×
ContextoExato

Contexto Exato

Brasil - Brasília - Distrito Federal - 26 de outubro de 2021

Filmes sobre a atualidade mostram ódio e repúdio aos direitos humanos; veja lista

Filmes sobre a atualidade mostram ódio e repúdio aos direitos humanos; veja listaFoto: Divulgação/Netflix

Filmes destilam ódio, conspiração e expressam repúdio aos direitos humanos e resistência aos avanços civilizatórios

Por Carolina Maria Ruy - Brasil De Fato - 18/08/2021 - 15:19:38

Emaranhado com o que a humanidade projetava como futuro, o século 21 nos surpreendeu trazendo o reposicionamento de uma extrema direita tão radical quanto caricata. Uma direita reaça que já deveria estar morta e enterrada, mas que ressurge como corpos tragados pelas ondas e devolvidos pelo mar.

A pandemia do retrocesso precedeu a do coronavírus. Brexit, Donald Trump, a ascensão da direita na Europa e Bolsonaro, são pontos que se ligam nesta surpresa indesejável. Surpresa porque isso não aparecia no radar da grande maioria de analistas para os quais a direita no pós Guerra Fria eram os defensores do neoliberalismo. Neonazistas, negacionistas e apoiadores da ditadura e da tortura eram vistos como nichos excêntricos, quase desprezíveis.

Mas a história não é matemática e o imprevisto é certo. Tivemos um início de milênio marcado pela crise migratória entre África, Oriente Médio e Europa, pela crise econômica de 2008 e pela explosão das redes sociais que bagunçou a habitual lógica política.

No Brasil ainda não conseguimos equacionar as manifestações de junho de 2013. De lá para cá tudo mudou. Antigas análises já não servem mais e o repertório de respostas prontas teve seu prazo de validade vencido.

Em 2016 a eleição de um ganancioso descarado e grosseiro para a presidência dos EUA chocou quem tinha um mínimo de discernimento e civilidade. A derrota de Trump parecia certa, mas a crise econômica, o desemprego, a manipulação de dados de redes sociais, as Fake News e o “empoderamento” de grupos radicais, antes amortecidos pelas mediações dos tradicionais meios de comunicação, tornou real o que parecia improvável.

Não menos assustador foi a eleição de Jair Bolsonaro dois anos depois. Aquela eleição traduziu o que foi 2013 no Brasil. Se alguém em 2018 ainda tinha dúvida se aquele foi um movimento dominada pela direita ou pela esquerda, a dúvida acabou com o advento do bolsonarismo.

Crise econômica, xenofobia, manipulação, golpes políticos, descaramento, mentiras em série, isso tudo voltou nas ondas da segunda década do milênio. São muitos aspectos de uma realidade nova e inusitada. Vamos por partes.

22 de Julho

No dia 22 de julho de 2011, na Noruega, o extremista de direita, Anders Behring Breivik publicou na internet um manifesto onde expressou seu radicalismo conservador e se autoproclamou "Cavaleiro Templário da Noruega". Naquele mesmo dia ele matou 69 jovens do Partido Trabalhista Norueguês na ilha de Utøya e 8 pedestres em Oslo. Ao ser pego, confirmou todas as acusações e após as tramitações da denúncia recebeu com ar de sarcasmo a condenação a 21 anos de prisão. Esta história está retratada no filme 22 de Julho , do diretor Paul Greengrass, lançado em 2018. Ela mostra a xenofobia como gatilho para outros desvios de caráter e que começou não só a voltar a crescer na Europa, como também a conferir um sentimento de confiança a seus adeptos. Talvez Anders fizesse isso em qualquer época, mas é seguro dizer que ele, e outros como ele, encontraram nas facilidades e na falta de filtros da internet uma forma de se expressarem e de se ligarem.

Junho

Dois anos depois do atentado na Noruega, as facilidades de comunicação e agitação nas redes sociais insuflaram no Brasil manifestações nunca antes vistas. E o documentário Junho , de João Wainer, lançado em 2014, é, na minha opinião, o melhor registro daquele mês de 2013.

A luta pelo passe livre, a repressão desproporcional da polícia militar, a reação popular frente a violência policial, o descontrole do movimento, os Black Blocs tomando conta, está tudo ali, desde a legítima luta social até a ascensão de uma direita agressiva contra a presidente Dilma Rousseff. O filme mostra essa reviravolta capitalizada pela Fiesp que impulsionou a demagogia barata e interesseira que, como sabemos, pautou a Lava Jato nos anos seguintes.

