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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 26 de outubro de 2021

Paraense do Exército de Israel relembra primeira madrugada de mísseis em Gaza e relata rotina como combatente

Paraense do Exército de Israel relembra primeira madrugada de mísseis em Gaza e relata rotina como combatenteFoto: Arquivo Pessoal

Fernando Larrat fala do dia a dia nas Forças Armadas, da vida no Oriente, opina sobre os conflitos e também sobre a convivência num lugar onde vivem tantos povos diferentes.

Por Glauce Monteiro E Jorge Sauma, G1 Pa — Belém - 23/04/2019 - 18:40:06

Fernando Larrat Miranda é natural de Belém, mas há 18 meses trabalha no Exército de Israel. — Foto: Arquivo Pessoal

Fernando Larrat Miranda é natural de Belém, mas há 18 meses trabalha no Exército de Israel. — Foto: Arquivo Pessoal

Ele é um jovem de apenas 23 anos, nascido em Belém do Pará e fã do açaí do norte do Brasil. Seria um paraense como outro qualquer se atualmente não morasse no Oriente Médio e fosse um combatente do Exército de Israel. Em entrevista ao G1, durante férias no Brasil, Fernando Larrat Miranda relembrou o choque que sentiu ao ver o primeiro míssil cair perto de onde estava. Também disse que a visão que tinha daquela terra mudou após ingressar no serviço militar.

O que faz um jovem deixar uma cidade amazônica e ir para o outro lado do mundo? Essa é uma das perguntas que Fernando está acostumado a receber e passa horas respondendo. Mais ainda: o que faz alguém sair do Brasil, país que não tem confronto com outras nações, para se alistar voluntariamente ao Exército israelense?

Ele contou que a mudança foi possível porque tem descendência judia, por conta de sua avó que migrou do Marrocos à Belém há décadas. Isso lhe permitiu solicitar o reconhecimento à nacionalidade israelense e lhe garantiu acesso ao pequeno país criado depois do Holocausto e da 2ª Guerra Mundial para ser o lar dos judeus.

"Desde muito jovem senti um vínculo, uma importância. Precisava ir um dia para o meu lugar de origem, onde o povo judeu veio. Não queria saber das histórias de longe, queria ver de perto como é que é. Sempre pensei em uma forma de ajudar o meu povo.” Trabalhar no Exército foi a forma que ele encontrou para isso.


Treinamento no Exército Israelense

Antes do ingresso definitivo no Exército, paraense passou pela "academia" israelense — Foto: Arquivo Pessoal

Antes do ingresso definitivo no Exército, paraense passou pela "academia" israelense — Foto: Arquivo Pessoal

No Centro de Recrutamento, ele falou sobre a decisão de fazer parte do grupo. O pai dele, paraense e de origem católica, também é militar. “Expliquei que era um imigrante judeu, mas que tinha vontade de servir ao Exército, queria ver de perto como as coisas acontecem. O Exército israelense é um dos mais poderosos do mundo e eu queria ter essa experiência”, diz.

Fernando conta que, ao chegarem, os recrutas são separados segundo seu perfil. Nos três primeiros meses, cada combatente é levado à exaustão. Depois é hora do treinamento inicial, quando recebem fuzis e, em seguida, do avançado, já focado na guerra. Nesta etapa, ocorre o treinamento grupal de operações, mas também estudos.

“O Exército israelense não é só estar lá com arma na mão. A gente estuda muito, estuda Israel, politicamente falando, a relação com os outros países para entender os povos que vivem lá dentro: judeus, cristãos, árabes. Lá tem de tudo. É um país que mostra a possibilidade de vários povos diferentes, de pensamentos diferentes, viverem juntos”, afirma.

Guerra e paz na Faixa de Gaza

Barcos de pesca flutuam no porto da Cidade de Gaza.  — Foto: Suhaib Salem/Reuters

Barcos de pesca flutuam no porto da Cidade de Gaza. — Foto: Suhaib Salem/Reuters

Para Fernando, a relação entre judeus e muçulmanos, em geral, é natural e pacífica. Ele acredita que não é a diversidade da população a causa dos conflitos. Há muçulmanos no Exército israelense. “Eu escutava falar antes de ir para lá que judeu não podia ficar perto de árabe. Eu vejo o contrário: 30% da população israelense é árabe. Um dos meus melhores amigos é árabe e serve comigo no Exército".

O paraense também diz que a faixa de Gaza não é apenas um cenário de destruição, como ele imaginava antes. Embora viva a mercê de ataques, é uma cidade com infraestrutura urbana e possui uma arquitetura particular, típica da Antiguidade. "As casas parecem minicastelos".

Fernando ainda comenta sobre a relação com o povo e, principalmente, com as crianças, com ele conviveu de perto quanto estava em Gaza, há dois meses. Agora ele está em Hevron.

“A gente estava fazendo a segurança de um kibutz, um local onde vivem famílias israelenses na fronteira entre Gaza e o Egito. Foi o meu melhor momento lá. Pude ver as casas, as pessoas, as ruas. Fiz algumas rondas por lá. Várias crianças palestinas vêm falar com a gente. Crianças são crianças. Elas não estão nem aí para o conflito, só querem ser felizes. Jogamos futebol com eles.”

