Boavista, Oi, Claro e Samsung, prefere falar do lugar corporativo do que vasculhar memórias. Mas a gente é Marie Claire , e nossa convidada sabia disso. Assim, durante três horas, abriu o coração sem se esquivar de pergunta alguma.

Marie Claire Como era a casa da sua infância?
Fiamma Zarife Meu pai era libanês e minha mãe, italiana. A voz ativa em casa era dela, meu pai não se metia em nada. Professora de escola pública, me levava de vez em quando para dar aula com ela. A gente morava em Niterói e o colégio ficava em Japuíba, outra cidade. Lembro de pegar um ônibus e depois andar não sei quanto tempo a pé para chegar lá. Então, cresci muito com essa coisa do esforço, do trabalho. Minha mãe dizia que primeiro tinha que conquistar minha independência; depois, casava se quisesse.

MC E seu pai?
FZ Meu pai vivia para o rádio, sua voz era considerada uma das mais bonitas do Brasil. Mas não ficou rico como os amigos, que abriram agência de publicidade. Ele entendia o sucesso como o efeito colateral de uma dedicação a algo maior do que você. Peguei isso dele. E nunca estabeleci um alvo, as coisas na minha vida profissional foram acontecendo. Meu sonho de infância era ser editora-chefe de um telejornal. Queria apresentar, mas também escolher as notícias, coordenar coberturas.


MC Desistiu por quê?
FZ No começo da faculdade de comunicação, os cursos de jornalismo e publicidade eram juntos. Aí comecei a fazer estágio na Petrobras Distribuidora e me apaixonei pela questão do produto, do negócio. Quando fui trabalhar no Banco Boavista, estava surgindo a internet e eu levantei a minha mão pra fazer o site do banco. Foi quando a minha carreira se cruzou com tecnologia e nunca se separou.


MC Você tem um casal de filhos (de 16 e 9 anos) e a menina, agora adolescente, acompanha você nos eventos de liderança feminina desde menorzinha. Você os cria da mesma maneira que sua mãe criou você?
FZ Super. Ensino a fazerem o que gostam, a serem independentes, solidários, a se dedicarem ao que escolherem. No início, minha filha questionava por que tocava tanto nesse tema de liderança feminina. Dizia: “O fato de você não entender é o sinal de que preciso falar sobre isso”. E aí, estudando, ela agora entende. Discute feminismo com o pai, mostra, argumenta.


MC Você e seu marido estão juntos há 26 anos. Como é a divisão de tarefas em casa?
FZ Como tenho emprego fixo e uma participação financeira importante na casa, a gente tem um combinado de ele ficar mais com as crianças. Jean é engenheiro, trabalha por projeto com implementação de ar-condicionado de grande porte e sempre teve uma vida muito mais flexível que a minha. Ele e o meu filho vão para o lugar que estabelecemos como escola, todo dia, às 7h30. Fico louca de ciúmes, mas é lindo de ver.


MC Quando assumiu o Twitter, apareceu na imprensa ao lado de seus filhos. Que mensagem quis passar?
FZ Eu vinha de um ambiente de telecomunicações, que tinha muito a coisa do como você se veste, como fala, da linguagem corporativa forte. E hierarquia é uma coisa complicada para mim. Um pouco é o meu jeito, mas também porque sei que todo mundo tem problema e vive ali a solidão do poder. Aí, quando cheguei ao Twitter, fiquei muito à vontade. Essas fotos falam da mãe que leva os filhos para o trabalho porque não teve com quem deixar, ou quer que eles conheçam o lugar em que ela passa nove horas do dia, em que se realiza.


MC O Twitter foi uma das primeiras empresas a adotar a licença-paternidade de quatro meses no Brasil, em 2017. Isso tem alguma inspiração no que você vive em casa?
FZ Total. É um privilégio trabalhar em um lugar que permite que as famílias experimentem o que eu já vivia. É bom para o casal, para a criança, para todos. Mas essa licença também tem a função de igualar os gêneros. Se a maternidade é uma barreira para as mulheres na hora da contratação, a gente vai equiparar isso na entrada. As primeiras licenças dos rapazes, lá em 2017, eram um retrato da sociedade. Teve um que ouviu do sogro: “Quando você voltar dessa vagabundagem, não vai mais ter sua posição”. Esse funcionário me disse depois que ter um papel dentro de casa foi a melhor coisa que aconteceu na família dele. Mesmo assim, ainda não vi nenhum tirar os quatro meses direto.


