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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 09 de dezembro de 2021

"O amor me salvou", diz a médica tetraplégica que é líder em multinacional

Foto: Divulgação/UOL VivaBem

Daniela e a técnica de enfermagem Fernanda (de branco) simulam o atendimento de uma funcionária na Bayer, em São Paulo. Em caso de necessidade, a médica desempenha essa função

Cristiane Segatto - Uol Vivabem - 24/10/2019 - 13:51:48

"Querida, vai procurar alguma coisa para fazer da sua vida porque medicina não dá para você". Faz mais de uma década que Daniela Bortman, 36 anos, ouviu esse conselho de um professor da Faculdade de Medicina de Taubaté, no interior de São Paulo, mas ele ressurge na mente e escapa pelos lábios em poucos minutos de conversa.

Ao se tornar tetraplégica aos 23 anos, por causa de um acidente de trânsito sofrido durante a faculdade, Daniela viveu um período de profunda depressão. Decidiu retomar o curso porque precisava se apegar à paixão pela medicina – uma razão para seguir viva. Doeu demais o decreto do professor que não enxergava perspectiva para a aluna fora do padrão. Doeu, mas não se cumpriu.

Em 2019, a estudante que não tinha futuro é responsável pelo departamento de saúde ocupacional de todas as unidades da Bayer no Brasil. Viaja o país, provoca reflexões sobre o que é, afinal, incapacidade para o trabalho e tenta desconstruir a ideia de que deficiência está associada à ineficiência.

Um olhar mais positivo

No cargo de liderança que ocupa atualmente, Daniela desempenha funções administrativas. Passa o dia no escritório, em frente ao computador. Tem o movimento do braço esquerdo, mas a mão não se move. Os dedos não são capazes de agarrar objetos. Isso não a impede de digitar ou de usar o celular. Graças a uma adaptação presa ao antebraço, Daniela tecla letra por letra com a ajuda de uma canetinha "touch".

Quem ajeita o headset na cabeça da médica é a assistente pessoal Fernanda Laizo Munhoz, 22 anos. Fernanda é técnica de enfermagem contratada pela empresa. Ao lado de Daniela, age como um espelho mágico, capaz de antecipar desejos de movimento e interpretar contrariedades.

Fernanda faz o que os braços e as pernas de Daniela não conseguem fazer. Acompanha a médica em todas as viagens profissionais. Cuida dos pertences pessoais de Daniela, ajeita o cabelo, passa batom.

A assistente pessoal zela por todas as necessidades que uma mulher tem ao longo de sua jornada de trabalho. É ela quem alimenta Daniela, cuida da sonda por onde a urina é eliminada, troca o absorvente. "O mais bacana de trabalhar com a Dani é ver que, mesmo vivendo nesta situação, ela é feliz", diz Fernanda.

Daniela em sua mesa de trabalho na empresa. Com headset e algumas adaptações, ela consegue usar o telefone e o computador (Foto: Divulgação/UOL VivaBem)

Na rotina atual, raramente a médica precisa atender um paciente. Mas atende, em caso de urgência. Conversa, digita a prescrição médica no computador, assina o receituário e o prontuário.

Fernanda coloca o estetoscópio na orelha da médica e o aproxima dos focos corretos no corpo do paciente. Daniela consegue auscultar o pulmão e o sistema circulatório. Se for preciso palpar, a médica orienta os braços da assistente como se fossem os seus. Deste trecho em diante, as palavras de Daniela aparecem em itálico:

Cada um com as suas habilidades. Não existe alguém que é capaz de tudo. E alguém que não é capaz de nada. Tento estimular as pessoas a ter um olhar mais positivo para a vida. Tenho uma condição muito dura para se viver em um país como o Brasil. São desafios diários severos. Aprendi a olhar para os problemas de uma forma diferente. Tento ajudar as pessoas a encarar a vida de um jeito mais leve.

Nem sempre foi assim.

Daniela, com as amigas, em uma festa na Faculdade de Medicina de Taubaté, em 2010 (Foto: Arquivo pessoal/ UOL VivaBem)

"Acaba com isso"

Logo depois do acidente, Daniela enfrentou cirurgias e sessões de fisioterapia de manhã, de tarde e de noite. Acreditava que a reabilitação seria possível. Seis meses depois da lesão medular, começou a perceber que seria tetraplégica para sempre.

O trauma psicológico foi maior que o físico. Eu me descobri uma pessoa muito preconceituosa quando deixei de ser a garotinha padrão. Não aceitava a minha nova condição. Isso me destruiu. Cheguei ao limite. Um dia disse ao meu pai: "Não é drama, não é loucura, não estou nervosa. Estou bem OK. Isso não dá para mim. Não vai rolar. Você é médico e tem seus meios. Me dá uma injeção e acaba com isso". Meu pai respondeu: "Vamos fazer o seguinte: você tenta mais um pouquinho. Se não der certo, vamos nós dois".

"O amor me salvou"

Ao perceber que o pai seria capaz de acompanhá-la na ideia de duplo suicídio, Daniela tomou consciência do mal que estava fazendo a si e a todos à sua volta: pais, irmãos e amigos mais próximos.

Talvez eu vivesse revoltada e sem fazer nada para sempre, mas o amor pelas pessoas me fez perceber que estava sofrendo e causando sofrimento. O amor me salvou. Resolvi sair daquela situação tóxica e fazer alguma coisa da minha vida. O que transformou a menina que ia se matar na mulher que está aqui hoje? A perspectiva. Minha condição física é a mesma, em um corpo 13 anos mais velho. O que mudou foi a forma de encarar as coisas.

