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Grécia: duas ilhas (quase) secretas no mar Egeu

Grécia: duas ilhas (quase) secretas no mar EgeuFoto: Divulgação

A beleza natural é de cortar a respiração, mas a arquitetura também não desilude.

Rita Aleixo/global - 21/06/2019 - 19:03:04

Pulmões cheios de ar puro e uma brisa de mar no rosto. Viagem à descoberta das ilhas gregas de Sifnos e Sérifos. Respire fundo e venha navegar connosco.

Rumo às Cíclades, um grupo de ilhas situado no norte do mar Egeu, o tom azul do mar enche-nos a vista. Entre ondas e o vislumbre de pequenos ilhéus, a viagem de barco até à primeira paragem da nossa aventura dá-nos a real sensação de estarmos no meio do mar, no meio do nada. A travessia marítima de quase três horas, que começou na capital grega, Atenas, leva-nos até ao porto de Kamares, na ilha de Sifnos – situada entre Sérifos, Kimolos e Paros – onde os laivos amarelos e cor de laranja do pôr-do-sol inauguram os primeiros disparos da câmara fotográfica. Foi amor à primeira vista.

Sérifos é o destino de férias ideal para quem gosta de atividades ao ar livre, como caminhadas, ciclismo de montanha, mergulho ou escalada.

Silêncio e tranquilidade. Em Sifnos não há pressa. Terra de gente prestável e de sorriso no rosto, tem uma essência que nos transporta para uma verdadeira viagem de sentidos. Batizada em tempos como «Merope», «Akis» ou «Sifanos», esta é uma ilha cheia de história. Acredita-se que os primeiros habitantes tenham sido pelasgos e, posteriormente, kares, léleges e fenícios. Foi considerada um dos lugares mais ricos do mundo antigo, graças às minas de ouro e de prata, mas também devido ao desenvolvimento das artes cerâmicas. Sifnos é a terra natal de vários cientistas, escritores e estudiosos e, por ser menos popular do que outras ilhas gregas, como Mykonos ou Santorini, Sifnos é hoje um destino alternativo, ideal para viajantes que procurem ar puro, comunhão com a natureza e estar longe dos magotes de turistas.

A beleza natural é de cortar a respiração, mas a arquitetura também não desilude. As típicas fachadas azuis e brancas das pequenas casas e igrejas (em Sifnos há mais de 300) prometem uma incrível composição para o feed de Instagram, mas, na realidade, são cores comuns às silhuetas de todas as ilhas deste país do sul da Europa. Por isso, por agora, vamos deixar de lado os clichés e os paralelismos (até mesmo com as paisagens do filme Mamma Mia!) para focar a atenção, não nas semelhanças de Sifnos com outros locais, mas nas peculiaridades deste tesouro do Egeu.

Famosa pela sua cerâmica desde os tempos antigos, Sifnos é um verdadeiro paraíso para os amantes desta arte. Tudo graças à criatividade dos artesãos locais, ao barro de grande qualidade e também à abundância de matérias-primas. No início, as oficinas de cerâmica – chamadas também de tsikaladia – foram construídas perto das zonas de Artemonas e Ano Petali, locais escondidos do mar para que as peças se mantivessem protegidas das invasões de piratas. Mais tarde, foram transferidas para baías protegidas pelos ventos fortes do norte. «Antes os barcos vinham às lojas para levar os potes e para os venderem em todo o mundo», conta Frantzeskos Lemonis, artesão local, enquanto manobra a roda de oleiro com as mãos sujas do barro. «Antes existiam mais de cem oficinas destas em Sifnos e atualmente existem menos de 20», acrescenta com o rosto iluminado pelo sol que entra pela janela do seu ateliê, repleto de estantes lotadas com peças das mais variadas cores e feitios. Umas têm uma utilidade decorativa, outras servem para cozinhar as especialidades gastronómicas da região.

Vale a pena conhecer Sifnos se for um «bom garfo». A tradição culinária da ilha é – sem dúvida – outro dos seus chamarizes. Do imperdível guisado de grão-de-bico (revithada) ao mastello, prato confecionado com cabra, passando pelas apetecíveis sobremesas (como as loukoumia, nome dado à delícia turca), pelos pratos de peixe e marisco, pela famosa salada de beringela ou pela célebre moussaka, as tentações são mais do que muitas. Local de nascimento de Nikolaos Tselementes, lendário chef grego do século XX, Sifnos acolhe todos os anos, em setembro, o Festival Gastronómico das Cíclades. Para experimentar as especialidades, caminhamos até à moderna Apollonía, capital da ilha. Para além dos espaços de restauração com comida típica e deliciosa, na principal rua de Apollonía (chamada Steno) não faltam bares e discotecas – afinal, chegámos ao coração da vida noturna de Sifnos. Mas não só. Apollonía é também o centro de todos os serviços da ilha: polícia, farmácias, câmara municipal, entre outros.


