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Heróis de uma luta diária. Contaminado após fazer cirurgia

Heróis de uma luta diária. Contaminado após fazer cirurgiaFoto: CorreioWeb

Mariana Machado - Correioweb - 26/07/2020 - 06:59:29

Heróis de uma luta diária

Mais de 1,2 mil profissionais da saúde foram infectados por coronavírus no Distrito Federal. O Correio conta histórias de quem partiu e de quem sobreviveu numa guerra ainda sem data para acabar e que deixa sequelas profundas no dia a dia desses servidores

Três imagens de Hiram, com a família e no hospital: comprometido com a profissão e respeitado pelos colegas (Arquivo Pessoal)
Três imagens de Hiram, com a família e no hospital: comprometido com a profissão e respeitado pelos colegas

 (Arquivo Pessoal)

Plantão da madrugada. Na emergência do hospital, todos os dias mais pacientes chegam com os mesmos sintomas: febre, dor de cabeça, tosse, dificuldade de respirar, perda de olfato e paladar. É a covid-19 que se espalha dia após dia. Enquanto a indicação geral é de se manter distanciamento, cabe aos profissionais da saúde, a postos na linha de frente, prestar socorro. Eles são os mais cuidadosos: máscara, face shield, aventais e toda a paramentação disponível no momento. Mesmo assim, são seres humanos, suscetíveis ao contágio e, consequentemente, ao risco de não sobreviver. No Distrito Federal, até o momento, 16 desses trabalhadores da área de saúde morreram, vítimas de coronavírus.

 (Arquivo Pessoal)

Segundo a Secretaria de Saúde (SES), até 10 de julho, mais de 46 mil profissionais da rede pública, além de 2.637 terceirizados que trabalham nas unidades de saúde, fizeram testes para covid-19. Ao todo, 1.237 servidores, e 63 terceirizados tiveram resultado positivo para a doença. Em nota oficial, o órgão esclarece que, aqueles infectados, são afastados das funções, e cumprem quarentena de 14 dias. “Todos do núcleo familiar são orientados a permanecer em isolamento e, se apresentarem sintomas, devem procurar a unidade de saúde mais próxima para avaliação”, destaca o texto.

Além disso, todos os trabalhadores da área passam por treinamento nas unidades em que atuam. “Aqueles que prestam assistência diretamente aos pacientes com covid-19 seguem os fluxos de atendimento preconizados no Plano de Contingência da SES”, garante a pasta. “As equipes recebem orientações periodicamente quanto ao uso adequado dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e são treinadas para prevenir a contaminação e disseminação da covid-19.”

O Correio conversou com familiares e amigos de heróis que se foram, assim como aqueles que, depois de quadros graves, conseguiram sobreviver.

Contaminado após fazer cirurgia

"A evolução do vírus é muito imprevisível, e não chega só em quem tem comorbidade. A máscara sufoca, mas, depois desse susto, o sufoco é muito menor que o de estar em uma UTI" Leonardo Rodovalho, médico

Leonardo Rodovalho:
Leonardo Rodovalho: "A chance é muito maior de contrair o vírus, porque a gente está em contato direto. Apesar de nos protegermos, e usar os equipamentos necessários, a gente acaba se contaminando"

“Essa doença chegou para mostrar que ninguém está acima de ninguém”. Assim avalia o cirurgião Leonardo Rodovalho, 45. O médico do Hospital Regional de Taguatinga (HRT) também é um sobrevivente da covid-19, após ter contraído o vírus enquanto salvava outras vidas. “Era uma segunda-feira de maio e eu fiz uma cirurgia de três horas em um paciente com colostomia, que precisava de reconstrução do trânsito intestinal”, recorda. “Usei máscara de proteção, mas foi um longo período e, depois do procedimento, ainda fui visitá-lo, no dia seguinte, na enfermaria, para saber como estava.” Dias depois, o mesmo paciente era internado em UTI, infectado por coronavírus.

Ele começou a ter os primeiros sintomas: dores no corpo, e calafrios. “Achei que pudesse ser dengue, porque na semana anterior tinha feito o teste para coronavírus, e recebido resultado negativo”, lembra Leonardo. Contudo, os sintomas evoluíram para febre, mal-estar, falta de apetite e tosse. Depois de ser examinado no hospital, a primeira tomografia mostrou que o pulmão esquerdo com 30% de comprometimento, o que resultou na internação em 25 de maio.

Foram sete dias de leito, sendo dois deles em UTI. Os conhecimentos da formação o permitiam compreender a situação em que estava a partir da leitura que fazia dos equipamentos que o monitoravam. “O problema maior é o isolamento. A UTI te dá segurança, porque você é monitorado, mas, ao mesmo tempo, gera uma angústia muito grande porque, quando a saturação baixa, você vai ficando preocupado”, pondera. “Na primeira noite, não dormi nada. O tempo todo era o receio do tubo vir.”

Hoje, de volta à ativa, Leonardo avalia os riscos que os profissionais da saúde correm. “A chance é muito maior de contrair o vírus, porque a gente está em contato direto. Apesar de nos protegermos, e usar os equipamentos necessários, a gente acaba se contaminando. Nesse contato o tempo todo, a gente está preocupado.” Agora, ele celebra a recuperação. Na última terça-feira, recebeu o resultado da sorologia, mostrando que ele desenvolveu anticorpos para a doença. “A evolução do vírus é muito imprevisível, e não chega só em quem tem comorbidade. A máscara sufoca, mas, depois desse susto, o sufoco é muito menor que o de estar em uma UTI.”

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