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Mais que cancelar Drauzio, querem justificar o próprio ódio

Mais que cancelar Drauzio, querem justificar o próprio ódioFoto: Ciee

Por que a internet massacra Drauzio e aplaude Bruno?

Júlia Rocha - Ecoa - 09/03/2020 - 15:00:51

Há pouco mais de uma semana, o médico Drauzio Varella entrevistou uma detenta de nome Susy num presídio da cidade de Guarulhos. A entrevista era parte de uma matéria sobre as vivências de mulheres trans em presídios masculinos. Num momento da entrevista, Drauzio, conhecedor das mazelas do sistema carcerário brasileiro por ter dedicado anos da sua vida profissional a cuidar de pessoas encarceradas, oferece a esta mulher um abraço.

Um parêntese: isso diz sobre Drauzio. O que veio depois fala sobre o que somos.

Nenhum médico em sã consciência, ao se colocar diante de alguém em situação de encarceramento ou com familiar encarcerado pergunta a esta pessoa qual foi o crime que ela cometeu. Drauzio estava ali como um médico. Ele não é repórter. É cientista. Estava a documentar as vivências destas mulheres. Não cabia a ele interrogar ou investigar. Isso nos compromete o julgamento como profissionais de saúde.

Imagine receber uma mulher em intenso sofrimento, carregada por familiares, chorando por que seu filho foi preso e perguntá-la o que foi que ele fez. Acaso a resposta vai interferir no cuidado que vamos prestar a ela? Há um crime aceitável e outro inaceitável para a prática médica? E é por esta régua que eu vou medir o tanto de humanidade que vou devotar àquela mulher durante o atendimento? Se seu filho matou uma criança, ela se torna menos merecedora da minha humanidade e da minha habilidade como profissional?

E se o próprio criminoso me procura buscando ajuda, devo eu questioná-lo para saber se o crime que o fez estar ali está na minha lista dos que merecem ser relevados?

Soube-se, após a publicação da matéria, que a detenta foi autora de um crime bárbaro contra uma criança. Estuprou, torturou, matou. Compartilho sinceramente da dor imensa desta família. Aliás, não consigo imaginar a tragédia sem medidas que é viver um momento como esse, mas, ainda assim, acho importante ir em busca de outra reflexão.

Há dez anos, um homem e seus amigos mataram, esquartejaram e deram aos cachorros o corpo de uma mulher que inclusive era mãe de seu filho. Recentemente este homem frequentou as manchetes dos jornais anunciando sua volta ao futebol. Que sintomático, não? Para este ex-atleta, comprovadamente feminicida, devotamos admiração e muitos pedidos de selfies .

Afinal, qual a diferença entre Bruno e Susy? Drauzio não sabia de seu crime ao abraçá-la, mas e se soubesse? Os homens e mulheres que frequentemente se espremem pedindo por uma foto com Bruno sabiam. Seria nossa transfobia maior que a nossa capacidade de se compadecer com a dor de uma mãe que perde a filha assassinada? Nossa sede de vingança e revanchismo diante do crime de Susy não nos moveu para buscar justiça por Elisa Samúdio, sua mãe e seu filho? Ou será que, no fundo, achamos que, diferentemente da vítima de Susy, Elisa mereceu morrer?

Não se aplaude, não se glamoriza, nem se minimiza nenhum crime. Nem os cometidos contra mulheres. Susy, sendo ela quem for, não muda a realidade de vulnerabilidade extrema da população trans brasileira. Mulheres trans têm expectativa de vida que é a metade da população geral. Extrapole Susy. Ela está a cumprir sua pena. Até que ponto nossa revolta é reflexo de um desejo de justiça ou é tradução do ódio que agora direcionamos a ela. Queremos matá-la? Por que apontamos para Susy e poupamos Bruno?

Será que, no fundo, estamos buscando meios de atacar uma luta maior? Uma luta de milhões de mulheres por direitos? Uma luta feminista, antipunitivista? Precisamos destituir Susy de qualquer humanidade para, enfim, deslegitimar tudo que uma mulher trans e negra representa?

Será?

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