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O monstro que nos habita. O racismo não é só o meu olhar preconceituoso

O monstro que nos habita. O racismo não é só o meu olhar preconceituosoFoto: Pixabay

O monstro que nos habita

Humberto Rezende-correio Braziliense - 02/11/2019 - 17:48:46

Aconteceu com um amigo esta semana. Ao entrar no elevador do prédio onde mora, encontrou um vizinho com o filho, ainda criança. O menino, ao ver meu amigo, perguntou ao pai: “Ele mora na rua?”. Pai e filho são brancos. Meu amigo, negro. E da experiência, narrada em uma rede social, esse amigo concluiu: “É assim que as crianças são educadas racialmente no Brasil”.

Entramos em novembro, mês da consciência negra. E o convite de conscientização é para todos nós, como nação. Não é um convite restrito aos negros. Eles são os que menos precisam se conscientizar sobre o racismo que há séculos nos domina.

Sim, somos dominados pelo racismo, desde cedo, como esse garoto que encontrou meu amigo no elevador. Incubado como um vírus, o racismo está à espreita, pronto para se manifestar, saindo de nossas bocas, olhos e ouvidos a qualquer momento. Como no dia em que mais senti vergonha na vida.

Faz uns 15 anos. Estava saindo de um centro comercial, em meados de dezembro, rumo ao meu carro, quando passei por um garotinho negro, que se dirigiu a mim. Tateei os bolsos da calça e disse: “Desculpa, eu não tenho nada”. Foi então que ouvi a mãe do menininho, uma mulher também negra. E a frase dela consegui entender bem: “Ele disse que o Papai Noel está chegando”.

Olhei para ela, depois para o menininho, que sorria para mim. Ele não havia pedido dinheiro, ele não precisava de dinheiro. Ele só estava dividindo comigo a alegria que sentia com a chegada do Natal. Chocado comigo mesmo, abaixei-me um pouco, e me esforçando muito para vencer a vergonha, sorri de volta para ele. “É, o Papai Noel tá chegando! Legal, né?” De olhos quase no chão, sorri para a mãe também, torcendo para que ela me perdoasse e para que o menininho não tivesse percebido o que ela certamente tinha notado.

O racismo havia se manifestado mais uma vez. Mais uma vez, certamente não foi a primeira, aquela mulher tinha visto o filho ser considerado algo que não era por causa da cor de sua pele. Porque o racismo não é algo pequeno, pontual. É um sistema intrincado, construído ao longo de séculos, que molda nossa forma de ver o mundo. Ter um amigo negro ou eliminar do vocabulário expressões racistas não é suficiente para eliminá-lo. O racismo não é só o meu olhar preconceituoso. O racismo é o que faz esse olhar preconceituoso surgir.

É o racismo que torna “natural” o fato de a maioria dos moradores de favelas ser negra e a maioria dos moradores de condomínios de luxo ser branca. É o racismo que torna “natural” o fato de negros serem mais vítimas de assassinatos. É o racismo que torna “natural” o fato de a imensa maioria de médicos, advogados e juízes ser branca e a imensa maioria de presidiários, negra.

Sem reconhecer a existência desse monstro e, mais, sem reconhecer que esse monstro também nos habita, nunca conseguiremos extirpá-lo. E negar a necessidade desse esforço, ao qual o mês da consciência negra nos convida, é ser desumano. É ser racista.

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