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O CEO do grupo Fladgate lidera movimento global pela ecologia e sustentabilidade

O CEO do grupo Fladgate lidera movimento global pela ecologia e sustentabilidadeFoto: Correia-global Imagens

Adrian Bridge nas caves da Taylor's, em Gaia

Por Marina Almeida - Dário De Notícias - 05/03/2019 - 19:00:23

Adrian Bridge: "beber vinho do Porto num copo com cinco mil anos, subir os Alpes, salvar o mundo"

O CEO do grupo Fladgate lidera um movimento global pela ecologia e sustentabilidade, com âncora no Porto e no mundo do vinho. Esta quinta-feira traz Al Gore à cidade para mais um passo da bola de neve chamada Porto Protocol.


Chega com uns minutos de atraso à sala da entrevista, fazendo-se anunciar com algumas luzes que se apagam sobre as nossas cabeças. Adrian Bridge não gosta de demasiadas lâmpadas acesas, apenas as essenciais. A ponta do iceberg de uma filosofia que alastra às práticas empresariais e à conferência sobre alterações climáticas no setor do vinho, que entre hoje e quinta-feira, traz ao Porto Al Gore, e outros líderes mundiais com trabalho feito na área da sustentabilidade.


Bridge senta-se no topo de uma enorme mesa. Jovial e bem disposto, descompõe a tensão inicial com a resposta à pergunta: “Gosta de subir montanhas. Como é que isso o ajuda no seu dia a dia”?. Espanta-se. Afinal estávamos ali para falar de alterações climáticas. “Sim gosto muito de subir montanhas e gostava de ter mais tempo. Hoje em dia estou um pouco ocupado, não sei se vou escalar este ano. O problema não são as montanhas, o problema é o tempo para treinar e ficar em condições. Tem de haver uma boa preparação.” A última catedral da natureza que escalou foi o Matterhorn, nos Alpes, em 2016. O rosto ilumina-se na memória: “É um pico. Em cima é plano. Um quilómetro e meio para o lado”. Em 2015 estava no Monte Evereste com um grupo de amigos para o jantar mais alto do mundo quando se deu o sismo do Nepal. Tiveram de descer e não cumpriram a ideia de degustar a refeição, confecionada por um chef duas estrelas Michelin a sete mil metros de altitude.

Portugal não tem montanhas que lhe cheguem. Pico? Serra da Estrela? perguntamos. “Sim, sim”, despacha-nos. As montanhas dele são os topos do mundo. Mas acabamos por descobrir que também se pendura pelas mãos, sem rede, em escarpas do Douro.

Acabava de chegar a Gaia após um período fora do país, razão pela qual o seu português estaria ferrugento. “Diz-se que os cinquenta são os novos trinta, porque todos nós com a idade temos um pouco mais do que os nossos pais. A nossa compleição física, a alimentação e a nossa saúde são melhores. Mas precisamos [de exercício] porque hoje em dia a pressão do trabalho e as horas de trabalho são completamente diferentes de há 30 anos. Eu não sei quando o meu dia acaba ou termina, nem as horas de sono, ou seja à noite, aos fins de semana trabalha-se. A pessoa tem de programar o seu tempo privado para fazer ioga, meditação, corrida ou qualquer coisa. E só com isso estamos prontos, com a mente a postos para a pressão que existe nos negócios e no ritmo de vida hoje em dia.” Praticante de corrida e adepto da bicicleta, patrocina muitas provas desportivas na cidade (conta-se a história de um dia ter marcado um encontro na Quinta de Vargellas, no Douro Superior, e chegou a pedalar… desde o Porto – o google maps aponta cerca de 160 quilómetros).


“O mundo não pertence ao Presidente Trump”
Adrian Bridge, quase 56 anos (36 na nova máquina do tempo), está desde 1994 em Portugal à frente do grupo The Fladgate Partnership. Foi o sogro, Alistair Robertson, quem o desafiou. A empresa, propriedade da família da mulher, dedicava-se então ao negócio do vinho do Porto, com as caves Taylor’s, Croft e Fonseca – cuja internacionalização veio Bridge potenciar. Em 2006 o grupo entrou no turismo, com o The Yeatman, o primeiro hotel vínico de luxo do país. Seguiram-se o Infante Sagres, no Porto, e o Vintage House, no Pinhão. Atualmente, entre outros desafios, tem em mãos uma revolução em Vila Nova de Gaia, com a conversão de antigas caves de vinho do Porto da companhia num complexo museológico e cultural dedicado ao vinho com 30 mil metros quadrados, o World of Wine (WoW).


Nasceu a 28 de março de 1963. Depois da escola, juntou-se ao exército britânico e prestou juramento na academia militar de Sandhurst. Foi guarda da rainha, no Regimento de Cavalaria Inglesa e cumpriu uma missão das Nações Unidas no Chipre. Em 1987, depois do crash da bolsa, mudou-se para a City londrina, trabalhar com a Merryl Lynch (onde conheceu a mulher, Natacha Robertson.


Menos de uma década depois, mudava-se para o Porto com a família e deixava a carreira financeira para trás. Em entrevista ao Financial Times, em 2013, contava com a seu humor britânico, que muitos homens da City compravam adegas depois de se reformarem. “Eu gosto de dizer que simplesmente fiz essa movimentação umas décadas antes dos outros”.


