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Pandemia: Integrantes do governo federal agem como espectadores da tragédia brasileira

Pandemia: Integrantes do governo federal agem como espectadores da tragédia brasileiraFoto: YouTube

Não tenho nada com isso

Carlos Alexandre De Souza - Correioweb - 19/09/2020 - 11:07:13

Integrantes do governo federal agem como espectadores de primeira fila da tragédia brasileira, com o bordão: estados e municípios é que decidem como enfrentar a pandemia.

Passados seis meses de pandemia, o mundo continua em guerra com o novo coronavírus. Enquanto a vacina não fica pronta, os países que já passaram pela primeira onda no enfrentamento do novo coronavírus se esforçam em evitar o rebote. O governo britânico, por exemplo, anunciou, ontem, a possibilidade de decretar confinamento geral ante o aumento de internações. Após haver contraído a doença que minimizara semanas antes, o primeiro ministro Boris Johnson parece ter aprendido que a pandemia é assunto grave, sim, e demanda medidas firmes que dizem respeito à nação britânica. O alerta de Downing Street indica, também, que o combate à covid-19 é marcado por idas e vindas, avanços e recuos, vigilância constante e, sobretudo, capacidade de mobilização da sociedade. Estamos falando do país com 41.700 mortes de covid-19, o maior registro fatal da pandemia no continente europeu.

E no Brasil? Bem, por aqui desenvolveu-se uma estratégia peculiar no governo federal em relação à tragédia sanitária. Trata-se da lógica “Não tenho nada com isso”. Comandados pelo chefe do Palácio do Planalto, os subordinados agem como espectadores na primeira fila de uma tragédia brasileira, protegidos dos riscos da batalha. Anunciam medidas de alcance restrito como se fossem grandes realizações, até o momento de repetirem o bordão: estados e municípios é que têm a prerrogativa de decidir como enfrentar a pandemia. Em outras palavras, quando o assunto se torna espinhoso, o governo federal se sai com essa: não é problema meu. Não tenho nada com isso.

Essa postura explica, por exemplo, a participação do ministro da Educação em audiência no Congresso. O Brasil está há seis meses sem aula, há uma crescente convicção de que o ano letivo está perdido, milhões de estudantes de escolas públicas serão punidos ainda mais em razão das desigualdades no ensino brasileiro. E vem o titular do MEC afirmar que, se dependesse dele, as aulas retornariam “amanhã”. Pergunta-se se não há até uma dose de sarcasmo na fala do ministro, tamanha a desconexão com a realidade que se apresenta nas escolas do país. A postura de Milton Ribeiro apenas reproduz o descaso do MEC em relação ao impacto da covid-19 na educação do país, assunto que deveria ser tratado como prioridade pela pasta e, em última instância, pelo Palácio do Planalto. Coube ao Ministério da Saúde, somente ontem, divulgar uma cartilha com orientações gerais de prevenção para o contágio. É pouco, muito pouco para um país que tem, ao menos, 20 milhões de estudantes sem ir à escola e outros 50 milhões confinados no ensino on-line. É pouco para um país no qual a Constituição determina que saúde, educação e segurança constituem direitos de todo cidadão brasileiro e, portanto, dever do Estado, em todas as instâncias.

O espantoso distanciamento do governo federal em relação aos problemas agravados pela pandemia também é evidente em relação à dramática crise do INSS. Cinco meses de agências fechadas foram insuficientes para o Instituto Nacional do Seguro Social garantir o atendimento à população no contexto da pandemia. Em uma flagrante demonstração de falta de planejamento, integrantes da secretaria de previdência e trabalho saíram a verificar as condições sanitárias dos consultórios de perícia após – sim, após – anunciar a centenas de milhares de brasileiros que as agências do INSS estariam abertas para atendimento. O argumento de que os médicos peritos estão de má vontade com a iniciativa do governo é frágil como uma folha de papel. É evidente que a adoção de medidas preventivas para funcionários e para o público em geral seria um ponto crucial na decisão de autorizar a retomada dos trabalhos no INSS. Das duas, uma: ou o governo não tinha conhecimento da resistência dos médicos peritos em voltar ao batente, ou acreditou que a categoria voltaria de bom grado sem exigir condições de trabalho. No fim, o que temos é o que se vê cotidianamente: uma politização em torno da pandemia, com prejuízo para o cidadão

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