Democracia em Vertigem

Lançado em 2019, Democracia em Vertigem , de Petra Costa, também passa por junho de 2013, mas vai mais fundo, oferecendo um panorama bem elaborado da política nacional. Um panorama que vem de lá da construção de Brasília, passando pela ditadura militar, redemocratização, pela injustificada queda do governo de Dilma Rousseff, até a emergência de um assustador Jair Bolsonaro. Petra mostrou a efervescência dos governos PT e a melancolia contrastante após a queda daquele projeto de desenvolvimento. O filme claramente tem um lado, mas não poupa a esquerda, expondo também os erros que ajudaram na tomada de poder de Michel Temer. Como material a diretora contou não apenas com as manifestações de 2013, mas com registros únicos de Lula e Dilma, imagens históricas e acontecimentos pitorescos como a votação do impeachment na Câmara dos deputados naquele domingo, 17 de abril de 2016, que constrangeu o Brasil.

Dirigido pela brasileira Petra Costa, "Democracia em Vertigem" foi indicado ao Oscar 2020 na categoria melhor documentário / Divulgação/Netflix

Get me Roger Stone

O ano de 2016 foi, de fato, trágico. Se por aqui tivemos que lidar com a retirada de direitos e de proteção social promovida por Temer, os EUA deu o seu pior para si e para o mundo elegendo o empresário reaça e fanfarrão Donal Trump ao cargo político mais cobiçado de todos. Ainda é cedo para dimensionar a extensão do desastre, mas sugiro aqui um filme que pelo menos mostra o descaramento do ambiente e das companhias que impulsionaram Trump em sua aventura de bilionário mimado. Refiro-me ao documentário Get me Roger Stone , de Dylan Bank, Daniel Di Mauro e Morgan Pehme, lançado, em 2017. O filme mostra o estilo de vida e o pensamento do consultor político conservador Roger Stone, um homem que tem o rosto de Richard Nixon tatuado nas costas e que pensou antes de todos que Trump poderia ser o presidente dos Estados Unidos da América. Como filme é uma produção caprichada. Como realidade, seria cômico se não fosse trágico.

Privacidade Hackeada

Aliás, trágicas foram as manobras da empresa Cambridge Analytica , que fez campanhas pelo Brexit, no Reino Unido, e por Donald Trump, nos EUA, com base na "guerra da informação". Eles compraram e usaram dados pessoais disponibilizados no Facebook de cada eleitor. O filme mostra que a empresa escolhia como alvos, eleitores que não tinham opinião política formada e os enchiam de mensagens que orientavam decidir pelos candidatos deles. No fim a Cambridge Analytica teve que responder pelo uso ilegal de dados do Facebook de pelo menos 87 milhões de pessoas em uma tramoia que beneficiou até a eleição de Jair Bolsonaro no Brasil. A empresa de Mark Zuckerberg também teve que dar explicações, o que não me espanta. Há anos o jornalista Julian Assange tenta alertar a humanidade para as perigosas consequências políticas dos monopólios das Big Techs na comunicação. E por isso ele tem sido criminalizado. Sinal dos tempos...

Rede do ódio

E, como mostrou Rede do ódio , filme do polonês Jan Komasa, de 2020, a manipulação política na internet vai muito além do uso de dados pessoais. A disseminação em série de notícias falsas em campanhas é outro golpe baixo para ganhar derrotar adversários e ganhar eleições.

A filme vale por mostrar que no século 21 a produção de “fake news” se tornou uma verdadeira indústria, algo importante já que tivemos uma eleição, em 2018, que se beneficiou amplamente da desinformação e já que isso ainda é uma praga disseminada por todos os celulares e telas não só no Brasil.

Vale também por caracterizar dois perfis que se sobressaem no contexto que estamos tratando: um segmento do campo progressista (limitado, porém influente) que é endinheirado, se acha antenado e prima pela arrogância, e um tipo reprimido conservador que engole essa arrogância, se ressente e digere ódio.

Triste é saber que o lançamento de Rede do ódio precisou ser adiado porque dias depois de terminada as filmagens, o prefeito da cidade polonesa Gdansk, Pawel Adamowicz, um político progressista e defensor dos direitos LGBT, foi esfaqueado e morto em um evento filantrópico com centenas de pessoas. Ele era alvo de extremistas nas redes sociais e o crime morbidamente tornou o filme ainda mais realista.

