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Pedintes acampam em áreas verdes de Brasília na esperança de receber doações

Pedintes acampam em áreas verdes de Brasília na esperança de receber doaçõesFoto:

Pedintes ocupam o Plano

Por Erika Manhatys* E Thiago Melo* - Correio Braziliensse - 22/12/2018 - 08:44:06

Pedintes cercam carro que parou para deixar doações para o grupo de acampados em via de acesso à UnB

Vindos principalmente de Goiás, Minas e Bahia, migrantes acampam em áreas verdes de Brasília na esperança de receber doações. Barracas improvisadas se concentram no Eixinho Norte, na L2 Norte e na L4 Norte.

Família expõe lista de pedidos em placa fixada ao lado de um Papai Noel e uma árvore de Natal improvisados
Família expõe lista de pedidos em placa fixada ao lado de um Papai Noel e uma árvore de Natal improvisados

Onúmero de pedintes instalados nas margens das vias e nas áreas verdes das quadradas do Plano Piloto aumenta todo dezembro, em função do período de festas, quando mais gente aposta na sensibilidade dos brasilienses para receber doações. Mas a percepção é que, este ano, o número de pessoas acampadas é ainda maior, segundo a Secretaria do Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos (Sedestmidh).

A pasta diz haver cerca de 3 mil pessoas em situação de rua no Distrito Federal. Há um ano eram 2,5 mil, um aumento de 20%. E o número pode ser muito maior: organizações que trabalham diretamente com essas pessoas garantem que na capital há mais de 6 mil pessoas nessa condição. Número que aumenta no fim do ano, com a chegada, na maioria, de moradores de cidades goianas, mineiras e baianas mais próximas de Brasília. Uma gente que migra temporariamente atrás, especialmente, de dinheiro, comida e presentes para a família.

Nem todos passam o dia nas barracas improvisadas. Muitos circulam pelas quadras comerciais do Plano, pedindo ajuda. Homens tentam bicos como flanelinha e lavador de carro. As quadras 402 e 412 Sul e o Setor Comercial Sul (SCS) são algumas das regiões preferidas dos pedintes. Os acampamentos estão em maior número ao longo do Eixinho Norte, na L2 Norte e na L4 Norte. Passando pelo Eixinho, da 110 à 114 Norte, é possível ver a aglomeração de barracas. Em algumas, há famílias inteiras acampadas. Na margem da via há placas com pedidos de doações. Quem transita pela 601 Norte, na via que dá acesso à Universidade de Brasília (UnB), constata cenário semelhante. Em frente a uma das barracas há até uma árvore de Natal feita de garrafas pet. Na altura da Ponte do Bragueto e em alguns trechos da L4 Norte, também há diversas barracas improvisadas.

Railanderson Ferreira, 27 anos, que veio de Irecê na Bahia, ocupa um dos barracos à beira da L4 Norte. Ele, que diz sofrer preconceito diariamente, pretende receber doações de todos os gêneros. “Muitas pessoas nos julgam, acham que somos ladrões, usuários de drogas, mas não sabem de onde viemos e o que já passamos”, reclama. Judite Rodrigues, 70, veio de Remanso, que veio da Bahia para cuidar de um filho acidentado e ainda não conseguiu arrecadar dinheiro para voltar à terra natal, também está acampada na L4. “Tem um rapaz que trabalha aqui perto e que toda vez que passa por aqui grita ‘vai trabalhar bando de vagabundo’”, conta a mulher.

Contando com doações, muitos dos migrantes vem com toda a família e passam o mês em barracas improvisadas, como esta, à margem da L4 Norte
Contando com doações, muitos dos migrantes vem com toda a família e passam o mês em barracas improvisadas, como esta, à margem da L4 Norte

Convivência

Lorena Costa, 21 anos, que trabalha como vendedora no SCS, se diz comovida com quem pede doações e, sempre que pode, ajuda. “Não tenho medo, ajudo quando possível. Os pedintes não me incomodam, o que me assusta é a abordagem dos seguranças com essas pessoas. Precisamos entender que se não eles não fazem mal a ninguém, deixemos que vivam em paz. A rua é de todos e eles têm direito de ir e vir”, defende Lorena.

Também vendedora, Gabriela Luciano, 22, concorda com a colega de profissão e admite haver um preconceito generalizado contra as pessoas em situação de rua. “Eu vejo gente com debilidade física ou mental, que só precisa da esmola para se alimentar. Inevitavelmente, temos preconceito e tomamos atitudes como a de guardar o celular quando eles se aproximam”, assume.

Morador da 412 Sul, Auros Souza, 77, nota a presença de famílias de pedintes no comércio que frequenta. “Só neste mês, fui abordado duas vezes por pessoas que não são da região. Nota-se que não são usuários de drogas e álcool. Eles não pedem dinheiro, querem que paguemos comida, pedem itens básicos, como arroz”, conta o aposentado.

A Sedestmidh afirma monitorar as áreas invadidas e promover orientação sobre as opções de segurança social que os desabrigados possuem. Por meio de nota, a secretaria recomendou que “não sejam feitas doações, pois isso estimula esse tipo de situação de rua. As doações, para quem desejar, devem ser feitas em instituições de caridade do DF ou das próprias cidades de onde eles vêm”.

*Estagiários sob supervisão de Renato Alves

"Muitas pessoas nos julgam, acham que somos ladrões, usuários de drogas, mas não sabem de onde viemos e o que já passamos”

Railanderson Ferreira, baiano

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