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Novembro chama a atenção para consciência negra. Informação que liberta

Novembro chama a atenção para consciência negra. Informação que libertaFoto: Correio Braziliense

Thaís Cardoso:

Catarina Loiola* E Thaís Moura* - Correio Braziliense - 02/11/2019 - 16:01:37

Quase metade dos negros no Brasil trabalha na informalidade, de acordo com o IBGE. Nas maiores empresas, ocupam 4,7% dos quadros executivos; 6,3% dos postos de gerência e são 28,8% dos estagiários, segundo o Ethos

Começa hoje o mês da Consciência Negra, que marca ações para lembrar e destacar a luta dos negros contra a discriminação racial e a desigualdade social. O Dia da Consciência Negra é comemorado em todo o país no dia 20 de novembro, dia da morte do líder Zumbi dos Palmares, que lutou contra a escravidão no Nordeste. A celebração busca a reflexão sobre a posição dos negros na sociedade. Afinal, as gerações de afro-brasileiros que se sucederam à época da escravidão ainda convivem com preconceito e discriminação social.

Simone Borges, primeira negra a receber Fundo de Apoio à Cultura:
Simone Borges, primeira negra a receber Fundo de Apoio à Cultura: "Sempre precisei fazer melhor do que os outros"


Quase metade da população negra possui empregos informais, cerca de 46,9%, de acordo com o IBGE (2019). Entre a população branca, o percentual é de 33,7%. Pesquisa do Instituto Ethos, realizada em 2015, deixa mais evidente a enorme desigualdade entre brancos e negros no mercado de trabalho. Segundo o Instituto, que analisou as 500 empresas de maior faturamento do Brasil, os negros representam apenas 4,7% do quadro executivo e 35,7% do quadro funcional dessas organizações. Em cargos de gerência, eles são 6,3%, e entre estagiários e trainees, representam 28,8% e 58,2%, respectivamente.


Para o historiador e educador patrimonial André Moura, a questão mais excludente dos negros no mercado de trabalho é o acesso a oportunidades de qualidade. “As cotas têm feito um aumento no número de negros na universidade, mas nem de longe é um resultado ainda comparável à população negra, que é 50% do Brasil. Quando se trata dos melhores cursos e a melhor formação, poucos negros têm acesso”. Ele diz que outro indicador de exclusão pode ser por a pessoa “não coincidir com o papel estético que a empresa quer mostrar, o que é uma sutileza bem cruel”.


Moura afirma que, em termos históricos, o Brasil não escravocrata ainda é recente. “Até os anos 1930, referências culturais que eram relacionadas ao negro eram proibidas, como o samba e a própria capoeira. O processo racista no Estado e na sociedade brasileira continuou de diversas formas”, explicou.


Outras iniciativas

Além do mês da consciência negra comemorado no Brasil, a Organização das Nações Unidas (ONU) iniciou em 2015 a década internacional afrodescendente. A expectativa é de que até 2024 seja promovido respeito e proteção de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais de afrodescendentes, como reconhecidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

A servidora pública e cineasta Simone Borges, 41, conseguiu superar as barreiras. Primeira mulher negra a receber um Fundo de Apoio à Cultura (FAC), ela conta que sempre precisou ser duas ou três vezes melhor do que as outras pessoas, por duvidarem de sua capacidade. “O racismo está muito enraizado na nossa cultura. Quando estamos em uma reunião de trabalho e alguém solicita um café, a maioria das pessoas olha para mim como se eu fosse a pessoa apropriada para os servir”, desabafou.


Universidades

Apesar da menor presença da população negra no mercado de trabalho formal, pela primeira vez no Brasil jovens negros e negras são maioria nas universidades federais, segundo pesquisa divulgada em maio pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes). Eles representam 51,2% dos estudantes de universidades públicas. De acordo com a Andifes, o crescimento na quantidade de estudantes negros se deu principalmente com a Lei de Cotas (Lei 12.711/12), que estabelece que 50% das vagas de universidades e instituições federais de ensino técnico de nível médio sejam reservadas a estudantes de escolas públicas. A lei também reserva vagas para pretos, pardos e indígenas, correspondente à porcentagem dessas populações nas universidades estaduais.