Filmes que nos ajudam a ler a realidade

Lançados entre 2014 e 2020, os filmes 22 de julho , Junho , Democracia em Vertigem , Get me Roger Stone , Privacidade Hackeada e Rede do ódio compõe um material interessante que nos ajuda a entender a atualidade. São filmes que tratam precisamente de situações políticas ocorridas nos últimos dez anos. E isso é assustador já que no conjunto eles destilam ódio, conspiração e, sobretudo, expressam repúdio aos direitos humanos e resistência aos avanços civilizatórios.

Quatro dos seis filmes citados passam por problemas criados com a explosão e o descontrole da internet e das redes sociais. Não se trata aqui de maldizer a tecnologia e os novos meios de comunicação que são grandes inovações. Mas sim de refletir sobre como esses avanços são usados, monopolizados e distribuídos.

Trata-se também de observar como o mundo se expressa através dessas novas possibilidades. Um mundo abalado pela crise econômica de 2008, no bojo do acirramento das contradições entre geração de riqueza e de desigualdade. Porque se a internet é o mensageiro a mensagem está inscrita na lógica do salve-se quem puder que cresceu desde a quebra do banco Lehman Brothers em 15 de setembro de 2008.

Desregulamentação do trabalho, desemprego, marginalização, aumento da miséria e da violência são enfim, a argamassa que sustenta os discursos reacionários salvacionistas que nos assombram em pleno século 21.

Se o que temos do século 21 fosse um filme ele seria marcado por uma grande reviravolta. Sem final feliz, por enquanto.

*Carolina Maria Ruy é jornalista e coordenadora do Centro de Memória Sindical.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

Edição: Vivian Virissimo

Comentários para "Filmes sobre a atualidade mostram ódio e repúdio aos direitos humanos; veja lista":

Deixe aqui seu comentário

Preencha os campos abaixo:
obrigatório
obrigatório
Projeto de Lei sobre pobreza menstrual deve voltar a ser debatido no Congresso

Projeto de Lei sobre pobreza menstrual deve voltar a ser debatido no Congresso

Segundo a Unicef, mais de 4 milhões delas não têm acesso a itens mínimos de cuidados menstruais nas instituições escolares

Combate à intolerância religiosa reforça liberdade de crenças

Combate à intolerância religiosa reforça liberdade de crenças

Dia distrital de luta será marcado pela realização do 4º Diálogos com o Comitê Distrital da Diversidade Religiosa, vinculado à Sejus

Campanha

Campanha "Natal Sem Fome" começou em todo o país

Cada R$1 doado para a campanha

Comissão Interamericana de DH se reúne e ouve denúncia de ataque a povos originários no Brasil

Comissão Interamericana de DH se reúne e ouve denúncia de ataque a povos originários no Brasil

Com a pandemia, a reunião da Comissão foi realizada em ambiente virtual

Roçado Solidário do MST une campo e cidade contra a fome na Região Metropolitana do Recife

Roçado Solidário do MST une campo e cidade contra a fome na Região Metropolitana do Recife

Iniciativa convida voluntários para conhecer como é a produção de alimentos em assentamentos da Reforma Agrária

MST vence prêmio internacional por atuação na garantia de condições dignas para a população

MST vence prêmio internacional por atuação na garantia de condições dignas para a população

Cerimônia de premiação, organizada pela OIT, será realizada virtualmente na próxima sexta-feira (22)

Dia Internacional pela Erradicação da Pobreza ressalta que é preciso fazer ajustes

Dia Internacional pela Erradicação da Pobreza ressalta que é preciso fazer ajustes

ONU pede maior inclusão das vozes das pessoas que vivem na pobreza

No grupo de risco, pessoas com HIV têm menos acesso a vacinas contra Covid-19

No grupo de risco, pessoas com HIV têm menos acesso a vacinas contra Covid-19

Iniciativa quer arrecadar até US$ 5 milhões para o período entre 2021 e 2022

Agressões contra crianças e adolescentes no Brasil chegam a quase 120 mil

Agressões contra crianças e adolescentes no Brasil chegam a quase 120 mil

Em 2020, foram registradas mais de 150 mil denúncias

Desigualdade cresce mais no Brasil do que em outros países, aponta FGV

Desigualdade cresce mais no Brasil do que em outros países, aponta FGV

'Meu filho esqueceu as letras'

Acesso ao meio ambiente saudável é declarado um direito humano

Acesso ao meio ambiente saudável é declarado um direito humano

Árvores são plantadas na República Democrática do Congo para ajudar a combater a mudança climática.