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Jovem dedicada e batalhadora. Ser mulher é estar sob risco

Jovem dedicada e batalhadora. Ser mulher é estar sob riscoFoto: CorreioWeb

A advogada de 26 anos assassinada em Planaltina era casada, tinha um filho de 3 anos e prestava assessoria jurídica no Ministério da Educação. Há seis meses, passou em concurso do Ministério Público da União e aguardava ser chamada

Por Alan Rios, Jéssica Eufrásio E Walder Galvão-correio Braziliense - 27/08/2019 - 09:02:53

Evangélica, Letícia Sousa Curado de Melo, 26 anos, era conhecida pela fé, pela determinação e pela dedicação aos estudos. Em 2018, ela havia passado no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e começou a estudar para concursos. Neste ano, estava no que a família considerou “a melhor fase da vida”. Ela morava com o marido, Kaio Fonseca Curado de Melo, 26, e com o filho do casal, de 3 anos, em Arapoanga, bairro de Planaltina. Também era funcionária terceirizada no Ministério da Educação, onde prestava assessoria jurídica.

Em fevereiro, a advogada foi aprovada no concurso público do Ministério Público da União (MPU) para o cargo de analista e aguardava ser convocada. Em junho, passou no processo seletivo para estudar na Fundação Escola Superior do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). No último dia 5, ela começou a frequentar as aulas do curso de pós-graduação em ordem jurídica e MPDFT, destinado a quem deseja ingressar na carreira de promotor público.

As aulas programadas para a noite de ontem foram canceladas em virtude do assassinato. “A Fundação e toda a nossa comunidade acadêmica se unem em oração aos familiares e amigos de Letícia Sousa Curado. Nossos corações estão em luto com a confirmação da morte de nossa querida aluna. Lembraremos dela como uma mulher determinada, estudante dedicada, colega presente. Uma jovem repleta de força de vontade e que tinha toda a vida pela frente, mas que infelizmente foi ceifada por conta da violência”, comunicou a instituição de ensino.

Luto

Por meio de nota oficial, o MEC também lamentou a morte da jovem. O órgão informou que “presta solidariedade e apoio à família da vítima, amigos e colegas de trabalho”. “O ministro da Educação, Abraham Weintraub, considera o crime bárbaro e inaceitável e confia no trabalho das forças policiais e do Poder Judiciário para que o culpado seja punido”, acrescenta o texto.

A seccional distrital da OAB também publicou nota lamentando a morte da advogada. A entidade informou que, desde sexta-feira, quando começaram as investigações, concentrou esforços para auxiliar na solução do caso e oferecer apoio à família. A entidade informou, ainda, que acompanhará o processo na Justiça. “(A OAB/DF) Informa que nomeará advogadas para atuarem como assistentes da acusação durante o julgamento do crime, respeitando todos os preceitos legais, com o objetivo que se chegue ao deslinde do caso com a punição das pessoas que praticaram a conduta criminosa”, ressalta a nota.

Buscas

Na manhã de ontem, cerca de 30 pessoas percorreram a área de matagal do Vale do Amanhecer em buscas de pistas que pudessem levar ao paradeiro de Letícia. Pastor da igreja que a advogada frequentava havia três anos e colaborador nas buscas, Paulo de Sá, 61, lamentou a morte da advogada. “Desde que ela desapareceu, na sexta-feira, não paramos de procurar. Era uma pessoa tranquila, linda, estudiosa e dedicada. Infelizmente, a encontraram morta. Era como se fosse da família”, comentou.

Após receberem a notícia da morte, a maior parte do grupo seguiu para a delegacia na tentativa de consolar os familiares de Letícia. Tios e primos estavam desde a manhã e a tarde de ontem na porta da 31ª DP (Planaltina) em busca de novidades sobre o caso. “Não dá para acreditar que isso aconteceu. O importante, agora, é preservar a família”, concluiu o pastor Paulo.

Ser mulher é estar sob risco

por Fabriziane Zapata, juíza titular do Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher da Circunscrição do Riacho Fundo e coordenadora do Núcleo Judicial da Mulher

Publicação: 27/08/2019 04:00

No Brasil, desde 2015, a lei penal pune o crime de feminicídio, que consiste em matar “a mulher por razões da condição de sexo feminino”. Segundo o Código Penal, há razões da condição de sexo feminino “quando o crime envolve violência doméstica e familiar ou menosprezo ou discriminação à condição de mulher”. É feminicídio não apenas o caso em que vítima e seu algoz mantiveram alguma relação afetiva, mas também quando os fatos criminosos evidentemente demonstram que a “condição” de mulher foi decisiva para seu cometimento. Ser mulher é, infelizmente, estar constantemente sob o risco de sofrer violências, por toda a vida, desde criança até idosa, em todas as classes sociais e em todas as raças.

Atualmente, cifras assustadoras (e vergonhosas) apontam o Brasil como o quinto país do mundo que mais mata as suas mulheres. E, por isso, precisamos falar sobre gênero, sobre as relações profundamente desiguais de poder entre homens e mulheres. Afinal, o que faz um homem acreditar que ele pode eliminar a vida de uma mulher quando ela se recusa a manter relação sexual com ele (ou quando se recusa a um beijo, ou a um abraço, ou a qualquer ato lascivo) ou quando ela se recusa a permanecer no relacionamento (aqui, a famosa frase “se não for minha, não vai ser de mais ninguém”)?

Incentiva-se que meninos, desde muito cedo, sejam agressivos e que mostrem que são homens (“homem não chora”, “homem não leva desaforo para casa”, “vira homem!”). Na adolescência, ou mesmo antes dela, meninos são encorajados, e até mesmo obrigados, a mostrarem toda sua virilidade (“já tem namorada?”, “pegou quantas?”, “esse vai ser um garanhão!”). Além dos comentários mais “inocentes” de familiares e amigos, ainda temos que nos atentar para publicidades que reforçam os estereótipos de gênero, mostrando a mulher como um corpo a ser consumido, em última análise, uma coisa. E se as mulheres são apresentadas a todo tempo como coisas (umas mais valiosas, outras menos), a partir do momento em que não servem mais, podem ser descartadas.

Por outro lado, paremos de julgar a vítima mulher. Afinal, a culpa pela morte da mulher não é da “saia curta”, ou do seu “belo corpo”, ou porque ela estava “andando sozinha na rua”. Ela foi morta porque existe uma cultura machista que legitima a posição de superioridade de homens, perpetuando relações violentas entre os sexos.

Não se trata de negar as diferenças entre homens e mulheres, mas de afastar as ditas “masculinidades tóxicas”, a busca para se provar “macho” a todo momento – estimulando violência, fechamento emocional, homofobia e obsessão com dinheiro, sexo e poder.

Precisamos urgentemente de um movimento consciente de toda a sociedade (homens e mulheres) para a educação de meninos e meninas, ensinando e mostrando, no dia a dia, que têm os mesmos direitos e oportunidades (equidade de gênero) e que merecem respeito. Somente através da educação, nas famílias, nas escolas, nos meios de comunicação, que poderemos mudar esta cultura tão nefasta que adoece todo o corpo social, e causa tanta indignação, frustração, impotência, tristeza e sofrimento.

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