Sair da grave depressão e ganhar autoconfiança foi um longo processo. Daniela precisou de acompanhamento psiquiátrico, remédios e muita psicoterapia. Chegou a se submeter a um estudo com injeções de células-tronco na China. Neurocirurgião, o pai era contra a viagem, mas decidiu acompanhá-la. Não como médico, mas como pai.

Daniela com uma enfermeira em Pequim, em 2008. Ela participou de uma experiência com células-tronco, mas não recuperou os movimentos (Foto: Arquivo pessoal/UOL VivaBem)

A filha não recuperou os movimentos. Para emergir do sofrimento, ela decidiu voltar à faculdade, algo que gostava de fazer. Depois do período de estágio no hospital universitário, foi incentivada por um colega a prestar serviços em ambulatórios de empresas. Uma enfermeira a ajudava nos atendimentos.

Daniela se animou. Cada dia era enviada a uma companhia diferente. Até que, um dia, chegou a uma empresa de telemarketing. Lá encontraria a chance que transformou sua vida.

O líder visionário

Curioso para saber quem era a médica tetraplégica que atendia no ambulatório da empresa, o líder de saúde e segurança chamou Daniela para uma conversa. Ouviu a história inteira e os planos dela de se tornar radiologista. Para a médica, ganhar a vida fazendo diagnósticos por imagem parecia compatível com sua condição física.

O chefe fez a proposta que mudaria tudo. Disse que se ela fizesse especialização em medicina do trabalho, estaria contratada. Daniela não deixou a chance escapar.

Poucas pessoas teriam me dado a oportunidade que esse meu primeiro chefe deu. Não gosto de rotular as pessoas, mas ele era engenheiro. Engenheiros costumam ser visionários. Ele não foi caridoso. Foi estratégico. Disse que seria muito legal ter alguém na minha condição falando sobre aptidão para o trabalho na empresa. Não estava preocupado com lei de cotas, algo que nem era uma questão naquele momento.

Ele enxergou outra oportunidade. O segmento de telemarketing tem índices de absenteísmo absurdos. A grande quantidade de atestados médicos é motivada mais por insatisfação no trabalho do que por doença propriamente dita. Ele achou que, se eu fizesse a gestão de atestados com os funcionários, a quantidade diminuiria. Quem teria coragem de dizer a uma médica tetraplégica que não podia trabalhar por causa de dor no dedinho?

Com uma canetinha "touch" presa a uma adaptação na mão esquerda, Daniela consegue escrever no notebook e coordenar o departamento de saúde ocupacional (Foto: Divulgação/UOL VivaBem)

"Perder o preconceito é libertador"

A primeira reação de quem vê Daniela no ambiente de trabalho é de estranhamento. A presença dela está longe de ser algo que as pessoas possam enxergar com naturalidade. Essa é mais uma razão para que a médica esteja ali.

Perder o preconceito é libertador. Ele é tóxico e, em minha opinião, contribui para o enorme problema de saúde mental que existe hoje no mundo. Essa coisa de nos sentirmos obrigados a atender a determinados padrões faz muito mal.

Se eu tivesse vivido em um ambiente mais inclusivo desde pequena, teria sido mais fácil para aceitar a minha nova condição. Vim de escola judaica de Higienópolis. Todo mundo teve a mesma origem, morava no mesmo bairro, frequentava os mesmos lugares, falava das mesmas coisas. Não tinha uma pessoa com deficiência na escola. Os gays não podiam sair do armário. Saíram apenas depois de adultos. Não tinha negro. Não tinha diversidade.

A falta de respeito à individualidade contribui imensamente para a falta de propósito que as pessoas têm hoje. Elas acordam sem saber para quê. Não se conhecem. Não param 5 minutos do dia para pensar nisso. Estão sempre no WhatsApp, correndo atrás do rabo. Não sabem quais são os seus valores. Vivem de copiar influenciadores que sei lá de onde vêm.

Daniela e o marido Otávio Moura. Eles moram juntos há 10 anos e vão oficializar a união no próximo mês (Foto: Arquivo pessoal/UOL VivaBem)

"Otávio viu em mim a mulher que eu não enxergava mais"

Daniela vai se casar na praia no mês que vem. Ela e o administrador de empresas Otávio Moura vão oficializar a união de 10 anos. Moram juntos desde que se conheceram, em uma festa da turma de medicina, em Taubaté. Quando se viram pela primeira vez, Daniela tinha três anos de lesão medular. Estava saindo do último episódio de depressão. Daquele dia em diante, não se largaram mais.

Seria muita injustiça não dizer que o Otávio foi parte fundamental da construção da minha autoconfiança. Ele me devolveu a imagem de mulher que eu tinha perdido. Enquanto eu via uma cadeira, uma paralisia, uma inútil, ele enxergava uma mulher com um monte de qualidades. Ficamos juntos naquela festa. Ele me pediu em namoro, mas eu disse não. Perguntei o que ele queria comigo e fui logo explicando: durmo com uma técnica de enfermagem do meu lado, faço xixi de canudinho. Minha vida é muito complicada.

Ele respondeu que não achava complicado. O Otávio levou tudo com tanta naturalidade, que eu comecei a me ver nos olhos dele de novo. Ele conseguia ver uma mulher que eu não enxergava. Conforme ele foi me falando e me mostrando isso, eu comecei a me reconhecer.

Eu dizia para a psiquiatra: "Não consigo abraçar. O cara vai querer uma namorada que não consegue dar um abraço? Imagine as outras questões mais íntimas. Hoje isso não faz a menor diferença. Eu abraço de um jeito torto, só com a mão. O sexo é super natural. A gente dá um jeito. O que importa não é a posição. É sentir como é bom estarmos juntos.

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