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Museu nos Estados Unidos mostra como era Frida Kahlo na intimidade

Museu nos Estados Unidos mostra como era Frida Kahlo na intimidadeFoto: Divulgação

Exposição que será aberta no dia 8, no Museu do Brooklin, reúne de roupas aos esmaltes usados pela pintora mexicana

Estadão Conteúdo - 04/02/2019 - 14:36:36

O cruzamento exaustivamente documentado de Frida Kahlo, de artista a ícone da cultura pop, não acontece por acaso. A pintora elaborou meticulosamente sua própria imagem em pé de igualdade com Cleópatra. Se ela estivesse viva hoje, provavelmente estaria dando aula de branding (gerenciamento de marcas) em Harvard. Agora é a vez de os Estados Unidos verem como e, mais importante, por que ela fez isso.

Parte do conteúdo da casa que ela dividia com o marido, a muralista Diego Rivera – conhecida como La Casa Azul na Cidade do México – estará acessível pela primeira vez nos Estados Unidos em Frida Kahlo: Aparências Podem Ser Enganosas , exposição em cartaz no Museu do Brooklyn, de 8 de fevereiro a 12 de maio. Seus pertences deveriam ser guardados por 15 anos após a morte de Rivera, de acordo com suas instruções, mas a tarefa de abrir e inventariar os bens só aconteceu muito depois, em 2004. Esta é a maior mostra dedicada a Kahlo nos Estados Unidos, e uma repetição consideravelmente expandida da exposição do ano passado no Museu Victoria and Albert, em Londres.

A abrangente pesquisa acrescenta mais informações sobre os hábitos de colecionadora de Kahlo por meio de obras selecionadas da caixa forte do museu, bem como da seção de Nova York de sua cronologia, e inclui obras emprestadas por instituições e galerias locais. A mistura suplementar de objetos mesoamericanos, um dos muitos tipos de arte que o casal preferia, com suas pinturas e fotografias divulgam sua paixão ardente pela cultura indígena e agrária do México e seus conflitos com o capitalismo, especialmente pela desigualdade de renda que ela testemunhou durante suas viagens aos Estados Unidos.

Os visitantes entenderão melhor a habilidade de Kahlo em ser lembrada emotivamente na imaginação do público, mesmo que isso signifique ter macacos pendurados ao redor de sua cabeça e cultivar suas características físicas mais reconhecíveis – uma afirmação "de pronunciado buço e sobrancelhas juntas”. Nem suas deficiências pela poliomielite ou por um acidente de ônibus, nem suas frequentes recaídas de dor desencorajaram Kahlo. No momento em que ela morreu, aos 47 anos, em 1954, deixou para trás uma pessoa pública que ainda está sendo explorada neste século 21; hoje ela tem mais de 800 mil seguidores no Instagram.

“As pessoas têm uma curiosidade insaciável por ela, e esta apresentação é uma rara oportunidade de ver como Frida construiu sua identidade”, disse Catherine Morris, curadora sênior do Centro de Arte Feminista Elizabeth A. Sackler, que organizou a versão do Museu de Brooklyn da exposição com Lisa Small, curadora de Arte Europeia. Aqui, elas compartilham algumas de suas percepções.

Rotina de Beleza

A visualização dos produtos de beleza de Kahlo traz à mente a sensação de admiração de uma criança com a penteadeira da mãe. “Há uma aura na presença de suas coisas que você não tem como experimentar através da mídia e do Instagram”, disse Morris sobre o lápis de sobrancelha de Kahlo, creme facial para pele seca da Pond’s, batom vermelho e os vibrantes esmaltes da Revlon, uma marca favorita. “Se você olhar suas imagens, ela estava sempre com a manicure perfeita.” Small apontou que Kahlo “cuidava com apuro de suas sobrancelhas ligadas”, uma escolha contestadora, em um momento em que “existiam muitos métodos depilatórios. Essa sobrancelha foi significativa porque não estava de acordo com os padrões de beleza de Hollywood.”