MC Qual o tempo máximo que um pai já ficou de licença?
FZ Dois meses. Não dá para dizer se foi expulso, porque também vejo muita mulher falando que o pai não faz nada direito porque, na verdade, quer ter o protagonismo parental. Agora, a maioria não aguenta mesmo. Contam que não têm ninguém para tirar dúvida, porque nenhum amigo passou um mês com o filho; que ficaram com medo de perder o emprego; de saco cheio de ficar em casa. “Welcome”, eu digo.

MC O Twitter tem sido um filtro agregador de informações sobre a pandemia. Como isso aconteceu internamente?
FZ Primeiro, eliminamos as distrações, que acabam tirando o foco da operação. Então, por exemplo, tinha uma ferramenta de marketplace que a gente acabou vendendo pro Google porque não tinha a ver com o nosso core, que é servir à conversa pública. Depois, esclarecemos nosso posicionamento: servimos para o usuário se informar, ter diferentes ângulos de qualquer assunto. Por fim, melhoramos a experiência do produto. É nisso que mais investimos, em fazer do Twitter um ambiente seguro, em que as pessoas se sintam confortáveis pra expressar as suas opiniões, sem silenciar outras vozes. É extremamente delicado porque liberdade de expressão é para as opiniões com as quais você não concorda, não para aquelas com as quais concorda.


MC Como foi a decisão de derrubar um post do presidente da República, como aconteceu com Jair Bolsonaro?
FZ Quase todos os líderes do mundo estão no Twitter e nenhum deles está acima das nossas regras. Essas regras não têm abordagem estática, o que seria impossível em um ambiente que muda tão rapidamente. Com a Covid-19, fizemos uma atualização delas, e ficou determinado que qualquer tuíte que fosse contra os órgãos de saúde locais ou globais cairia nesse filtro. Dependendo da gravidade, você pode até manter o tuíte no ar, mas vai ter um link para que o usuário cheque as informações que estão ali. Isso não é trivial de se fazer porque os limites sempre vão ser muito tênues para a questão da liberdade de expressão, e a gente de maneira nenhuma pode ser esse árbitro. Então, se tem uma entidade, se tem uma associação, se tem um órgão oficial dando informações, é a ele que a gente vai recorrer para tomar a decisão.

MC Como fizeram isso?
FM Essas contas que tentam manipular o debate público e são identificadas com comportamento suspeito, passam pelo que a gente chama de desafio. Pedimos, por exemplo, para o suposto usuário digitar um código captcha ou identificar figuras, confirmar e-mail, telefone. É um esforço contínuo porque quem quer usar a tecnologia para o mal sempre inventa um jeito novo de burlar as regras. De 18 de março até 11 de maio, o Twitter desafiou 4,4 milhões de contas desse tipo relacionadas apenas à Covid-19.


MC Na ocasião em que uma conta do PSL foi derrubada, em agosto de 2018, o deputado federal Eduardo Bolsonaro fez um post destacando um tuíte seu de dois anos antes em que você elogiava a solidariedade do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, ao ex-presidente Lula. Como é ter sua idoneidade em xeque publicamente?
FZ Confesso que, no início, me assustava. Mas a gente cria uma musculatura, acostuma. Faz parte do cargo. Também descobri que tem coisas que é melhor não falar. Eu, por exemplo, sou flamenguista. Aí, se eu falar do Flamengo, vai vir um fluminense, um palmeirense dizer que estou colocando um conteúdo na rede do time, e não tenho influência nenhuma sobre isso. Sou cobrada por qualquer coisa que falha. Se a internet caiu, a culpa é minha.


MC Já tem prazo para voltar ao escritório?
FZ O último pronunciamento oficial da empresa é que, antes de setembro, nenhum escritório voltará a funcionar. Na verdade, o Jack Dorsey [CEO e cofundador da plataforma] não quer ir para o escritório nunca mais. Porque a gente está trabalhando normalmente, produzindo, crescendo. Claro que em cada país vai ser de uma maneira. No Brasil, as pessoas estão loucas para voltar. Mas acho que vamos praticar mais o home office, coisa que nunca foi tabu para a gente. Não queria perder essa coisa que tenho agora de poder dar uma olhada no dever que meu filho está fazendo. Fazia isso uma vez por semana, talvez agora faça duas, três.


MC Do que você tem medo hoje?
FZ De ficar sem trabalho. E aí não falo de emprego, mas de ser útil, de ter uma função no mundo. Também tenho pavor de morrer sem ver meus filhos criados. Depois que fui mãe, as viagens de avião começaram a ser extremamente dolorosas porque tinha medo de que ele caísse. Fiz até uma pasta com todas as minhas senhas, para caso acontecesse alguma coisa. Vale também para cavalo, escuna, bungee jump... Não gosto de nada sobre o qual eu não tenha controle. Gosto de sentir o pé no chão.

*A entrevista completa está na edição impressa de Marie Claire

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