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Ilona Szabó: “Mudei de país depois de sofrer de ataques”

Ilona Szabó: “Mudei de país depois de sofrer de ataques”Foto: Fecomercio

Em entrevista a Marie Claire, a cientista política nomeada por Sergio Moro e exonerada por Jair Bolsonaro no ano passado - e citada por ele hoje em seu discurso — diz que o presidente incentiva os ataques a mulheres nas redes sociais — e que se desdobram para além delas

Revista Marie Claire - 24/04/2020 - 21:53:58

Durante a coletiva sobre a saída de Sergio Moro, o presidente Jair Bolsonaro mencionou nome da cientista política carioca Ilona Szabó. No começo do ano passado, o ex-ministro a nomeou para o cargo de suplente no Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, um órgão composto por membros da sociedade civil. Assim que soube da indicação, Bolsonaro a exonerou. No discurso desta sexta feira, 24 de abril, Bolsonaro disse que Ilana era “abortista e defendia a "ideologia de gênero”. Presidente do Instituto Igarapé, Ilona tem ampla experiência e respaldo internacional no estudo e atuação de questões de segurança pública. Em entrevista a Marie Claire , ela conta que precisou deixar o país também em função de ataques e perseguições que extrapolaram as redes sociais. Mudou-se para Nova York, onde dedicou-se ao estudo das perseguições virtuais e concluiu: “há um fechamento do espaço cívico no Brasil"

Marie Claire: Hoje o presidente Jair Bolsonaro disse que você era abortista e defensora da ideologia de gênero, como se defender a legalização do aborto e debater questões de gênero fosse um problema. Como recebeu essas palavras?

Ilona Szabó: Impressionante porque é a segunda vez que ele faz isso. Prefere citar temas que não são minhas pautas de trabalho. Também não sei o que é ideologia de gênero, gostaria que alguém me explicasse. O presidente sabe claramente quais são as minhas posições. Temos muitos pontos de diferença e o principal deles é o controle de armas. Trabalho pela regulação responsável de armas. E acho que ele faz isso, especialmente com mulheres, para jogar outros grupos que tem posições mais radicais contra a gente. Tem um grupo forte, do lobby das armas, das pessoas que acham que armar todo mundo é um caminho, ele quer juntar mais gente para me perturbar nas redes sociais. Obviamente isso não fica só nas redes sociais.

MC: Você já recebeu outros ataques provocados por falas do presidente? E de que maneira os ataques extrapolaram as redes sociais?

IS: Sou alvo de ataques há bastante tempo, mas eles ficaram piores a partir de 2017. Vi animosidades em um lugares público, indo pegar uma ponte aérea, eventos. Mas infelizmente no governo Bolsonaro os ataques têm outros desdobramentos. Tivemos que tomar uma série de medidas de segurança no Instituto Igarapé, mudar a sede. Fui passar um tempo fora do Brasil, fazer um fellowship. Eu já queria fazer uma reflexão, mas a questão de não conseguir fazer uma análise de risco da segurança da minha família, das pessoas que trabalham comigo, provocou essa mudança. Tive oportunidade de fazer uma pesquisa sobre o fechamento do espaço cívico no Brasil. Conversei com pessoas: jornalistas, artistas, gente havia saído do governo, para saber dos desdobramentos dos ataques online na vida pessoal delas. E são muitos. Inclusive porque tem chantagens, intimidações, outro tipo de monitoramento que nos coloca em um momento bastante crítico. Os ataques não são só online, vão para a vida pessoal, institucional e profissional.

MS: Imagina que essa fala de hoje vá incentivar novos ataques?

IS: Depois de mim, tiveram os feitos às jornalistas mulheres, a Patrícia [Campos Mello], a Vera [Magalhães] para citar algumas. Se for conversar com elas, veremos que todos têm consequências, imagino, para além dos haters e dos robôs. O que está mais claro para a sociedade é que isso é um modus operandi. Porque o debate democrático infelizmente não interessa a esse governo. O que aconteceu hoje me preocupa muito. Esses sinais vêm sendo dados há muito tempo. Estamos acompanhando um desgaste de todo o debate democrático. Quando a gente fica sabendo que há a tentativa - e agora sem o ministro lá talvez se consolide - de uma interferência política numa organização como a polícia federal, o que eu já temia com relação a segurança e ao estado democrático de direito fica muito pior. Se as instituições democráticas não se levantarem agora e pautarem ações, a gente corre o risco de virar uma democracia iliberal, no mínimo. Com todas as suas falhas, o Brasil era até pouco tempo um lugar onde a gente podia conversar e debater, discordar e continuar sendo amigo. Isso se tornou perigoso, inclusive.

MC: Ficou ofendida com a fala dele?

