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Maria Fernanda Câmara, uma mulher de cinema

Maria Fernanda Câmara, uma mulher de cinemaFoto: Correio Braziliense

Parte do elenco do filme de abertura, a atriz fala sobre mulheres na telona e personagens recentes

Ricardo Daehn-correio Braziliense - 24/11/2019 - 09:07:29

À frente de O traidor, coprodução com chances de colocar o Brasil no Oscar, Maria Fernanda Cândido esteve em Brasília para projeção do longa na abertura do 52º Festival de Brasília. No empenho pela ocupação das mulheres nas telas do cinema, Maria Fernanda assume que, com O traidor, do diretor italiano Marco Bellochio, tem personagem relativamente periférico. O filme trata do desmantelamento da Cosa Nostra a partir das denúncias de Tommaso Buscetta, que viveu no Brasil em duas ocasiões. Na pele de Maria Cristina de Almeida Guimarães, esposa de Tommaso, Maria Fernanda vive uma mulher vinda de família da lei que se apaixona pelo fora da lei. Durante o longa, a atriz participou de cenas tensas, como aquela em que, pendurada num helicóptero, protagoniza uma sessão de tortura. “Fiquei muito dolorida, e com as costelas machucadas”, contou

Escalada para projeto do diretor Luiz Fernando Carvalho sobre Clarice Lispector, a atriz de Terra Nostra (1999) e de Capitu (2008) estará ainda em Vermelho monet e sai, sempre, em defesa de mais exposição para as mulheres na tela. “Há toda a movimentação e discussão que acontece hoje sobre a presença do feminino no audiovisual. E é importantíssima. A partir desse diálogo é que a gente consegue transformar e modificar. É uma primeira ponte construída, e é fundamental”, defende.


Como foi numa coprodução que coloca o Brasil em evidência se impor numa trama de enredo francamente masculino como o de O traidor?
O roteiro, quando li, trazia uma participação da Cristina (esposa do protagonista) que era menor do que o visto na tela, no resultado final. Alguém comentou que eu expandi o papel em cima do proposto. Como intérprete, a gente sempre busca entender e potencializar as personagens que fazemos. O filme nem traz uma boa oportunidade para se discutir a questão do espaço da mulher do cinema, já que essa é a história do Tommaso Buscetta. Falamos dele. Maria Cristina é mencionada, é citada. A Variety fez este comentário, numa crítica que achei fantástica: “Maria Fernanda Cândido, com o pouco, fez o muito”.


Mas sua carreira passa pela preocupação com o feminismo?
Por conta do centenário de Clarice Lispector, em 2020, tenho outro filme que está em processo de montagem. Chama-se A paixão segundo GH. Neste filme, sim, vamos discutir o feminino. Por excelência, ela abre a discussão de maneira muito profunda. A direção é do Luiz Fernando Carvalho. Foi todo rodado no Rio de Janeiro e é ambientado no início dos anos de 1960. Clarice toca em pontos-chaves para mulheres. Conta a história de uma mulher que é uma escultora, moradora de uma cobertura. É bem-sucedida — ela tem o reconhecimento do seu trabalho. Ela mesma se descreve com alguém que conta com amigos, considerada uma companhia agradável, por muitos, e até assume que terminou um relacionamento amoroso, com “um afago muito carinhoso”. Acabou tudo muito bem. Ela se vê chique.


É tema superado encarar nudez, a exposição de ser atriz no cinema?
Já fiz outros filmes em que tive cenas de nu, como acontece em O traidor. Nem sei se há questão de superação — se há este peso. Como já tinha trabalhado assim, não foi novidade. Mas, uma cena nua, você terá a presença nas filmagens de pessoas sem problema nenhum, que encara nudez como parte do cotidiano. Haverá quem tenha pruridos, com mais cuidados. Para mim, nudez não é uma coisa óbvia, não é algo trivial. Para mim é algo que vou trabalhar com muita sensibilidade. Para a cena de O traidor, dois dias antes das filmagens, Bellocchio fez uma reunião comigo. Foi no lobby do hotel, na Alemanha, cada um com o roteiro na mão. Ele me mostrou um desenho que ele tinha feito à mão; ele desenha muito. Deu detalhes do enquadramento da posição exata com detalhes do meu corpo, com estudos de luz e sombra. Olhei o desenho — era belíssimo, lindo. Queria saber se eu estava de acordo. Disse que achava belíssima aquela imagem.


Em O traidor sua personagem tem garra forte quando o tema é família...
Tenho dois filhos. Isso faz parte da minha vida: sou mãe, tenho filhos. Isso de ver o personagem do Tommaso perder os filhos é algo que me impressiona. A experiência da minha personagem é reveladora. Cristina é uma grande mãe — criou, sem distinção, os filhos que ela teve e ainda, no mesmo plano do amor, os quatro enteados que Tommaso teve com outras duas esposas. Ela foi agregadora, sem distinções.


A experiência com coprodução internacional te levou para uma nova fase? Estar com Bellocchio trouxe que ganhos?
No diferencial, Bellochio é próximo do elenco, gosta de escutar, quer saber com grande interesse o que foi preparado por cada um. Quanto à visibilidade lá fora, houve outros convites. Rodei um filme, em outubro, em Lisboa com o brasileiro Halder Gomes. Falo três línguas no filme. Em Portugal, filmamos com coprodução, e há, no elenco, Chico Díaz e Samantha Heck Müller. Houve atores franco-angolanos, portugueses e um inglês. Nos últimos dois anos, fiquei muito entre Brasil e França — meu marido trabalha lá. São circunstâncias da vida, estar no cinema estrangeiro não é uma meta, nem plano, trata-se de estar na Europa, e lá a condição é gerada.

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