×
ContextoExato

Contexto Exato

Brasil - Brasília - Distrito Federal - 17 de outubro de 2021

O perigo por trás do banimento de Donald Trump das redes sociais

O perigo por trás do banimento de Donald Trump das redes sociaisFoto: Portal DW

Conta do presidente dos Estados Unidos foi apagada do Twitter na última sexta (8)

Rafael Da Guia* - Brasil De Fato | São Paulo (sp) - 11/01/2021 - 20:59:53

Bloqueio das contas do presidente dos EUA, apesar de celebrado, merece reflexão sobre regulação das mídias digitais

Nos últimos dias, os Estados Unidos passaram, mais uma vez, por um furacão chamado Donald Trump. Utilizando discursos públicos e redes sociais, o quase ex-presidente do país norte-americano inflamou seus apoiadores a invadirem o Capitólio, a sede do Congresso estadunidense, em uma ação que culminou em 5 mortes.

Como medida emergencial para conter o avanço da violência de extrema direita, as redes sociais Facebook, Instagram, Twitter e Reddit bloquearam as contas oficiais vinculadas a Trump. Em uma primeira vista, essa parece ter sido uma decisão benéfica à democracia. Porém, será que é mesmo?

De alguns anos para cá, cresceram as pressões sobre as grandes empresas que administram redes sociais e outros serviços de internet. Isso se deve ao apontamento de que a atual situação da rede mundial é uma das principais responsáveis pelo avanço do extremismo de direita. Em vários cantos do mundo, governos, percebendo isso, estão tomando decisões para que consigam lidar com os problemas gerados pelas redes sociais.

Leia também: Como o ataque ao Capitólio impacta a direita, os movimentos sociais e o Brasil

Medidas de controle sobre os dados dos usuários e contra o monopólio exercido por essas corporações vêm sendo tomados, porém, um campo ainda não teve um avanço concreto do Estado: o de responsabilização sobre o discurso de ódio promovido por meio das redes.

Em um primeiro momento, todos comemoramos quando Jack Dorsey e Mark Zuckerberg, líderes do Twitter e do Facebook, respectivamente, anunciaram o banimento de Donald Trump, mas precisamos perceber que essas ações são facas apontadas contra nós mesmos.

Quem deveria se responsabilizar pela regulação dos discursos nas mídias é o Estado, por meio de seus poderes executivos, legislativos e judiciários. Ao tomarem tal papel e assumirem a postura de acusação, júri e executor de uma pena imposta a Donald Trump, as corporações multibilionárias, que estão entre as que mais lucraram em meio à pandemia, enfraquecem o Estado e fortalecem a sua legitimidade.

Leia também: Ação no Capitólio revela "conluio" entre invasores, polícia e secretário de Defesa

Essa legitimidade das empresas é observável ao notarmos o quão apoiadas elas foram por setores que, cansados do discurso de ódio promovido pela extrema direita, comemoraram o banimento de Trump de todas as principais redes sociais do mundo. Essa legitimação tira o poder do Estado e do povo e o entrega às megacorporações. Emulando uma frase muito presente em obras de temática cyberpunk, esse discurso pode ser resumido em: “todo o poder às corporações”.

O argumento vigente para boa parte das pessoas que defenderam o banimento de Donald Trump é de que as redes sociais são empresas privadas e, portanto, podem fazer e atender ao que quiserem. Essa defesa faz parte de um discurso que é o auge do neoliberalismo, chegando até a se aproximar do neofeudalismo (ou anarcocapitalismo), aos quais precisamos combater diariamente.

Trump precisava, sim, ser calado, mas por medidas judiciais e legislativas que partissem do Estado e notificassem as redes sociais de que seus perfis deveriam ser banidos. Precisamos avançar na pressão popular para que essas corporações recebam regulamentação dos órgãos sobre controle popular, afinal, o poder não deve ser dela. Dessa vez, emulando obras mais esperançosas, a decisão sobre o banimento desses perfis deve ser resumida na frase: “todo poder ao povo”.