Transformação Tehuana

Uma mentora no uso da moda para favorecê-la, Kahlo levava momentos de tapete vermelho onde quer que fosse. “Ela até se vestia dessa forma apenas para trabalhar em seu estúdio”, disse Small. Seus conjuntos étnicos, notoriamente inspirados pela tehuana (traje regional mexicano) de Oaxaca, uma sociedade matriarcal, rejeitavam a rigidez de seu aspecto, ditada pelos designers parisienses e pela produção de roupas em massa. A revista Vogue notou. Kahlo defendeu os costumes nativos de sua terra natal usando huipiles (túnicas tecidas), rebozos (xales) e babados, saias longas. Eles também desviavam a atenção de sua perna direita, devastada pela poliomielite e do corpo, que passou por várias operações após seu quase fatal acidente de ônibus. Ela frequentemente se referia a si mesma como a grande “ocultadora”.

O corpo como tela

Além de seu fascínio feminino, a joalheria teve um acorde mais pessoal para Kahlo. Como seus intricados coques, embelezados com enfeites de cabelo e flores, brincos em forma de lustre e colares ousados que atraíam o rosto do espectador para o rosto dela. Eles também eram outro veículo para que ela expressasse sua paixão pelo artesanato mexicano, incluindo joias de prata contemporâneas e materiais nativos como o jade, os favoritos dos antigos maias. “Ela costumava usar colares de cordões de ouro e pedras de jade mesoamericanas, que portava em colares extraordinariamente grossos”, disse Small.

Um microcosmo do México

Em uma galeria, os curadores buscaram recriar a vibração da casa de Kahlo e Rivera. Paredes pintadas de azul e uma caixa de esculturas e vasos de cerâmica e pedra da Mesoamérica, da coleção permanente do Museu do Brooklyn, evocam esse espírito. Os objetos antigos transmitem o gosto eclético do casal e o profundo apreço pela arte e arqueologia do México. “Eles tinham um retrato colonial do lado de uma peça pré-colombiana e junto de uma máscara de gás da década de 1940”, disse Small, que localizou uma escultura de cachorro da Colima na coleção do museu semelhante à peça que está em La Casa Azul.

Mãe de um mini zoológico

Animais enfeitavam seu trabalho e ela tinha um mini zoológico na Casa Azul. Havia uma variedade caótica de cães – ela adorava a raça sem pelos de Xoloitzcuintli, uma raça antiga – assim como macacos, pássaros exóticos e um cervo chamado Granizo perambulando por lá (o que deve ter sido uma viagem maluca para os hóspedes).

Gênero em role play

Ficar à vontade com o cross-dressing veio cedo. Em um retrato de família, de seu pai, o fotógrafo Guillermo Kahlo, a adolescente Kahlo usa um terno e divide e enrola o cabelo como “um bonitão”. A foto de Emmy Lou Packard de 1941 mostra Kahlo usando macacões, fumando um cigarro. Para Autorretrato com Cabelo Cortado, de 1940, com tesouras e notas musicais, ela retorna à moda masculina com um terno largo como os usados pelo ex-marido (eles haviam acabado de se divorciar). Mesmo desprezado, seu cabelo cortado curto restabelece sua independência. “As pessoas estão muito interessadas no fato de ela ter tido relacionamentos com mulheres, mas há apenas uma referência conhecida na qual ela realmente falou sobre isso”, disse Morris.

Transformando Dor em Arte

Kahlo sofreu muito durante a maior parte de sua vida, e a parte mais comovente da série é dedicada a seu ecossistema de dispositivos médicos. Mas Kahlo não escondeu sua dor, revelando seus gessos e suspensórios de couro com fivelas de metal em seu trabalho e transformando os espartilhos de gesso em arte com elaborados desenhos de flores, até mesmo um martelo e uma foice. “Ela tratava essas segundas peles como telas”, disse Small.

A perna direita de Kahlo foi amputada no ano anterior à sua morte, em 1954. (A causa oficial da morte foi embolia pulmonar). “Ela é frequentemente retratada como vítima e estamos conscientemente tentando reformular isso”, disse Morris. “As pessoas descreveram-na como alquebrada e frágil, mas ela era forte e teve uma tremenda quantidade de grandes realizações em sua vida.” / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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