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O silêncio que nos condena

O silêncio que nos condenaFoto: Pixabay

Todos juntos pelos mais vulneráveis. Chega de o socorro aparecer apenas para recolher corpos.

Por Cida Barbosa-correio Braziliense - 08/06/2019 - 09:04:31

Há duas semanas, escrevi neste espaço sobre a necessidade de uma mobilização nacional em defesa de crianças e adolescentes. Eles formam a parcela mais vulnerável da nossa população, mas são negligenciados por sociedade, Justiça e governo. Não há — e não me lembro se já houve — políticas públicas robustas para protegê-los, não há uma convergência de ações por parte de órgãos estatais, iniciativa privada e entidades.


Volto ao assunto por causa das atrocidades cometidas contra crianças aqui no DF e no Entorno: o violento espancamento de quatro irmãos em Planaltina de Goiás, que resultou na morte de uma menina, de 7 anos, e o brutal assassinato de Rhuan, de 9, em Samambaia.


A crueldade que esses inocentes sofreram, a inimaginável dor que sentiram tinham de gerar indignação no país, nos comover, nos atingir na alma. Mas nada aconteceu. Não houve uma revolta popular, não houve uma manifestação do governo ou da Justiça. Nada. Se dois crimes hediondos contra crianças, praticados na mesma semana, não conseguem nos mobilizar, o que somos nós, afinal? Frivolidades “viralizam”, o martírio de crianças passa ao largo.


A selvageria contra os pequenos não pode ser encarada como algo que “acontece”, como mais um “caso horrível”. Não podemos só nos chocarmos e seguirmos com a vida. Não podemos. Temos de fazer algo, todos nós. Para Rhuan e para aquela garotinha é tarde demais. Mas há muitos outros menores sofrendo neste momento. Temos de salvá-los. Seja denunciando casos de maus-tratos, seja cobrando medidas efetivas dos agentes públicos.


A única manifestação oficial que vi sobre os assassinatos foi da ministra Damares Alves. Numa rede social, ela postou: “É Brasil, nós vamos ter de nos levantar em defesa das crianças”, apelou. “Gente, é muito sério. Vocês podem salvar vidas. Se têm a mínima desconfiança de que uma criança passa por dificuldades, denunciem, vão ao Conselho Tutelar, chamem a polícia, Disque 100. Nenhuma denúncia vai ficar sem atenção”. Esse é realmente o papel de todos nós. Não viremos o rosto, como se não fosse de nossa conta. O silêncio pode custar vidas.


Mas de nada adiantarão as denúncias se o Estado não fornecer a estrutura necessária para a averiguação dos relatos e o resgate dos menores, e se a Justiça não punir devidamente os culpados. A ministra prometeu ações. Ela foi aos Conselhos Tutelares de Samambaia e de Planaltina de Goiás. Disse ter recebido as demandas dos órgãos para melhorar a rede de proteção às crianças. “Ouvi boas ideias dos conselheiros e vi que precisamos mudar muita coisa”, contou. É imprescindível também um chamamento nacional, com campanhas maciças de combate à violência contra menores e sobre a importância de denunciar. É preciso envolver todos os órgãos públicos, estabelecimentos comerciais, escolas, creches, unidades hospitalares, entidades.


Damares prometeu: “Livrar da violência as crianças deste país será nosso maior legado”. Espero que a ministra não fique apenas no discurso. Nós também temos de fazer nossa parte. Todos juntos pelos mais vulneráveis. Chega de o socorro aparecer apenas para recolher corpos.

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