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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 19 de novembro de 2018


Paquera ou assédio? As mulheres dizem o que pode ou não pode no carnaval

Paquera ou assédio? As mulheres dizem o que pode ou não pode no carnaval

Cerca de 85% das mulheres já tiveram seus corpos tocados publicamente sem autorização.

Por Jornal O Sul / Foto: Agência Brasil - 16/07/2018 - 00:03:09

Os blocos são cheios de gente, o contato físico é inevitável e a música é tão alta, que a gente mal escuta o que os amigos falam. Nesse cenário, nem sempre é fácil se aproximar de alguém e, algumas vezes, o que seria uma paquera pode virar assédio. A seguir, seis mulheres dizem o que é legal e o que é ofensivo no comportamento masculino ao abordar uma foliã.

A advogada Nathalia Duarte, 32 anos, ama carnaval e gosta de conhecer gente nos blocos, desde que com respeito. “Tudo depende da forma como o cara chega”, diz ela. “Óbvio que puxar o cabelo é uma coisa agressiva, não é legal. Eu chego nos caras algumas vezes e jamais fiz isso.” Para ela, a fantasia é a desculpa perfeita para puxar conversa, mas alguns “abusadinhos” podem transformar esse papo em um momento de incômodo.

A publicitária Renata Raffani, 28 anos, já usou fantasia de princesa e gosta da paquera que começa com uma brincadeira. “Carnaval é festa, está todo mundo fantasiado. O melhor jeito de chamar a atenção é sempre na brincadeira”. Para ela, ser criativo dá pontos-extra na hora da conquista. Ela diz que o contato físico não é problema, desde que não seja agressivo.

A chef de cozinha Paula Rodrigues, 30 anos, curte o carnaval do Rio de Janeiro há anos e diz que tem mais memórias positivas do que negativas da festa. “Dei sorte! Teve um cara que ofereceu protetor solar, porque eu precisava me cuidar. Acho uma interação bacana e que pede permissão”. Mas nem tudo é folia. “Mexer no cabelo acho invasivo, chato mesmo. Teve um carinha que beliscou minha cintura. Há outros jeitos de chegar”.

A jornalista Desireé Molina, 27 anos, diz que “o contato físico é aceitável quando você viu a moça ali, de longe, e achou interessante. Dá uma encarada antes. Vê se ela retribui de algum jeito. Tenta sacar se o interesse também vem da parte dela. Aí então você pode se aproximar”.

Desireé frequenta os blocos de São Paulo e acredita que a cultura machista de ‘mulher ter que se dar o respeito’ pode ter influenciado na dificuldade dos homens em entender um ‘não’: “Quando eu era mais nova, aprendi que, mesmo que eu quisesse ficar com o cara, eu tinha que me fazer de difícil para ele me valorizar. Acho que isso condicionou os caras a não entenderem que ‘não é não’.

A estudante de moda Raíssa Campos, 21 anos, curte os blocos do Rio de Janeiro e não vê problema em uma “insistidinha” depois do primeiro não, mas diz que a aproximação deve ter limites. “Eu acho péssimo quando a abordagem é assim invasiva, de chegar agarrando, chegar segurando, pegando pela cintura.” Ela evita algumas fantasias, por medo. “Eu evito usar roupas curtas demais, por uma questão de histórico de violência contra mulheres no dia-a-dia. Mesmo no carnaval, sendo mais comum, costumo evitar”.

Já a analista de câmbio Dhébora Diniz, 22 anos, avalia que a sexualização da mulher, independente do contexto, é uma crítica constante: “Além de não respeitarem o seu ‘não’, eles ainda forçam algumas situações. É muito desconfortável e acontece quase sempre”. Para evitar esse tipo de situação, ela tem procurado blocos LGBT, onde se sente mais segura.

A lei

Diferente da paquera, que é mútua e consensual, o assédio sexual é crime: ele consta no Código Penal no artigo 216. A diferença entre paquera e assédio é grande. Na paquera, os elogios são feitos com respeito e bem recebidos. No assédio, a mulher se sente invadida, exposta, ameaçada ou encabulada. A mesma legislação enquadra como “Ato Obsceno” (artigo 233) quando alguém pratica uma ação de cunho sexual, como exibir seus genitais, em local público, para constranger ou ameaçar alguém.

Dar bebida para alguém com a intenção de conseguir “sexo fácil” também é crime. No artigo 217 do Código Penal, o “Estupro de Vulnerável” acontece quando a “conjunção carnal ou ato libidinoso” é praticado com alguém que “não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência”.

Segundo a campanha “Chega de Fiu Fiu”, 85% das mulheres já tiveram seus corpos tocados publicamente sem autorização. Nesses casos, as vítimas podem buscar a ajuda de um policial no local onde acontecem os blocos, ir até uma delegacia para fazer um boletim de ocorrência ou ligar para o Disque 180, que recebe denúncias de violência contra a mulher.

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