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Maquiagem tecnológica. Tempos de falsas memórias

Maquiagem tecnológica. Tempos de falsas memóriasFoto: CorreioWeb

Algoritmos de busca podem limitar a diversidade de informações

Vilhena Soares-correio Braziliense - 04/10/2019 - 11:12:49

A próxima etapa da pesquisa será investigar a influência de falsas memórias relacionadas ao referendo do Brexit e ao movimento #MeToo. A expectativa dos cientistas é de que as fake news tenham efeitos semelhantes em outros contextos políticos, incluindo a próxima disputa à Casa Branca. “Em concursos políticos partidários altamente emocionais, como a eleição presidencial dos EUA em 2020, os eleitores podem ‘lembrar’ notícias totalmente fabricadas. Em particular, é provável que eles ‘lembrem’ de escândalos que refletem mal no candidato oponente”, diz Gillian Murphy, pesquisadora da Universidade College Cork, na Irlanda, e uma das autoras do estudo.


Elizabeth Loftus, coautora do estudo e pesquisadora da Universidade da Califórnia, lembra que entender os efeitos psicológicos das notícias falsas é fundamental e lança um desafio à sociedade. “As pessoas agem com base em suas memórias falsas e, muitas vezes, é difícil convencê-las de que notícias falsas são falsas. Com a crescente capacidade de tornar as notícias incrivelmente convincentes, como vamos ajudar as pessoas a se protegerem para não serem enganadas?”, ilustra. “Esse é um problema em que os cientistas psicológicos podem atuar”, sugere.


A psicóloga Gabriela Panfili Menicucci chama a atenção para o efeito da tecnologia sobre a disseminação de notícias falsas. “Uma questão importante a ser ressaltada é que a tecnologia tem contribuído para que as pessoas não questionem suas crenças. Isso porque as ferramentas de busca de informação têm algoritmos que entendem qual é a preferência de conteúdo da pessoa e a passam a mostrar mais facilmente aquele tipo de informação de que o usuário gosta. Ou seja, estamos vivendo em uma bolha de informações que não nos faz refletir, justamente por falta de acesso a opiniões divergentes.”


Tempos de falsas memórias

Experimento mostra que o contato com fake news pode levar indivíduos a internalizar informações falsas de uma forma que elas passam a influenciar comportamentos futuros. Especialistas alertam que o fenômeno tem graves implicações sociais

Vilhena Soares


As notícias falsas são um dos maiores desafios contemporâneos. A desinformação provocada por elas influencia desde questões de saúde pública — como a propagação de mitos relacionados à vacinação — a disputas políticas. Pesquisadores norte-americanos trazem um olhar mais subjetivo aos impactos das fake news. Em um estudo publicado recentemente na revista Psychological Science, eles mostram que esse fenômeno pode estar ligado à criação de falsas memórias.


A pesquisa foi realizada na semana anterior a um referendo, na Irlanda, sobre a legalização do aborto. Os cientistas recrutaram virtualmente 3.140 eleitores e perguntaram se e como planejavam votar. Em seguida, apresentaram a cada participante seis reportagens — duas traziam histórias inventadas, mostrando ativistas de ambos os lados da questão envolvidos em comportamentos ilegais.


Depois de ler cada história, o participante era questionado se já havia ouvido falar sobre o evento descrito e se tinha lembranças específicas sobre o assunto. Os pesquisadores, então, informavam que algumas das histórias haviam sido inventadas e convidavam o participante a identificar quais os relatórios eram falsos. Por último, o voluntário era submetido a um teste cognitivo.


Segundo os cientistas, quase metade dos entrevistados relatou uma memória para pelo menos um dos eventos inventados. Muitos deles recordaram detalhes extremamente ricos sobre as fake news. Os indivíduos a favor da legalização do aborto foram mais propensos a se lembrar de uma mentira relacionada aos oponentes do referendo e aqueles contra a legalização foram mais propensos a se lembrar de algo falso sobre os proponentes.


Muitos participantes se negaram a reconsiderar mesmo depois de saberem que algumas informações que acreditavam ser verdadeiras poderiam ser fictícias. “Isso demonstra a facilidade com que podemos plantar essas memórias totalmente fabricadas. Apesar da suspeita dos eleitores e mesmo de um aviso explícito de que eles poderiam ter sido expostos a notícias falsas, elas fizeram efeito”, destaca, em comunicado, Gillian Murphy, pesquisadora da Universidade College Cork, na Irlanda, e uma das autoras do estudo.


Habilidades cognitivas
Os participantes que obtiveram pontuações mais baixas no teste cognitivo não estavam mais propensos a formar memórias falsas do que os que obtiveram pontuações mais altas. Esse primeiro grupo, porém, apresentou maior probabilidade de se lembrar de histórias falsas alinhadas às próprias opiniões. Segundo os pesquisadores, essa descoberta sugere que pessoas com maior capacidade cognitiva podem ter mais chances de questionar preconceitos pessoais e suas fontes de notícias.


Para a psicóloga Gabriela Panfili Menicucci, o estudo é uma análise pertinente sobre como as pessoas se relacionam com notícias de acordo com as próprias crenças. “A pesquisa em questão se baseou em notícias falsas e verdadeiras na área política. Mas, nas experiências do dia a dia, já observamos que as crenças influenciam indivíduos a fabricarem suas lembranças e, consequentemente, a terem atitudes baseadas nelas”, diz.


A especialista usa como exemplo as correntes enviadas pelos aplicativos de mensagem . “Se o texto menciona que a pessoa deve fazer determinada ação para ter ‘sorte’, mesmo que alguém alerte que é uma notícia falsa, o indivíduo tem mais propensão a fazer devido às suas crenças”, detalha.


Gabriela Menicucci também ressalta que os dados do estudo relacionados à cognição merecem uma análise mais detalhada. “Outro ponto importante é a menção de que indivíduos com baixa capacidade cognitiva acabam se fechando nos conhecimentos pré-adquiridos e não buscam novas fontes de informação que poderiam alterar suas crenças. Dessa forma, o que se pode perceber é que essas pessoas podem ser mais propensas a assumir uma postura passiva em relação à busca de informações e/ou conhecimentos”, diz.


“Com a crescente capacidade de tornar as notícias incrivelmente convincentes, como vamos ajudar as pessoas a se protegerem para não serem enganadas?”
Elizabeth Loftus, coautora do estudo e pesquisadora da Universidade da Califórnia


50%
dos 3.140 entrevistados relataram uma memória falsa relacionada a uma fake news apresentada pelos cientistas.

Os participantes foram apresentados a reportagens sobre a legalização do aborto na Irlanda

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