Artemonas é uma das localidades de Sifnos. Fica a quilómetro e meio da capital, Apollonía. Não tem mais de mil habitantes.

De carro, em pouco mais de cinco minutos, vamos de Apollonía até outro dos lugares de visita obrigatória em Sifnos: Artemonas. O calor não nos deixa caminhar depressa. Mas também não é preciso. O branco das paredes e a pedra dos passeios parece amenizar o sufoco de caminhar ao sol. Percorremos ruas cuidadas e estreitas com cheiro a jasmim, onde as montras nos prendem o olhar. Padarias, lojas de doces artesanais, bares de tapas com música ao vivo ou livrarias. Apetece entrar em todas. É também em Artemonas que fica uma das mais antigas igrejas de Sifnos, onde se casou Zefi Kalogirou, a guia que nos acompanha e que garante que em Sifnos «encontramos de tudo e tudo está conectado por trilhos».

De Artemonas à aldeia fortificada de Kastro – a antiga capital da ilha – é um pulinho. Habitada desde o terceiro milénio a.C., ganhou o nome graças ao castelo da fortaleza (kastro). Tem três entradas e uma forma elipsoidal, preservando a disposição fortificada dos tempos medievais. Apresenta dois anéis defensivos e, no topo da colina, podem ser observadas as ruínas da antiga acrópole de Kastro (do século 6 a.C.). Passear pelas ruas desta pequena aldeia é como visitar um museu a céu aberto. Entre casas de estrutura antiga, capelas ou pequenas lojas e cafés, há muito para ver. Durante o passeio, os visitantes podem contemplar (e fotografar) também uma das mais belas igrejas da ilha – a dos Sete Mártires – que fica junto a um dos melhores locais para praticar snorkeling em Sifnos. Um curiosidade: muitos turistas pensam que foi nesta igreja que foi filmado o casamento do primeiro filme Mamma Mia! – podia ter sido, mas não é verdade. O museu arqueológico de Kastro – St Andreas – também é de visita obrigatória. «Os turistas [que em Sifnos são maioritariamente franceses] podem visitar o Kastro sempre a pé, seguindo o caminho à volta da aldeia», explica Zefi durante a visita.

Percorrer a ilha de lés a lés, a pé ou de carro, não é complicado. As multidões não incomodam. Há poucos turistas na época baixa e somente 2500 pessoas habitam a ilha de forma permanente. Segundo a guia, que se mudou para Sifnos em 2001, depois de décadas a viver em Nova Iorque (EUA), «as pessoas vêm pela paz e pela tranquilidade». Embora seja um território com muitos recursos, em Sifnos quase todos os produtos são importados de Atenas. Ainda assim, a população tem os seus próprios terrenos de cultivo e «90 por cento da sua alimentação é orgânica», garante Zefi. «Aqui não há hospitais [somente uma clínica] nem atividades culturais, como teatro ou cinema, mas há qualidade de vida», acrescenta a guia turística, que realça ainda a importância de «reformar o sistema de ensino» da ilha.

Assim como a tranquilidade, também as praias de Sifnos são um trunfo para os residentes e viajantes. A ilha está repleta de areais para explorar, e os menos “selvagens” dispõem de cafés e restaurantes que servem peixe fresco e outras especialidades locais. Apreciada por bloggers de viagens, Vathi é uma das praias mais conhecidas de Sifnos. Situada na costa oeste da ilha, alberga o único hotel de cinco estrelas de Sifnos, o Elies Resort, e serve de porto para iates e barcos à vela. Este é local ideal para praticar desportos aquáticos, como paddle surf. Ainda na zona oeste, encontramos também a praia de Kamares, junto ao porto da ilha, cujo areal está servido de espreguiçadeiras e guarda-sóis para os banhistas. A sul, temos a praia de Chrisopigi, próxima do icónico mosteiro com o mesmo nome, e uma das mais populares (e extensas) das Cíclades: Platys Gialos. As três praias da pitoresca vila de Faros (Faros, Fasolou e Glyfo) e a Vroulidia, uma das mais calmas da ilha, também merecem uma visita. Segundo Zefi, «a melhor forma de chegar até às praias é de autocarro. Todos partem de Artemonas».


Dos muitos motivos de interesse de Sifnos escolhemos a praia de Platys Gialos, o monte Agios Symeon e a extraordinária oferta gastronómica da ilha.

