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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 30 de novembro de 2021

Para Marcelo Café, a revolução é musical

Para Marcelo Café, a revolução é musicalFoto: Correio Braziliense

"Temos de tomar posição, celebrar nossa negritude com o que é nosso de direito. A música brasileira é negra, a cultura é negra, o carnaval é negro, o samba é negro"

Cibele Moreira-correio Braziliense - 17/12/2019 - 07:21:52

Cantor e compositor de Ceilândia, Marcelo Café se utiliza do poder da música para falar sobre empoderamento e defender o lugar de fala dos negros.

“Falar sobre a beleza negra, o empoderamento, o assumir a negritude, tudo isso é fator de existência.” Com essas palavras, Marcelo Fernandes Rocha — conhecido como Marcelo Café — defende o poder de fala e a importância de se posicionar em uma sociedade racista. Destaque na cena artística brasiliense, o cantor e compositor de 46 anos passeia pelos estilos do samba e do samba-rock com forte militância. “Temos de tomar posição, celebrar nossa negritude com o que é nosso de direito. A música brasileira é negra, a cultura é negra, o carnaval é negro, o samba é negro.”


Marcelo nasceu em Niterói (RJ). Aos 10 anos, veio para Brasília com a família para acompanhar o pai, funcionário da Rádio Planalto. Ainda criança, teve contato com instrumentos musicais. “Comecei a tocar de 7 para 8 anos. Minha mãe deu meu primeiro violão, me ensinou os primeiros acordes”, lembra. Na infância e em parte da adolescência, tocava na igreja acompanhando a mãe, que era do coral. Já adulto, fez apresentações em barzinhos e, em 2007, assumiu o vocal da banda autoral Casa-Grande, que misturava bossa-nova e rock. “Esse foi um dos momentos mais importantes da minha carreira, para me aceitar como compositor.”


O morador de Ceilândia se consolidou na carreira e coleciona prêmios por suas composições, a exemplo de A Revolução é Preta, ganhadora do Festival Universitário de Música Candanga (Finca), em 2017. No ano seguinte, Marcelo foi finalista do festival de música da Rádio Nacional como melhor intérprete.


O artista conta que a letra da canção premiada veio por inteira após ler a frase “I have seen God and she’s black” (em português, “Vi Deus, e ela é negra”), usada pelo movimento Black Powers, nos Estados Unidos. “A Revolução é Preta foi composta em um momento mágico. Estava na Universidade de Brasília, andando do ICC Norte para o ICC Sul, quando tive a visão de uma mulher sob as nuvens e, ao redor dela, ogans negros tocavam tambores. E ela vinha trazendo o samba, a cura. É uma música muito forte, que fala de empoderamento, de amor”, relata.


E empoderamento tem de sobra nas canções de Marcelo Café. A primeira composição de cunho étnico e político foi Preto Empoderado. A letra, feita em parceria com Cristiane Sobral, fala sobre a beleza do negro, de se aceitar como é, com o cabelo black, a cor de pele. “Tem músicas minhas que eu toco hoje que existem há pelo menos 10 anos, mas a gente sempre fica na dúvida de colocar para jogo. Especialmente quando é uma música política como a minha. Eu demorei muito para começar a revelar”, expõe o artista, que pretende lançar um disco apenas com canções que enaltecem a negritude. No novo EP, programado para ser lançado no meio do ano que vem, haverá sete músicas autorais, entre elas, A Revolução é Preta, O Samba Cura e Monalisa é Negra.


A inspiração para essa reverência de fala por meio da música veio de um outro artista influente. “O Luiz Melodia foi importante para o meu reconhecimento como negro. Quando eu vi esse cara cantando Pérola Negra e a forma como ele se movimentava no palco, vestido todo de vermelho, eu pensei: ‘olha só esse cara, eu também posso fazer isso’”.


Preconceitos


Para Marcelo Café, dificilmente um negro não tenha passado por algum episódio de preconceito no Brasil. Um gesto, um olhar, uma fala, que, às vezes, nem se percebe. “Quando você desperta para isso, é fácil notar como a televisão te invisibiliza. Apesar de ser maioria na população, o negro é minoria em muitos lugares e nos espaços de poder. O Brasil não assume que é um país racista, não assume que existe essa segregação, que existe o racismo institucional que nos mata todos os dias, nos tira direito.”


Uma das frases destacadas pelo músico durante a entrevista ao Correio foi que “a gente não nasce negro no Brasil, a gente se torna negro”. De acordo com ele, todo o sistema colabora para isso. “Quando uma criança negra sai de casa para ir à escola, ela se depara com uma realidade em que a cor de pele dela não é aceita, o cabelo não é o bonito. E principalmente o ensino de história não favorece. E, nesse processo, você se torna realmente negro, começa a perceber como as pessoas te olham. Com isso, vem o empoderamento, o orgulho e o entender o que é ser negro no país.”


Projetos


Com 20 anos de carreira como músico, Marcelo Café também movimenta a cena artística da cidade com vários projetos independentes, principalmente em regiões da periferia. Um deles é o Tardezinha do Samba, que ocorre em Ceilândia e, em 28 de dezembro, terá sua segunda edição. Será na Casa do Cantador, das 12h às 23h. Onze artistas do DF vão se apresentar, e a entrada é gratuita.


Outra iniciativa é o Baile do Café, realizado sempre em maio, para comemorar o aniversário do cantor. O evento, aberto à população, mistura várias vertentes da cultura negra, como o soul, charme e o rap.


Sacerdote

No candomblé, ogan é o nome do sacerdote escolhido pela divindade ancestral orixá, que permanece lúcido durante todos os trabalhos. Não entra em transe, mas, ainda assim, recebe a intuição espiritual. Geralmente toca instrumentos de percussão.


Preto Empoderado

Preto de cabelo black não é homem de bem

Preta de cabelo black não tem a aparência que convém

Elas são negras, o manual da melanina

Então abaixa, alisa, corta e investiga

Não sabe que tem que clarear

Que ousadia

Pois espere o inesperado

É o preto empoderado

Eu tenho orgulho da minha cor, do meu cabelo e do meu nariz

Porque eu sou crioulo


Monalisa Negra

Eu fiz o samba só pra ela

Num domingo de manhã, que o céu acordou o dia

Lá na feira eu vi você soltar o pixaim

Renascença ébano, um Da Vince negro pixe

Um sorriso, um enigma

Me encantando e convidando

Me senti privilegiado quando ela me fitou

Uma tela feita óleo

Que oxalá me regalou

Monalisa negra dominando tudo

Na cor de tua pele, escrevi o meu futuro


Especial

A série Histórias de consciência presta homenagem a mulheres e homens negros que ajudam a construir uma Brasília justa, tolerante e plural. Todos os perfis deste especial e outras matérias sobre o tema podem ser lidos no site www.correiobraziliense.com.br/ historiasdeconsciencia

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