É inadmissível que apenas duas pessoas, amparadas apenas por seu poder econômico, possam tomar uma decisão unilateral que deveria ser do Estado. Em boa parte, isso não ocorre porque nossa estrutura estatal está controlada pelo poder econômico dessas empresas e, por isso, se omite em trazê-lo para si. Diante dessa realidade, torna-se ainda mais urgente a pressão popular para que sejam criadas legislações específicas que regulem o funcionamento dessas redes e reduzam o seu poder.


*Rafael da Guia é militante da Consulta Popular e desenvolvedor e analista de dados do Projeto de Articulação de Redes

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Geisa Marques

Comentários para "O perigo por trás do banimento de Donald Trump das redes sociais":

Deixe aqui seu comentário

Preencha os campos abaixo:
obrigatório
obrigatório
Paraguai reforça segurança na fronteira com Brasil

Paraguai reforça segurança na fronteira com Brasil

Congressistas americanos pedem recuo na relação com Brasil

Desenvolvimento é a força motriz da erradicação da pobreza na China

Desenvolvimento é a força motriz da erradicação da pobreza na China

Entre 1990 e 2010, no contexto da arrancada industrial, proporção de população pobre chinesa passou de 66,3% para 11,2%, de acordo com o Banco Mundial

China emite selos comemorativos da COP15

China emite selos comemorativos da COP15

Foto tirada em 11 de outubro de 2021 mostra os detalhes de um selo comemorativo para a 15ª reunião da Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (COP15) realizada em Kunming, Província de Yunnan, sudoeste da China.

ONG austríaca denuncia Jair Bolsonaro a tribunal internacional por 'crimes contra a humanidade'

ONG austríaca denuncia Jair Bolsonaro a tribunal internacional por 'crimes contra a humanidade'

O tribunal não tem obrigação de julgar todos os casos apresentados.

Veja o que dizem os presidentes latino-americanos flagrados com empresas em paraísos fiscais

Veja o que dizem os presidentes latino-americanos flagrados com empresas em paraísos fiscais

As Ilhas Virgens Britânicas são consideradas um dos principais paraísos fiscais do mundo, possuem apenas 152km² e 400 mil empresas registradas, recebendo cerca de US$ 60 bilhões anualmente

Brasil concede 80 vistos humanitários para cidadãos do Afeganistão

Brasil concede 80 vistos humanitários para cidadãos do Afeganistão

Estão em andamento mais 400 pedidos de vistos

Igreja Católica da França: 216.000 menores foram vítimas de abuso sexual em 70 anos, diz relatório

Igreja Católica da França: 216.000 menores foram vítimas de abuso sexual em 70 anos, diz relatório

Cerca de 3.000 pedófilos atuaram na Igreja Católica da França desde 1950, conforme um relatório da Comissão Independente Francesa sobre Abuso Sexual na Igreja.

Pelo menos 8 países apuram denúncias sobre uso de paraísos fiscais por líderes

Pelo menos 8 países apuram denúncias sobre uso de paraísos fiscais por líderes

Autoridades tributárias de Austrália, México, Espanha e Panamá fizeram comunicados públicos afirmando que estão acompanhando as denúncias reportadas e garantindo que investigarão possíveis crimes e indivíduos mencionados nos Pandora Papers.

BNDES captará US$ 500 milhões com banco dos Brics para projetos sustentáveis

BNDES captará US$ 500 milhões com banco dos Brics para projetos sustentáveis

O financiamento do NDB ao BNDES terá prazo total de 11 anos e seis meses. O banco brasileiro poderá usar os recursos para emprestar ao longo de quatro anos.

Projetos arquitetônicos são atração da Expo 2020, em Dubai

Projetos arquitetônicos são atração da Expo 2020, em Dubai

Quem visita faz uma viagem pela arquitetura internacional

Destaques desta sexta-feira pelo mundo, 1º de outubro

Destaques desta sexta-feira pelo mundo, 1º de outubro

Mudança em sistema de Saúde gera variações acentuadas no número de casos de Covid-19