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Os coronavírus vieram para ficar?

Os coronavírus vieram para ficar?Foto: Unplash

À medida que o mundo responde e se recupera da atual pandemia, precisará de um plano robusto para proteger a natureza, para que a natureza possa proteger a humanidade, segundo o PNUMA.

Onu Brasil - 07/04/2020 - 06:41:38

Nas últimas décadas, as doenças zoonóticas – aquelas transferidas de animais para humanos – ganharam atenção internacional.

Ebola, gripe aviária, vírus da gripe H1N1 (ou gripe suína), síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS), febre de Rift Valley, síndrome respiratória aguda súbita (SARS), vírus do Nilo Ocidental, vírus zika – e agora o novo coronavírus COVID-19 – todas causaram ou ameaçaram causar grandes pandemias, com milhares de mortes e bilhões em perdas econômicas.

Pesquisadores ainda não identificaram o ponto exato em que o vírus SARS-CoV-2 foi transferido de animais para humanos e se apresentou na forma de COVID-19. No entanto, uma coisa é clara: o novo coronavírus não será a última pandemia.

Em 2016, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) sinalizou preocupação com o aumento mundial de epidemias zoonóticas. Especificamente, apontou que 60% de todas as doenças infecciosas emergentes nos seres humanos são zoonóticas e estão intimamente ligadas à saúde dos ecossistemas.

Atividade humana e ecossistemas

De acordo com o relatório Fronteiras, do PNUMA, as zoonoses são oportunistas e prosperam onde há mudanças no ambiente, mudanças nos hospedeiros animais ou humanos ou mudanças no próprio patógeno.

No século passado, uma combinação de crescimento populacional e redução de ecossistemas e de biodiversidade culminou em oportunidades sem precedentes para a transmissão de patógenos entre animais e pessoas. Em média, uma nova doença infecciosa surge em humanos a cada quatro meses, diz o relatório.

Mudanças no ambiente

As atividades humanas resultaram em grandes mudanças no meio ambiente. Ao alterar o uso da terra – para assentamento, agricultura, extração de madeira, indústrias extrativas e sua infraestrutura associada – os seres humanos se fragmentam e invadem habitats de animais.

Ao destruir as zonas naturais de amortecimento que normalmente separariam os humanos dos animais, criam oportunidades para que os patógenos se espalhem dos animais selvagens para as pessoas.

As mudanças climáticas – principalmente o resultado das emissões de gases de efeito estufa – exacerbam a situação.

Mudanças de temperatura, umidade e sazonalidade afetam diretamente a sobrevivência de micróbios no ambiente; e as evidências sugerem que as epidemias de doenças se tornarão mais frequentes à medida que o clima continuar mudando.

A rápida mudança do clima também impede pessoas com menos recursos de responderem rapidamente, deixando-as mais vulneráveis e ampliando seus riscos de danos pela propagação de doenças zoonóticas.

Mudanças nos hospedeiros do patógeno

Mudanças nas populações humanas e animais que servem como hospedeiros para certos patógenos também resultam, frequentemente, de atividades humanas. Elas podem estar relacionadas à migração, urbanização, mudança de preferências alimentares, demandas comerciais e viagens.

Em muitos países em desenvolvimento, o crescimento econômico e as mudanças demográficas das áreas rurais para as urbanas estimularam a demanda do consumidor urbano por laticínios e proteína animal. Isso levou à expansão das terras cultivadas e à criação mais intensa de animais nas proximidades e nas cidades, aumentando as oportunidades de exposição.

Os animais domésticos geralmente servem como uma ponte epidemiológica entre a vida selvagem e as infecções humanas, como no caso da gripe aviária. Os patógenos circularam pela primeira vez em aves selvagens, infectaram aves domésticas e, depois, foram transmitidos ​aos seres humanos.

A proximidade de diferentes espécies em “mercados úmidos” ou o consumo de animais selvagens também podem facilitar a transmissão entre animais e humanos. Os primeiros casos de SARS foram associados ao contato com gatos da cidade, vendidos em mercados úmidos. Acredita-se que alguns casos de Ebola na África Central tenham sido transferidos de animais para humanos por meio do consumo de carne de gorila infectada.

