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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 17 de outubro de 2021

Mulheres dividem histórias. ‘Transforme sua dor em força’, diz vítima de abuso sexual em Brasília

Mulheres dividem histórias. ‘Transforme sua dor em força’, diz vítima de abuso sexual em BrasíliaFoto: Arquivo Pessoal-Gabriella Prado

Gabriella, de 24 anos, faz tatuagem para se lembrar de sua história e ajudar outras mulheres

Por Larissa Passos*, G1 Df - 11/06/2019 - 12:08:22

Gabriella Prado, de 24 anos, foi vítima de violência sexual quando criança e, por boa parte da vida, sofreu consequências dos abusos. Como na maioria dos casos do tipo, o agressor era alguém com quem ela convivia.

“Eu fui abusada sexualmente com 3 ou 4 anos de idade. Graças a Deus não lembro de nada, mas sempre tive um bloqueio em relação a essa pessoa e sentia certas coisas que só quem já passou por isso sente”.

A jovem só descobriu sobre o abuso após uma conversa com a mãe e, ao invés de ter o apoio dos parentes, a família duvidou da história de Gabriella. Segundo a vítima, foi a pior fase de sua vida.

“No decorrer dos anos, passei a acreditar que a culpa de tudo era minha, que se eu não existisse tudo se resolveria. Foi quando afundei na depressão, em 2017”, conta.

Após chegar ao fundo do poço, Gabriella decidiu se reerguer. Com a ajuda de profissionais da área da saúde, conseguiu melhorar. “Tudo começou a se encaixar, passei a ver as coisas de outra forma e a sentir um alívio. Sou extremamente grata aos profissionais que me ajudaram nessa caminhada”, afirma.

Hoje, dois anos após a experiência, a jovem desenvolve um trabalho ajudando mulheres que já passaram por algum tipo de violência sexual. Ela escreve textos sobre depressão e ansiedade, e conversa com quem está em crise para que não tomem atitudes precipitadas.

“Procuro falar sobre a minha história, os acontecimentos, para ajudar outras pessoas, mostrando que existe o depois, que temos que ter força para enfrentar”, relata.

Para se lembrar de sua história e ajudar outras mulheres como ela, a jovem fez uma tatuagem: "Transforme sua dor em força".

Programa de atendimento a vítimas

A Secretaria de Saúde do Distrito Federal oferece atendimento especializado e gratuito a pessoas em situação de violência, com abordagem biopsicossocial e equipe multidisciplinar.

“Os profissionais que atuam nesses serviços trabalham diferentes metodologias, seja em grupo ou com abordagem individual e multifamiliar, que auxiliam as pessoas a resinificarem as experiências para a superação”, explica a enfermeira do Núcleo de Estudos e Programas na Atenção e Vigilância em Violências, Daniela Magalhães.

O serviço, nomeado "Flores em Rede" está distribuído em todo o Distrito Federal. As vítimas podem procurar também a unidade básica de saúde mais próxima de casa para receber atendimento.

Segundo a psicóloga e gerente de Vigilância de Doenças e Agravos Não Transmissíveis e Promoção da Saúde, Fernanda Falcomer, todos os profissionais que atuam nas equipes da estratégia Saúde da Família estão sendo capacitados para atender esses casos.

“Temos um processo contínuo de educação dos profissionais de saúde para qualificar o atendimento e tornar a rede de saúde, como um todo, um espaço de apoio e proteção para mulheres vítimas de violência", diz Falcomer.

Nos quatro primeiros meses do ano, a Secretaria de Saúde recebeu 1.625 notificações de violência, sendo que, desse total, 1.228 casos foram praticados contra pessoas do sexo feminino.

“Entre janeiro e abril deste ano, foram atendidos nove casos de violência sexual e doméstica, por dia, em toda a rede, seja na Atenção Primária, nos hospitais e nos PAVs, principalmente”, destaca Fernanda.

De acordo com a Secretaria de Saúde, esses atendimentos ajudam a diminuir as estatísticas de feminicídio no DF. Mas os dados ainda são alarmantes. De janeiro a maio, já foram registradas 14 mortes de mulheres vítimas de violência de gênero na capital.

Números de violência contra a mulher no DF em 2019:


‘Resolvi contar a minha história’

Dayane, 37 anos, vítima de violência doméstica — Foto: Mariana Raphael

Dayane, 37 anos, vítima de violência doméstica — Foto: Mariana Raphael

Quem olha para Dayane, de 37 anos, mãe de uma menina de 14 anos e de um rapaz de 18 anos, não imagina a situação que ela viveu. Sofreu agressões físicas, foi privada de trabalhar, estudar e visitar os familiares. E mesmo depois de sair de casa, seu ex-companheiro agia como se ela pertencesse a ele.

“Um dia, pensei em me matar, porque mesmo fora da relação, ele não me deixava em paz. Denunciei. Ele foi preso por descumprir ordem para não se aproximar de mim, mas foi solto um mês depois. Tive depressão, síndrome do pânico e fibromialgia. E a Justiça me encaminhou para atendimento na rede pública”, relembra, ainda demonstrando sinais de ansiedade.

“Juntas somos mais fortes e, por isso, resolvi contar minha história para ajudar outras mulheres a enfrentar e sair da situação de violência.”

Mesmo com todas as dificuldades, ela conseguiu estudar. “Fazia curso técnico de enfermagem e, quando ele soube, mandou cortar a energia da casa. Mas eu consegui”, conta ela orgulhosa, não só por ter terminado o curso, mas por ter sido aprovada em concurso da Secretaria de Saúde.


Consequência da violência doméstica

Vítimas de violência podem desenvolver estresse pós-traumático.  — Foto:  Mariana Raphael

Vítimas de violência podem desenvolver estresse pós-traumático. — Foto: Mariana Raphael

A violência pode deixar marcas e não apenas físicas. Mulheres que vivem em meio a agressões ou já passaram por um trauma podem desenvolver o chamado estresse pós-traumático – transtorno de ansiedade caracterizado por sinais e sintomas físicos, psíquicos e emocionais em razão dos atos violentos que viveram ou presenciaram.

Após ter passado por abuso sexual, Gabriella Prado foi diagnosticada com transtorno misto de depressão e ansiedade. Atualmente, convive com crises. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a violência de gênero é considerada um problema de saúde pública.

“Uma mulher exposta à violência tem sua autoestima afetada, pode desenvolver memórias recorrentes, depressão e ainda ter comportamento suicida, com autolesão”, explica a psicóloga e gerente de Vigilância de Doenças e Agravos Não Transmissíveis e Promoção da Saúde, Fernanda Falcomer.

As vítimas podem desenvolver ainda depressão, ansiedade, disfunção sexual, desordens da alimentação, risco de suicídio, abuso de álcool e drogas, principalmente, Transtorno de Estresse Pós-Traumático.

Em 26 de março, a Câmara Legislativa do DF (CLDF) aprovou, em segundo turno, o Projeto de Lei nº 233/2019, de autoria do deputado Fábio Felix (PSOL). A norma prevê que as escolas públicas do DF apresentem noções básicas sobre a Lei Maria da Penha aos estudantes.

“Iniciativas assim são de extrema relevância se quisermos tratar com seriedade a temática. É preciso falar sobre gênero, masculinidades tóxicas com nossas crianças e adolescentes”, destaca Daniela Magalhães.

Rede de atendimento a vítimas de violência da Secretaria de Saúde

Para mais informações, acesse o site ou ligue para os telefones 180 ou 190.

*Sob supervisão de Maria Helena Martinho.

Leia mais notícias sobre a região no G1 DF.

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