IS: Fiquei supresa. Como disse, isso já teve um impacto muito forte na minha vida anteriormente. Não acho que é uma ofensa. Mas sei o que significa. Eu, minha família, minha equipe já pagamos um preço muito alto. Tudo o que eu não podia imaginar é que algo tão insignificante fosse mencionado em meio a uma pandemia, em que estão morrendo milhares de pessoas. Qual é de fato o foco de um presidente? Não posso chamar ele de liderança porque não tem competência de liderança, não está unindo o país. Para mim, o foco devia ser na pandemia, tanto salvar vidas quanto tentar uma ajuda econômica. O que está claro é que salvar vidas não é prioridade desse presidente.

MC: Você é à favor da descriminalização do aborto?

IS: Sim. Sou uma estudiosa de políticas publicas e quanto mais acesso a informação e apoio as mulheres têm em um país, o número de abortos diminui, não aumenta. Não tenho nem hum problema dizer isso, mas não é uma pauta de trabalho minha.

MC: Quando o ex-ministro Sergio Moro lhe convidou para fazer parte de sua equipe, como recebeu o convite, uma vez que boa parte da carreira lutou pelo desarmamento ao passo que uma das principais bandeiras do governo era a de liberação do porte de armas?

IS: Importante explicar o que é um Conselho de Políticas e porque sempre quisemos ocupar esse espaço como sociedade civil. O convite partiu de um contato em um painel que moderei em um evento em Davos, na Suíça. Naquela ocasião coloquei parta ele minha posição inclusive com relação ao controle de armas e apresentei uma agenda técnica. Marcamos uma conversa. Pouco antes de ela acontecer ele me convidou. É um cargo de sociedade civil, não remunerado, voluntário para tentar melhorar a política pública no Brasil. É a parte da missão. Na verdade, eu estava doando o meu tempo. Quando foi anunciado, eu estava em Brasília com o ministro em uma reunião sobre a agenda de segurança pública e ambos estávamos bastante chocados com a reação nas redes sociais. O que aconteceu ali foi que o presidente
interferiu e pediu que ele me desnomeasse. A surpresa foi de um presidente ter tempo para interferir em algo tão irrisório. Era nada. Não tinha nenhum
poder de deliberação. Qual é o medo das ideias diferentes, do debate, de você conseguir conversar sobre visões distintas, em políticas públicas baseadas em
evidências? Para mim, consolidou o que achava: esse governo seria muito difícil. Na época do referendo das armas, em 2005, debati com o presidente
Bolsonaro em uma universidade no Rio de Janeiro. Para mim foi muito difícil. Eu tinha menos prática, ele, obviamente, já era um político experiente, mas ver
uma pessoa que não tinha comprometimento com os dados, nem com a verdade dos fatos. Estava ali fazendo um trabalho para a bancada das armas, obviamente eu
levei a pior. Foi algo bastante traumático, até hoje está marcado. Mas acredito que ele nem se lembre, foi há muitos anos. Agora, novamente, esse
encontro nessa mesma pauta. É lamentável que a gente tenha que falar de coisas que não importam, o foco devia estar em outro lugar.

MC: Como você, como cientista política, avalia a conjuntura brasileira hoje?

IS: Indo para uma nova e perigosa fase na democracia brasileira. O desgate do ministro não é de hoje. Dizer que há um pedido e vontade de interferência direta nesse trabalho, interferência politica, seja para beneficiar ele, sua família, um grupo próprio, é um cruzamento absolutamente inacreditável e inaceitável. Isso requer
reação. Se não vamos ver o que está acontecendo em outros países. Estamos olhando alguns países que se aproveitam da pandemia para se tornar democracia
iliberais, como a Hungria, Filipinas. Para falar só mais um ponto: a pandemia também traz a questão da tecnologia porque estamos vendo que para sair do
isolamento, precisaremos adotar tecnologias de monitoramento muito mais presentes e o risco disso ser feito por governos com tendências autoritárias é
gigantesco. Como sociedade temos que nos atentar de que é a hora de se levantar e exercer a cidadania ativa. Eu diria que a democracia está em risco. Por que essa interferência na Polícia Federal? Por que intervir em investigações agora? Temos que ficar atentos, ele não comprou essa briga à toa. Sabia que teria um custo e calculou o risco.

MC: Você se considera feminista?

IS: Sim. Sou uma feminista, defendo uma igualdade, temos um caminho enorme para a equidade, mas gostaríamos que ressaltássemos as características femininas tanto em homens quanto mulheres. Para sairmos do embróglio em que estamos como sociedade e pensar num mundo que a gente quer pós-pandemia, pós-governo Bolsonaro, vamos precisar de características femininas.

MC: Você manteve contato com o ex-ministro Sergio Moro?

IS: Desde o episódio da exoneração, preferi e até foi um acordo em comum, que nunca mais nos falássemos. Não quer dizer que não tenhamos contribuídos para políticas públicas. Construimos diálogos com a secretaria de segurança pública, mas qualquer pessoa que eu encontrasse do governo, como me encontrei com o Santa Cruz, foram penalizados. Não havia espaço e nunca tive que fazer coisas escondida. Minha opção na sociedade é ter minha opinião e pagar o preço. Sou livre. Continuo o diálogo, menos com o executivo federal, como gostaria de fazer. Fiz com todos os governos anteriores desde que comecei a trabalhar.

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