Ainda que andar de autocarro (ou de carro) seja uma boa opção para explorar os recantos de Sifnos, «o melhor mesmo é andar a pé», assegura a guia. A ilha dispõe de cerca de 90 quilómetros de trilhos, que permitem chegar a todo o lado. Este projeto, que começou em 2015, dispõe de uma aplicação para telemóvel – Sifnos Trails – na qual os aventureiros podem consultar mapas com os trajetos. Compostos ora por troços novos ora por pavimentos antigos que resistiram ao longo das décadas, os percursos conduzem os visitantes a quase todos os refúgios da ilha, nomeadamente à área de natureza protegida. «Por ser uma área pura, há também mel muito bom», realça Theodore Polenakis, presidente do Conselho de Diretores da Associação de Profissionais e Comerciantes de Sifnos, enquanto percorremos um dos trajetos na montanha repleta de oliveiras.

Depois da caminhada, despedimo-nos de Sifnos da mesma forma que inaugurámos a viagem: a contemplar o pôr do Sol. Ao final da tarde, uma fila de curiosos espalha-se pelo muro da igreja Agia Marina, em Kamares, para registar o momento com os telemóveis em punho. Os mais aventureiros sobem até ao topo da montanha de Agios Symeon para admirar o crepúsculo. Dizemos «kalinýchta» (que significa «boa noite» em português) a este paraíso, onde apetece regressar.


À descoberta da Grécia profunda: Sérifos à vista. O trajeto de barco entre Sifnos e Sérifos demora pouco mais de 20 minutos. Já no porto da ilha, somos recebidos pela nossa guia Katerina Sgourdaiou, membro do conselho de turismo de Sérifos: «Kaliméra» (em português: «bom dia»), diz ela, enquanto nos ajuda a transportar as malas, carregadas de recordações de Sifnos. O vento não dá tréguas. Bastou darmos alguns passos para percebermos que íamos andar de cabelos no ar durante toda a estada em Sérifos.

Praticamente intocada, esta misteriosa ilha fica a norte de Sifnos e também faz parte da família das Cíclades. Com cerca de mil habitantes e com uma dimensão semelhante à famosa ilha grega de Santorini, é um dos segredos mais bem guardados do mar Egeu. Aqui, é possível presenciar a verdadeira força da natureza. Para além de ser o destino de férias ideal para quem gosta de atividades ao ar livre (como caminhadas, ciclismo de montanha, mergulho ou escalada), é também o local perfeito para quem não vive sem areia nos pés. Para explorar todas as praias de Sérifos (há 40 reconhecidas oficialmente) são precisos alguns dias. Há areais para todos os gostos: com capelas ou tavernas, com bancos e árvores (as chamadas almyrikia), com seixos ou areia. Decore estes nomes: Psili Ammos, Kalo Ambeli, Vagia, Koutalas, Agios Sostis, Sykamia e Platis Gialos. Estas são algumas das mais populares – e deslumbrantes – praias em Sérifos. Ainda que para chegar à maioria destes areais os acessos sejam labirínticos e sinuosos, vale a pena conhecer a beleza natural destes refúgios (quase) selvagens.

Assim como em Sifnos, aqui também existem trails para fazer caminhadas. Porém, passear de carro é – possivelmente – a melhor maneira de explorar a ilha. Abrimos as janelas e, com os pulmões cheios de ar puro, respiramos sossego e contemplamos a paisagem árida e crua. Ao longo do percurso, avistamos pequenas casas espalhadas pelos socalcos que, pelos tons castanhos das suas fachadas, ficam camufladas entre os terrenos. Em Sérifos, só há uma estrada principal, que liga a maioria dos pontos de passagem obrigatória, nomeadamente as várias praias, à capital da ilha: Chora.


Chora é a capital de Sérifos. Está virada para o mar Egeu, no topo de uma colina. Subi-la é um desafio e um prémio. Leve sapatos confortáveis.

Situada na zona leste de Sérifos, a charmosa Chora fica no cimo de uma colina rochosa, a poucos minutos de carro da movimentada zona de Livadi, onde se encontra o porto da ilha. Casas caiadas de branco com portas e janelas pintadas de cores vibrantes, concept stores, bares modernos, restaurantes com comida típica, igrejas castiças, vielas pitorescas e ninhadas de gatos a cada esquina – há muito para conhecer nesta antiga vila. Dona de uma aura especial – quase mágica – e com traços tipicamente cicládicos, Chora possui recantos encantadores que farão sucesso em qualquer conta de Instagram. Para além de passear pelas pequenas ruas deste centro, não deixe de visitar a Praça Aghios Athanasios (também conhecida como Piatsa tis Ano Horas), um ponto de encontro para os habitantes locais. Neste lugar, poderá encontrar a Igreja Aghios Athanasios e também alguns cafés tradicionais com esplanadas coloridas. É também obrigatório subir ao castelo veneziano, construído no século XV, para apreciar as vistas (dica: opte por visitar este monumento ao final do dia, altura do pôr do Sol). Os viajantes que quiserem ficar hospedados no coração de Sérifos, podem optar por procurar alojamento em Chora: «Aqui há mais de 200 airbnbs», explica Katerina Sgourdaiou.