Estudante de Ciência Política da UnB Thaís Cardoso, de 22 anos, é a única negra em seu estágio. Para a jovem, é importante que haja um dia e mês reservado para debater o assunto, mas ela reforça que o tema deve ser discutido o ano todo. “Só lembram de chamar a gente para palestras neste momento. Só falam de raça em novembro, mas a gente vive isso nos 365 dias, não só em um. É importante essa iniciativa, que promove debates dentro e fora da universidade, mas não existimos só nesse momento”, disse.


* Estagiárias sob a supervisão de Cláudia Dianni


Informação que liberta

Regional de Ensino do Recanto das Emas proporciona seminário destinado a professores da região para desenvolver práticas pedagógicas sobre a história negra em sala de aula

» Luiz Henrique de Oliveira*

Seminário esteve lotado durante todas as palestras (Joelma Bomfim/SINPRO-DF)
Seminário esteve lotado durante todas as palestras

Quase não se encontrava lugar para sentar no auditório da Regional de Ensino do Recanto das Emas. Todos queriam acompanhar o seminário “Tecendo diálogos de práticas pedagógicas sobre a história e a cultura afro-brasileira e africana em sala de aula”. Organizado pela coordenadora da unidade, Elna Dias, 47 anos, o encontro teve como objetivo debater junto aos professores a importância dos docentes no combate ao preconceito e a construção da negritude com os alunos.

Cerca de 280 profissionais se inscreveram para participar do evento, que ocorreu na última quarta-feira. A programação foi composta de palestras e apresentações culturais, como recitação de poesias, contação de histórias e roda de capoeira. A ação procura incrementar o cumprimento da Lei nº 10.639/03, que estabeleceu a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas.

Professores discutiram a questão da cultura afro-brasileira dentro das salas de aula (Joelma Bomfim/SINPRO-DF)
Professores discutiram a questão da cultura afro-brasileira dentro das salas de aula

“Queria que essa discussão fosse realizada antes do mês de novembro, porque é o que geralmente acontece dentro das escolas, então classifico como uma conquista por termos conseguido”, destaca Elna Dias. Ela teve o apoio de Leandro Freire, coordenador da regional de ensino, que ressalta a relevância do evento. “É de suma importância, porque a gente está enaltecendo a questão da consciência negra, para que possamos ter culminâncias nas escolas, não apenas no mês de novembro, e, sim, todos os dias”, diz.

Janaína Almeida Sérgio, 43, é professora da rede pública há 23 anos. Hoje ela ocupa o cargo de assessora especial na Secretaria de Educação. Ela esteve no seminário e defendeu uma abordagem mais aprofundada sobre a questão da negritude. “É preciso que os professores trabalhem de forma reflexiva e problematizadora.”

Entre as atividades propostas pelo evento, a palestra da professora Pollyana dos Santos Silva Costa, 39 anos, foi uma das mais procuradas. De modo assertivo e direto, ela abordou como é desenvolvida a literatura afro-brasileira e africana nas escolas. “Há um apagamento de autores negros dentro da sala de aula, eles nunca são estudados.” Durante a apresentação, ela trouxe diversos nomes de escritores que podem ser trabalhados, como Cristiane Sobral, Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus e Djamila Ribeiro, entre outros.

Entre as atividades, alunos fizeram apresentação de rodas de capoeira  (Joelma Bomfim/SINPRO-DF)
Entre as atividades, alunos fizeram apresentação de rodas de capoeira

Conexão

A professora Renata Keila dos Santos, 31 anos, foi a responsável por encerrar as atividades do seminário. Ela apresentou o projeto Conexão Brasil e África, que consiste em apresentar para alunos de 5 a 10 anos a relação entre o país e o continente, a partir de metodologias interativas, como encenação de peças de teatro, musicais e presença de pessoas negras que repassem agregar conhecimento para os estudantes.

Sissi Daniel, 27 anos, é um desses casos. Angolana, mora desde os 12 anos no Distrito Federal em virtude do trabalho do pai na embaixada. Ela esteve no evento para falar do trabalho que faz há um ano, no qual apresenta para alunos o continente africano. “Muitos não sabem que o Egito fica na África ou que na Angola se fala português. São vários exemplos que mostram o quanto os jovens estão desinformados”.

Ela acha que essa falta de conhecimento está atrelada aos professores, que não ensinam corretamente. “Quando falam da África, sempre associam a guerras, fome e pobreza. Nunca são apresentadas riquezas e diferenças entre os países. Existem várias maneiras de apresentar o continente africano, não precisa ser só sobre a escravidão”, pontua.

*Estagiário sob supervisão de José Carlos Vieira

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