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Jonas Brant: "O que funciona é o isolamento social"

Jonas Brant: Foto: CorreioWeb

Ao CB.Poder, professor do Departamento de Saúde Coletiva critica falta de mensagem clara das autoridades sobre a questão do distanciamento

Celimar De Meneses* - Correioweb - 23/06/2020 - 08:38:23

A forma mais rápida de conter o avanço do coronavírus é aliar isolamento social efetivo com rastreamento de contatos dos infectados. É o que afirma Jonas Brant, epidemiologista e professor do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade de Brasília (UnB), em entrevista ao CB.Poder, uma parceria do Correio Braziliense com a TV Brasília. Segundo o especialista, Brasília não toma nenhuma das duas medidas, pois a quarentena na capital tende a ser flexibilizada pelo próprio governo. O professor ressaltou a falta de mensagem clara por parte das autoridades ao informar à população sobre a importância do distanciamento social, além, de nos últimos anos, o país ter retirado o investimento em pesquisa, o que poderia ajudar a encontrar remédios ou tratamentos efetivos contra a covid-19.

Como o senhor enxerga essa discussão sobre a reabertura total das atividades?

Muito triste que a gente precise fazer essa discussão. Do ponto de vista da ciência e das evidências que temos até o momento, nenhuma delas sustenta a abertura de atividades comerciais que gerem aglomeração, porque estamos num cenário de transmissão muito alta.

Qual é o caminho para buscar a melhora desse cenário?

Acho que as medidas estão claramente postas. São o distanciamento social que a gente vem adotando, mas não de forma efetiva, e um fortalecimento grande de detecção dos casos, ou seja, diagnóstico e isolamento deles e de todos os contatos. É importante a gente entender que a pessoa começa a transmitir o vírus dois dias antes do início dos sintomas e só é diagnosticada lá pelo quarto dia de sintomas, então, já se foram quatro dias de transmissão. Quatro dias é o período de encubação do vírus. Por isso, que eu preciso isolar o caso e todos os contatos.

É possível avaliar o impacto que as medidas de reabertura e relaxamento tiveram?

Ao abrir o comércio, estimula-se a interação das pessoas e, com isso, criam-se redes, isso faz com que o vírus encontre uma possibilidade de ser transmitido. Nesse sentido, o DF perdeu uma oportunidade grande, foi umas das primeiras unidades da Federação a adotar o isolamento social, e poderia, além de ter preparado sua rede de assistência e ampliado o número de leitos, ter investido forte no fortalecimento da atenção primária e das equipes de vigilância. Isso não ocorreu e, com isso, não estamos conseguindo fazer o rastreamento dos contatos.

O que as pessoas que estão em casa podem fazer?

Do ponto de vista prático, é organizar-se, pensar que as coisas que se faziam toda semana talvez possam se reduzir a uma vez por mês, como uma compra de supermercado maior para evitar sair de casa. E, quando precisar sair de casa, usar máscara, óculos, para evitar a transmissão. Pensar que o tempo inteiro eu tenho de olhar para as coisas que podem colocar em risco, não tocar, não sentar, não apoiar na mesa, não abraçar.

O aumento de casos nas regiões periféricas era esperado?

Sim, é um cenário de maior adensamentos nas residências e de residências. É uma população com infraestrutura de saúde e saneamento precários. Isso se agrava com o fato de ser uma população que está sendo pressionada a voltar às suas atividades. A população de classe média e alta consegue manter o isolamento, mas essa outra população é tensionada a usar ônibus lotados.

O Brasil chegou a mais de 1 milhão de casos e mais de 50 mil mortes. Onde errou?

Tivemos muito tempo mais que Europa e Estados Unidos para nos preparar, mas não conseguimos criar um alinhamento sobre as mensagens e as ações a serem adotadas. Além disso, a categoria de profissionais da saúde não foi levada em conta nas decisões, e gastamos muito tempo com medidas que, cientificamente, não têm evidências de que funcionam. O que funciona é o isolamento social, o maior número de diagnósticos possível e o rastreamento de contatos.

A dificuldade para encontrar um medicamento eficaz é por culpa do vírus ou do contexto?

Os dois. Em geral, doenças virais não são fáceis de identificar remédios. É mais fácil identificar vacinas, mas leva tempo. O mundo inteiro está correndo atrás disso, mas, no caso do Brasil, é mais difícil, porque a gente vem tirando investimento da ciência. É a ciência que pode nos ajudar a enfrentar esse desafio, e a falta de investimento na pesquisa básica e aplicada colocaram o Brasil como consumidor da tecnologia de outros países. Agora, vamos ter que esperar outros países desenvolverem essa tecnologia para, depois, comprar a preço de ouro.

* Estagiário sob supervisão de Guilherme Goulart

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