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Parentes de Letícia Curado e de Genir Pereira tentam, aos poucos, retomar a vida

Parentes de Letícia Curado e de Genir Pereira tentam, aos poucos, retomar a vidaFoto: CorreioWeb

Dias após o assassinato da mulher, Letícia, Kaio Curado de Melo publicou fotos do casamento e escreveu desabafos: "Você era tudo para mim"

Por Sarah Peres, Walder Galvão E Mariana Machado-correio Braziliense - 01/09/2019 - 08:17:13

Dor, fé e luta por justiça

Parentes de Letícia Curado e de Genir Pereira tentam, aos poucos, retomar a vida. Ambas foram assassinadas por Marinésio dos Santos Olinto, suspeito de assediar outras nove vítimas no Distrito Federal

 (Facebook/Reprodução)



Ainda não há rotina no apartamento de Planaltina onde morava Letícia Sousa Curado Melo, 26 anos, morta em 23 de agosto pelo cozinheiro Marinésio dos Santos Olinto, 41 anos. Nos dias que sucederam a tragédia, os parentes se uniram em torno do marido da funcionária do Ministério da Educação, Kaio Fonseca Curado de Melo, 25, e do filho deles, Enzo Gabriel, 3. Ao Correio, Kaio, que é cabo do Exército, desabafou: “A minha família está o tempo todo do meu lado. Desde sexta-feira, a gente está acampado no meu apartamento. Em ocasiões assim, a gente acaba se unindo mais ainda”.

Para manter as lembranças da mãe, o militar mostra para a criança fotos e vídeos da família. “Estou tentando blindá-lo o máximo possível”, revela. Diante da dor, ele evita falar em superação. “Estou pegando o resto de força que tenho para passar ao meu filho e para levantar da cama.”

Kaio e Letícia se casaram em agosto de 2017. Após o crime, o viúvo usou as redes sociais para publicar fotografias do casamento, celebração em que Letícia aparece sorridente, usando uma saia azul para a cerimônia civil. Na postagem, escreveu: “A gente queria crescer a família. Quando você concordou, me deixou repleto de alegria. Você era tudo para mim. Apesar das confusões, nós sabíamos do nosso amor incondicional. Passamos por cima de tudo e de todos para ficarmos juntos”, declarou-se.

Para Kaio, é complicado falar em justiça. Em vez disso, o militar prefere se apegar à fé. “A gente tem de pensar assim para não se agarrar à raiva e ao ódio e acabar se afundando cada vez mais”, explica. Da mulher, ele elogia a personalidade forte. “Letícia era uma menina de paz. Um pouco turrona, mas tinha coração bom e era especial para todo mundo”, detalha.

Depois das ameaças sofridas pela filha e pela mulher de Marinésio, Kaio se manifestou contra a perseguição às duas, afirmando que elas também são vítimas. “O único culpado é o preso. Toda a família veio falar comigo. Eu senti e vi sinceridade nos olhos deles. A filha nem conseguiu falar. O pai, um senhor de mais de 70 anos, tentou ajoelhar pedindo perdão”, afirmou.

Agora, ele espera que o assassinato da esposa não se torne apenas estatística. “Eu vou lutar para não deixar que isso seja esquecido. Letícia tem de ser eterna nesse caso de força e luta para as mulheres”, ressaltou. “Para as guerreiras que sobreviveram na mão desse cara, digo para terem força e tentar levar para a frente, porque ao menos elas ainda têm a vida.”

Semelhanças

A ferida começa a fechar para os parentes da auxiliar de cozinha Genir Pereira Sousa, 47, assassinada em junho — Marinésio confessou o crime. Abalado, o filho dela, o padeiro Leonardo Araújo, 29, conta que vive o momento mais difícil da vida. “Foram dois meses e 10 dias de espera. Por um lado, é um alívio, mas, por outro, há revolta e raiva”, lamentou.

Após a prisão pelo homicídio de Letícia, o cozinheiro contou à polícia que ele e Genir tiveram relação sexual consensual, informação refutada pelo filho da vítima. “O depoimento dele foi mentiroso. Todo mundo que a conheceu ouviu dela: ‘Se alguém tentasse me estuprar, eu preferia morrer’. Eu disse isso na delegacia”, relembrou.

Mãe e filho moravam no Arapoanga, bairro de Planaltina. “Fazíamos tudo juntos. Aos fins de semana, íamos ao Paranoá, onde ela tinha mais conhecidos”, recordou. “A minha mãe era dedicada aos amigos, à família e ao trabalho. Ficou 15 anos na pizzaria da patroa. Era uma pessoa extraordinária e, todos os dias, sentimos falta dela.”

Agora, ele procura acompanhamento psicológico e cogita mudar de endereço. “Não consigo mais ficar em casa desde o dia que a minha mãe sumiu. Eu não durmo aqui, mas na casa da minha tia. Cada canto (da residência) me lembra dela.” Segundo Leonardo, todo o drama está sendo revivido. “Eu estava de férias no Piauí, quando soube do caso da Letícia e voltei em seguida. A minha irmã foi à delegacia e disse que havia semelhanças. Eu tive em mente que era o mesmo autor, e isso se confirmou”, afirmou.

Para outras mulheres que também sofreram abusos de Marinésio ou de outros agressores, Leonardo faz um apelo: “Elas precisam ir à delegacia. A gente pensa que nunca vai acontecer com a nossa família, mas, infelizmente, acontece”. De acordo com o padeiro, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) ofereceu ajuda no caso da mãe. “Quanto mais pressionarmos, mais rápido será o julgamento, e ele paga pelo crime”, avaliou.



As vítimas

 (Arquivo Pessoal)

Letícia Curado,

26 anos

Na manhã de 23 de agosto, Letícia esperava um ônibus quando foi abordada por Marinésio na parada. Ao voltante de uma blazer prata, ele ofereceu carona até a Rodoviária do Paranoá. No caminho, ele a assediou e, quando ela reagiu, o cozinheiro matou a jovem estrangulada. O corpo dela foi encontrado em 26 de agosto.

 (Arquivo Pessoal)

Genir Pereira,

47 anos

Genir foi vista pela última vez em 2 de junho, em uma parada de ônibus de Planaltina. Ela também entrou na Blazer de Marinésio depois de ele oferecer uma carona. O cozinheiro a levou a um matagal entre Planaltina e Paranoá, onde a matou. Ele roubou R$ 750 e o telefone celular. O corpo de Genir foi localizado em 12 de junho.

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