A incubação – o tempo entre a infecção humana e a hora em que esse humano apresenta sinais de infecção – pode durar dias ou semanas. Mas milhões de pessoas, em circunstâncias normais, viajam todos os dias, de um país para outro, em apenas algumas horas.

Assim, uma doença originada em um país pode se espalhar rapidamente para outros, independentemente das distâncias entre eles. Isso é particularmente visível na rápida disseminação da COVID-19, que afetou quase todos os países do mundo nos três meses seguintes ao primeiro caso relatado.

Mudanças nos patógenos

Os patógenos mudam geneticamente (mutação) à medida que evoluem, o que lhes permite explorar novos hospedeiros e sobreviver em novos ambientes. Um exemplo disso é a resistência emergente de patógenos a medicamentos antimicrobianos – como antibióticos, antifúngicos, antirretrovirais e antimaláricos – geralmente resultantes do uso indevido dos medicamentos, por pessoas ou em medicina veterinária.

Integridade dos ecossistemas e saúde humana

Os ecossistemas são inerentemente resistentes e adaptáveis ​​e, ao sustentar a vida de diversas espécies, ajudam a regular doenças.

Quanto mais biodiversidade um ecossistema possui, mais difícil é que um patógeno se espalhe rapidamente ou domine.

A ação humana, no entanto, modificou as estruturas populacionais da fauna silvestre e reduziu a biodiversidade a uma taxa sem precedentes, produzindo condições que favorecem determinados hospedeiros, vetores e/ou patógenos.

Por exemplo, a diversidade genética fornece uma fonte natural de resistência a doenças entre populações animais e, considerando que a criação intensiva de animais geralmente produz semelhanças genéticas entre rebanhos e bandos, isso os torna suscetíveis à propagação de patógenos de animais selvagens.

Da mesma forma, as áreas de biodiversidade permitem que vetores transmissores de doenças se alimentem de uma variedade maior de hospedeiros, alguns dos quais são reservatórios de patógenos menos eficazes.

Por outro lado, quando patógenos ocorrem em áreas com menos biodiversidade, a transmissão pode ser amplificada, como foi mostrado no caso do vírus do Nilo Ocidental e da doença de Lyme.

Como observou a diretora-executiva do PNUMA, Inger Andersen, “gostando ou não, somos intimamente ligados à natureza. Se não cuidarmos dela, não poderemos cuidar de nós mesmos”.

O que pode ser feito

Abordar o surgimento de doenças zoonóticas requer falar sobre sua causa raiz – principalmente o impacto das atividades humanas nos ecossistemas.

Isso significa reconhecer as relações estreitas entre a saúde humana, animal e ambiental. Significa aumentar o monitoramento da saúde humana e da vida selvagem em paisagens que estão no início do processo de transformação para desenvolver parâmetros, bem como melhorar o entendimento e a preparação para possíveis surtos e informar o avanço para minimizar os riscos aos seres humanos e à natureza. Isso exige esforços colaborativos, multissetoriais, transdisciplinares e internacionais, conforme a abordagem One Health.

Com uma população global próxima de 10 bilhões, Andersen é enfática quanto ao fato de 2020 ser “um ano em que teremos que reformular fundamentalmente nosso relacionamento com a natureza”.

O PNUMA, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e centenas de parceiros em todo o planeta estão lançando um esforço de 10 anos para prevenir, interromper e reverter a degradação dos ecossistemas em todo o mundo.

Conhecida como a Década das Nações Unidas para a Restauração de Ecossistemas 2021-2030, essa resposta à perda e degradação de habitats coordenada globalmente se concentrará na construção de vontades e capacidades políticas para restaurar a relação da humanidade com a natureza.

erá uma resposta direta ao apelo da ciência, conforme articulado no Relatório Especial sobre Mudança Climática e Terra do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), e às decisões tomadas por todos os Estados Membros da ONU nas Convenções do Rio sobre mudança climática e biodiversidade e na Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação.

O PNUMA também está trabalhando com lideranças mundiais para desenvolver um novo e ambicioso Marco Pós-2020 de Biodiversidade e chamar a atenção de tomadores de decisão para questões emergentes (como zoonóticos).

À medida que o mundo responde e se recupera da atual pandemia, precisará de um plano robusto para proteger a natureza, para que a natureza possa proteger a humanidade.

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