Ainda lhe faltam uns anos para parar, algo que ele parece não ter grande vontade de fazer. A sua atual batalha é o combate às alterações climáticas. Impressionou-o quando no ano passado, a 25 de maio, viu chuva diluviana no Pinhão e meses depois o calor abrasador no Douro. “Recebemos 12% das nossas águas pluviais do ano numa hora, à volta do Pinhão. Acabámos julho com temperaturas elevadíssimas, o que queima muitas uvas. Se formos pela média, ninguém nota, mas na realidade sofremos com isso. Esta é uma realidade!”


A cimeira do clima quer por as pessoas a agir. “Hoje pensa-se que o problema é tão grande que não é preciso fazer nada. Se o Trump disse que vai sair do acordo de Paris eu não vou fazer nada porque a minha participação não conta nada, se os Estados Unidos não vão participar. Isto são desculpas. O mundo não pertence ao Presidente Trump“, diz Adrian Bridge. No ano passado trouxe Barak Obama a Portugal para falar sobre o tema, esta semana recebe na Alfândega do Porto um enorme painel de líderes e ativistas, quer da área dos vinhos, quer outros exemplos inspiradores – como Afroz Shah, o advogado indiano que limpou as praias em Bombaim e foi distinguido pelas Nações Unidas, ou Marco Lambertino, diretor da WWF. Também Al Gore, o nome mais sonante, do Climate Change Leadership – Solutions for the Wine Industry. O convite foi feito há um ano, “porque ele tem uma agenda muitíssimo ocupada”. O ex-vice presidente norte-americano e Bridge têm as ideias alinhadas: “ele escreve vários livros, faz a sua filmagem e tem o seu movimento mundial que faz formação com a ideia de que os indivíduos podem agitar dentro de sua comunidade para soluções.”


Apagar as luzes é apenas um pormaior das suas rotinas. “Eu sei que um litro de Taylor’s LBV custa 2,8 quilos de carbono. Esta é uma realidade deste produto”, diz Adrian Bridge. Entre as práticas implementadas no grupo que lidera, está o recurso a painéis fotovoltaicos, que sustentam cerca de 70% da energia consumida no grupo, ou a eliminação dos herbicidas e pesticidas nas novas vinhas.


O miúdo que faz coleções

O CEO está por todo o lado. “Adrian Bridge é a força criativa do The Yeatman”, lê-se no site do hotel de Gaia, com as janelas no Porto em todo o seu esplendor. Nos corredores e espaços públicos estão expostas peças das suas coleções privadas, como mapas, móveis. Ou copos. “Sou colecionador e isso é uma doença, sabias? Eu sou um miúdo que faz coleções. Tinha uma pequena coleção de espadas. A minha esposa chegou a um ponto que disse que com miúdos em casa o melhor era parar”.


Dedicou-se aos copos. Estava no negócio do vinho, nada lhe parecia mais natural. “Inicialmente tive a ideia de comprar copos romanos para usar em casa, em festas, e comprei alguns. Mas não resulta. Se tenho amigos à volta da mesa e eu digo vamos brindar, este copo tem dois mil anos, as pessoas úúúú, ficam apavoradas e isso estraga o ambiente. Era uma boa ideia mas não funcionou”.


Parte da coleção de copos está exposta no The Yeatman. Em 2020 estará num museu, no World of Wine (DR)
Continuou a coleção. Primeiro copos do Império Romano, depois da Grécia, seguiram-se outros mais recentes. Agora preenche prateleiras de copos e vai transformá-los num museu – o Museu dos Copos será um dos cinco museus do World of Wine. Compra-os em leilões, em lojas da especialidade, a colecionadores. Gosta de objetos com história. “Tenho um copo usado não sei se pelo Alexandre o Grande, não sei se o pai se o filho Alexandre IV, da Macedónia. É uma coisa real, daquela época, e para mim tem uma história interessante. Até podemos imaginar que o usaram para brindar a um sucesso“.


Todos os copos da sua coleção foram usados e isso fascina-o. O mais antigo tem oito mil anos. “Pesa muito na mão, é uma pedra. Muitos dos copos que existiam na Grécia foram enterrados ao lado das pessoas para serem usados na sua vida seguinte. Alguns são pequenos, porque ninguém quer enterrar coisas com muito valor, mas há outros que são o produto real, em vidro, prata, bronze. Isso é fantástico. É uma ligação do humano com um produto de bebidas alcoólicas”. Alguns estão na sua coleção, de cerca de meia centena de exemplares. Não se recorda exatamente do valor mais elevado que deu por um copo. “Provavelmente cinco mil, seis mil euros”, pelo copo com oito mil anos. ”Hoje em dia é possível comprar um bom copo romano por 2000/2500 euros. Não é barato mas não é fora de possibilidades”.


Entre as “histórias de desastres com os copos”, uma aconteceu no The Yeatman. “Eu tenho um pequeno exemplo da minha coleção hotel onde está um copo com cinco mil anos. Um dia com os amigos eu disse ‘vamos beber o Taylor’s 40 anos dentro deste copo’. Começou a passar o copo, as pessoas bebiam e não tinham reação. Pensei, devem estar tão fartas deste vinho, ou estão tão concentradas que não podem fazer comentários. Quando o copo deu a volta e eu bebi e foi horrível. Horrível! E eu lembrei-me que não limpei o copo que foi usado com vinho do Porto. Eu não sei a idade do pó que foi consumido pelas pessoas… algumas vezes não funciona bem… Mas a ideia foi boa.”

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