Apesar dos confrontos, Fernando afirma que vida em Israel é boa e com qualidade — Foto: Arquivo Pessoal

Apesar dos confrontos, Fernando afirma que vida em Israel é boa e com qualidade — Foto: Arquivo Pessoal

Mas o medo também faz parte desta realidade. Na primeira vez que o brasileiro presenciou o alerta vermelho, não deu importância até ouvir a primeira explosão, distante cerca de 400 metros de onde estava. Era mais um dia habitual na vida de tantos moradores que convivem com a guerra.

“Era muito alto e eu fiquei atordoado. Era um clarão. Nisso eu perguntei para o meu comandante: ‘O que é isso? O que está acontecendo?’. O meu comandante, assim como muita gente do país, já nasceu vendo esses problemas acontecerem. Eu não. Foi a primeira vez que eu estava em Gaza e vi uma bomba, um míssil, caindo do meu lado. Foi um choque no coração. Porém, o que a gente ia fazer com um monte de míssil caindo e eu apenas com um fuzil na mão?”

Fernando afirma perceber no Exército de Israel um zelo pela eficiência contra os ataques terroristas e o uso contínuo de inteligência e tecnologia para minimizar danos e reduzir o risco de atingir civis em confrontos. “O que foi mais tenso para mim [no primeiro ataque] não foi nem ver a explosão, que faz parte do confronto. O mais triste foi ver que dentro do local que eu estava tinham muitas crianças, idosos e mulheres grávidas”.

O combatente relembra que as explosões duraram toda a madrugada e, o que parece normal aos adultos, é assustador para as crianças. “Eu tenho um irmão mais novo, de 9 anos, e me lembrei logo dele, porque isso tudo deixa as crianças apavoradas. Foi a coisa mais difícil para mim, e isso durou a noite inteira, foi a noite toda caindo míssil. Foram mais de 300 mísseis em duas horas”. Segundo ele, ninguém morreu no ataque.

O sistema de interceptação marítima de mísseis "cúpula de ferro" evita mortes ao interceptar mísseis inimigos. — Foto:  Forças de Defesa de Israel/Reuters

O sistema de interceptação marítima de mísseis "cúpula de ferro" evita mortes ao interceptar mísseis inimigos. — Foto: Forças de Defesa de Israel/Reuters

O paraense revela que uma das tecnologias usadas pelo Exército de Israel tem sido fundamental para minimizar as mortes: o Kipat Barzel. “Traduzindo, é uma cúpula de ferro. Por exemplo: eles jogam cinco mísseis. O Kipat Barzel joga outros cinco mísseis para abater os outros. Eles, então, explodem no ar. A tecnologia militar israelense salva, mas, às vezes, isso não funciona e acaba caindo um em algum lugar”.


Terroristas e atentados à bomba


Ele explica que é integrante de um esquadrão especializado em atuar nas áreas urbanas e que já participou de operações de captura de terroristas, mas quem dá as informações e orienta como tudo deve ser feito, nestes casos, é o Mossad, o serviço secreto de Israel. Segundo Fernando Larrat, o Hamas é o grupo terrorista que mais atua na região.

Mesmo acostumado com situações adversas, para ele, não é um trabalho fácil lidar com suspeitos de envolvimento em atentados terroristas. “Vejo as esposas e os filhos chorando. As crianças nasceram nessa situação. Eles não têm o que fazer. Não são pessoas ruins, mas é preciso levar o suspeito e cumprir a missão". Não há pena de morte em Israel, e o tempo máximo de reclusão é 30 anos.

Confronto entre Hamas e Israel na Faixa de Gaza. — Foto: Reprodução/JN

Confronto entre Hamas e Israel na Faixa de Gaza. — Foto: Reprodução/JN

Apesar da qualidade de vida e segurança urbana, quem vive em Israel ainda enfrenta o medo dos atentados. A política e protocolos de segurança para lidar, por exemplo, com pacotes e malas deixados em vias e lugares públicos é surpreendente. Toda vez que alguém esquece uma mala, “fecha a rua, chega a polícia, chama esquadrão antibombas. Se o pacote é difícil de abrir, um robô explode o pacote”.

Quem trabalha em áreas de fronteira percebe que, apesar dos acordos internacionais, há tensão nas relações diplomáticas entre países, mas a convivência entre as pessoas, garante Fernando, é mais amistosa.

"A verdade é que a maioria quer paz, tanto o lado israelense, quanto o lado palestino. Harmonia é a palavra. Recebemos denúncias dos próprios palestinos sobre possíveis ataques, eles não querem problemas”, afirma Larrat.

Paraense que é combatente pretende continuar entre seus dois lares: Belém e Israel. — Foto: Arquivo Pessoal

Paraense que é combatente pretende continuar entre seus dois lares: Belém e Israel. — Foto: Arquivo Pessoal

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