De volta ao carro, rumamos à zona oeste da ilha, para visitar as antigas minas em Megalo Livadi. A história de Sérifos está intimamente ligada à mineração. Na antiguidade, os escravos costumavam trabalhar nestas minas, que acabaram por encerrar temporariamente na era romana. Mais tarde, este local de exploração mineira voltou a abrir, devolvendo a prosperidade a esta pequena ilha. Contudo, devido à supressão dos otomanos, que mais tarde conquistaram a ilha, e aos frequentes ataques de piratas, as minas – onde chegaram a trabalhar cerca de 300 pessoas – acabaram por fechar. Atualmente, os turistas podem visitar este museu de mineração a céu aberto – composto por antigos vagões, trilhos e túneis – para conhecer um pouco melhor aquela que foi a principal fonte de rendimento de Sérifos durante largos anos. Junto aos escombros destas famosas minas, cujos tons da ferrugem contrastam com o azul-turquesa do mar, existe uma baía com alguns restaurantes familiares e tradicionais onde os visitantes podem degustar alguns dos pratos da gastronomia local, marcada pelos sabores típicos das Cíclades. Bolinhos de erva-doce (marathotiganites), grão-de-bico cozido em panela de barro (revithia fournou), salsichas, polvo (liasto htapodi), folhas de uva recheadas (dolmadakia), souvlaki (espetadas típicas), verduras e legumes (zarzavatika), tomate seco (liastes), carnes curadas (louza e syglino) e queijo xinomyzithra são algumas das especialidades no cardápio. Ficou com água na boca? Não é para menos. Durante a refeição, pode ainda ter a sorte de conquistar a companhia de alguma das famílias de gatos que habitam Megalo Livadi.

Regressamos à estrada. O mapa amachucado em cima do tabliê dá-nos a direção correta para a próxima descoberta. Há pouca rede na ilha e as ruas não têm nomes, por isso, ver as coordenadas em papel é imprescindível para chegarmos ao destino pretendido. No carro, a olhar pela janela, a paisagem deserta marcada pelas tonalidades castanhas dá-nos a sensação de estarmos a explorar Marte (sim, o planeta Marte). Durante o passeio, são poucas as pessoas que se cruzam no nosso caminho. Os únicos companheiros de viagem são outros animais como cavalos, burros e ovelhas a marchar junto ao alcatrão. Desligamos o motor por breves instantes para fotografar a natureza no seu esplendor – sempre com o sopro do vento como banda sonora do percurso – para, depois, seguirmos caminho até ao Mosteiro de Taxiarchis. Situado na zona norte da ilha, esta icónica construção defensiva – que se assemelha a um castelo medieval – foi erguida no século XVI, com o intuito de proteger os tesouros de Sérifos das invasões piratas.

Em Sérifos vai poder escolher entre 40 praias oficiais. De areia ou de pedra. Fora as enseadas escondidas e de difícil acesso.

Dois ou três dias (bem aproveitados) são suficientes para percorrer toda a ilha. As vinhas de Chrysoloras, a fábrica de queijo em Livadi, a aldeia de Panaghia, o trono de Ciclope no cabo Kyklopas (que oferece uma vista panorâmica do lado sudoeste da ilha) e as ruínas da célebre Torre Branca (Aspros Pyrgos) são outras atrações a acrescentar ao roteiro para as férias. Os habitantes conhecem a narrativa mitológica da ilha como ninguém. Vinculado a dois dos mais importantes heróis da mitologia grega, Ulisses e Perseu, este destino insular tem um imenso leque de histórias para contar aos mais curiosos. Terra de mineiros e de gente simpática – que em muito se assemelha ao povo português –, Sérifos é um lugar de sonho para os apaixonados pela natureza no seu estado mais puro.

Está na hora de dizer adeus. Já no barco, rumo a Atenas, fechamos os olhos, enchemos os pulmões de ar fresco e agradecemos a experiência: «efcharistó» («obrigado», em português). A viagem chegou ao fim, mas fica a promessa de que voltaremos um dia – Sifnos e Sérifos não podiam ter sido mais surpreendentes.

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