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Mães que cuidam de todos na pandemia

Mães que cuidam de todos na pandemiaFoto: Estadão

Mulheres que trabalham em serviços essenciais contam como serão as celebrações hoje; mesmo com a distância, não faltará carinho

Estadão Conteúdo - 10/05/2020 - 07:31:36

Grande parte do que se associa ao Dia das Mães não será possível neste domingo. A celebração não terá casas cheias, beijos e abraços apertados nem grandes almoços de família. Ao menos para aqueles que podem e aceitam o distanciamento necessário na pandemia do novo coronavírus , tudo terá de ser adaptado com cuidado.

Esse sentimento é ainda mais forte entre as mães que trabalham em funções essenciais, da enfermeira à agricultora, da condutora de trem à socorrista, da cientista à profissional de limpeza. Para elas, o dever profissional se soma às precauções redobradas para preservar os filhos e pais idosos.

A enfermeira obstetra Rita Icassatti Queiroz, de 45 anos, conta ter sentido um “chamado” para seguir. Mãe de Davi e Diego, respectivamente de 6 e 13 anos, ela até se sente “privilegiada” em relação a outros profissionais de saúde neste momento, por trabalhar em uma maternidade em que a “grande maioria” das pacientes tem final feliz.

No Hospital e Maternidade Santa Joana, na cidade de São Paulo, ela percebe os desafios da enfermagem na pandemia, em que o distanciamento não pode impedir o segurar da mão e outros gestos nos momentos necessários. “Por causa da máscara, tento passar humanização, carinho, pelo olhar.”

A pandemia é ainda mais presente no cotidiano de Danyella Pereira, de 39 anos, uma das responsáveis pela análise de testes do novo coronavírus no Grupo Fleury. “Conforme a gente vai liberando o resultado, enxerga mais ou menos o que está acontecendo. Às vezes, olha os casos positivos e, dependendo da idade, fica mais sensibilizada.”

Ela conseguiu trocar o plantão deste domingo, mas não vai ter almoço com avó, mãe, pai, tios, primos e irmã. Ficará em casa com o marido e a filha, Iris, de 3 anos, mas todos já planejam festejos. “Quando acabar (a pandemia), vai ser tudo fora de época, Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Pais, uma festa para cada, para tirar o atraso.”

Já Carolina Elias Sabbaga, de 46 anos, liderava estudos do protozoário da Doença de Chagas no Instituto Butantã até ser uma das diretoras de laboratório chamadas a participar da força-tarefa para reduzir a fila de testes do novo coronavírus na rede estadual. “É uma loucura o dia inteiro, a gente passou feriados emitindo laudos”, diz.

Grande parte dessa nova rotina de Carolina é no escritório montado na sala de casa, com o convívio das filhas Luiza e Marina, respectivamente de 14 e 18 anos. “A mais velha fica envolvida, pergunta muito. Com essa história de trabalhar em casa, todo mundo ouve um pouco. Elas veem que a história que passa na TV está aqui dentro de casa também.”

Celebração

Outra mãe trabalhadora essencial é a agricultora Terezinha dos Santos Matos, de 53 anos, que planta mais de 50 variedades de alimentos orgânicos em São Mateus, na zona leste. Com o marido, José, de 57 anos, cuida da horta, entrega produtos para clientes idosos e participa de duas feiras. “A doença triplicou os pedidos, o que a gente leva vende.”

Terezinha prevê um domingo de descanso, em relação às 15 horas diárias de trabalho que chega a cumprir. Estará acompanhada dos filhos Luiz, de 17 anos, e Cleisiane, de 33, que moram com ela, mas distante de Angélica, de 29 anos, que é casada. “Vai ser um Dia das Mães completamente diferente. Geralmente vêm outros parentes, meus irmãos, que moram todos por aqui.”

Já Juberlania Guilherme do Nascimento, de 36 anos, ficará com a filha, Isabelle, de 12 anos, que está preparando um presente secreto com fotos que pegou emprestado. “Ela sempre faz uma coisa, uma cartinha, sempre me surpreende.”

Operadora de trens na Linha 5-Lilás do Metrô, ela gosta de dizer que não transporta pessoas, mas “histórias”. Também costuma ficar de olho nos vagões e, se percebe aglomeração, emite um aviso aos passageiros. “Sei que estou na linha de frente para levar pessoas que provavelmente vão salvar vidas.”

Para a camareira Ana Lucia Nascimento, de 43 anos, a celebração com o filho, Davi, de 7, e a mãe, Ana, de 66, será apenas à noite, pois estará de plantão na casa de repouso Lar Sant’Anna. “Vou vir trabalhar com toda a alegria, para conversar com os idosos que estarão saudosos dos filhos (pela suspensão das visitas)”, conta. “Oro muito para que Deus guarde a minha casa, não me deixe esquecer de usar álcool em gel ou colocar a mão no rosto. Tenho buscado ter calma, o desespero não vai ajudar.”

Filha usa roupa do Samu para homenagear mãe

‘Quando a minha filha for maior, que ela reconheça a grandeza de ajudar o próximo’, diz socorrista

A auxiliar de enfermagem Claudia Cristina de Sá, de 36 anos, fala que costuma colocar o “medo no bolso” sempre que veste o uniforme de socorrista do Samu paulistano. “Espero, de coração, quando a minha filha for maior, que ela reconheça a grandeza de ajudar o próximo. E não por esperar aplausos, mas pelo crescimento pessoal e o crescimento espiritual, que sirva de exemplo em relação ao amor ao próximo”, declara.

Tal qual a última obra de arte de Banksy , em que uma enfermeira é a super-heroína de uma criança, Claudia também é a inspiração da filha, Maria Antônia, de 2 anos. Tempos atrás, a menina se encantou com uma pequena camiseta semelhante ao uniforme do Samu entre as roupas da mãe. “(A peça) foi um presente de um senhor aposentado do Samu. Ela abriu a minha gaveta e viu. Falou: ‘Mamãe, eu quero pôr’. Ela fala: ‘não sou a Maria Antônia, sou a doutora.”

Claudia conta que a menina já pensa em trabalhar na área da saúde quando adulta, também inspirada por uma tia paterna médica. Por isso, mãe e filha até já posaram sorridentes para um ensaio com as roupas.

As duas passarão o Dia das Mães juntas, mas sem a companhia da avó materna, da tia materna e dos primos de Maria Antônia, com quem costumam fazer “aquela festa” na data. “Por conta dessa quarentena, vai ser tudo via internet, o presente foi comprado pela internet e a gente vai se ver por vídeo”, comenta a auxiliar de enfermagem.

Claudia vai na casa da mãe (idosa e com doença preexistente) periodicamente apenas para entregar compras essenciais. Já Maria Antônia tem contato eventual com as duas avós quando coincidem os compromissos profissionais dos pais, embora a socorrista não considere a situação ideal.

Embora lide com casos graves no cotidiano, atendendo no entorno do distrito de Ermelino Matarazzo, no extremo leste da cidade de São Paulo, a socorrista ressalta ser otimista em relação à pandemia e diz que essa “doença invisível” vai passar. “O vírus é praticamente palpável para mim, vejo praticamente todos os dias quando estou de plantão”, aponta. “Tenho medo? Tenho medo. Eu não sei de onde estou tirando força para ser tão confiante.”

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