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Piñera sob pressão. Mulheres saem em marcha silenciosa para homenagear os 23 mortos

Piñera sob pressão. Mulheres saem em marcha silenciosa para homenagear os 23 mortosFoto: Correio Braziliense

Apesar do anúncio de pacto social e de mudanças no gabinete, protestos contra o presidente e a repressão se mantêm. Mulheres saem em marcha silenciosa para homenagear os 23 mortos nas manifestações, em Santiago. Ativistas falam ao Correio

Rodrigo Craveiro - Correio Braziliense - 02/11/2019 - 18:30:13

Braços estendidos para o alto, punhos cerrados, depois, palmas abertas e silêncio. À frente, uma coluna de carabineiros (agentes da polícia ostensiva chilena) que assistiu, impassiva, ao protesto de um grupo de mulheres vestidas de preto, em Santiago do Chile. A “Marcha do Luto” foi organizada pela internet em memória dos 23 manifestantes mortos pela repressão desde 18 de outubro. Em 11 de setembro de 1984, mulheres se posicionaram nas escadarias da Catedral San Marcos, na cidade de Arica, para denunciar as violações dos direitos humanos durante a ditadura. Antes de repetir o gesto, 35 anos depois, a fotógrafa Mariela Rojas, 41 anos, posou para um retrato no qual segurava uma flor conhecida como copo-de-leite, em frente a um muro onde se lia “Piñera assassino” — alusão ao presidente Sebastián Piñera.

 (Martin Bernetti/AFP)


“Foi um ritual mortuário, durante o qual expressamos nosso respeito e nossa dor. O silêncio de hoje (ontem) foi esmagador e emotivo. Ainda doem em nós os torturados, os mortos e os desaparecidos da ditadura de Augusto Pinochet. O presidente Piñera se atreveu a colocar os militares nas ruas e a decretar toque de recolher na democracia, nos traumatizando. Estamos consternados. Estamos em 2019 e voltam a haver detenções ilegais e mortos”, desabafou ao Correio.

Mariela Rojas (D) antes da
Mariela Rojas (D) antes da "Marcha do Luto": copo-de-leite nas mãos


Segundo Mariela, mulheres de todas as idades caminharam por cerca de dois quilômetros em completo silêncio até o Palácio de La Moneda, a sede do Executivo e o local onde o presidente Salvador Allende cometeu suicídio, em meio ao golpe que alçou Pinochet no poder, em 11 de setembro de 1973. “Ali, nos sentamos e cantamos El derecho de vivir em paz (de Victor Jara)”, relatou. “Nós exigimos uma nova Constituição. É indigno termos uma Carta Magna redigida em uma ditadura militar que proteja os donos do país e seus roubos. Ninguém deseja voltar à normalidade, pois a normalidade era o problema”, acrescentou, ao admitir que o governo de Piñera está em xeque.

Manifestantes reagem a jato d'água disparado por blindado, em Santiago (Martin Bernetti/AFP)
Manifestantes reagem a jato d'água disparado por blindado, em Santiago


Confrontos
Durante o protesto, manifestantes e forças de segurança voltaram a entrar em choque. Tanquetas (carros blindados) dos carabineiros dispararam canhões d´agua e bombas de gás lacrimogêneo contra os civis. Com os rostos e os corpos pintados, simulando ferimentos, e as mãos amarradas, ativistas se “transformaram” em vítimas de tortura. “E em nós, nossos mortos, para que ninguém seja deixado para trás”, afirmava uma imensa faixa colocada em uma parada de ônibus, usada como cenário para a encenação.


Ao longo do dia, a hasghtag #LaMarchaMasGrandeDeTodas, no Twitter, antecipava para as 17h um protesto no qual se esperava reunir 1 milhão de pessoas na Plaza Itália. A psicóloga Carla (não quis ter o sobrenome revelado), 34 anos, aproveitou o ambiente familiar e decidiu levar o filho, de 9, para protestar. Ela acusa o presidente de não compreender a necessidade de mudanças profundas para pôr fim às manifestações. “Nós precisamos de aposentadorias justas e que os crimes de conluio das empresas sejam punidos com prisão. Também queremos uma nova Constituição, pois a atual foi criada nos tempos da ditadura e beneficiava poucas pessoas. E que deixem de violar os direitos humanos, pois mais de 20 chilenos morreram desde o começo dos protestos”, disse à reportagem. Carla adverte que, caso Piñera não escute as demandas da população, sua liderança ficará em xeque. “O que as pessoas mais gritaram hoje (ontem) foi que o presidente deve renunciar.”

Professor de estudos internacionais da Universidad de Chile, Miguel Ángel López lembrou ao Correio que o Partido Comunista do Chile e a Frente Ampla entraram com uma petição na qual exigem uma espécie de impeachment de Piñera. “A elite política não vê com bons olhos uma destituição por receio do vazio de poder. De fato, vemos críticas de que o presidente não atuou com celeridade suficiente nem tampouco possui um plano de resposta para fazer frente às demandas sociais”, afirmou. López descarta uma renúncia de Piñera, por entender que o egocentrismo do mandatário o impede de se tornar o único presidente do Chile a deixar o cargo por vontade própria no último século.


Palavra de especialista

Chance
ao diálogo


“As marchas se mantêm, apesar de não serem tão grandes como as que ocorreram em 25 de outubro passado. Houve a convocação de 1 milhão de pessoas. Apesar de não terem reunido esse número de chilenos, os protestos foram registrados em diferentes cidades. Na semana passada, existiu a tentativa de se organizar marchas especiais para distintos grupos, mas os protestos foram generalizados. O governo procurou responder com a mudança de gabinete, além de suspender a cúpula da Apec (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico) e da COP-25 (sobre o clima). As pessoas começaram a organizar os chamados ‘cabildos’, tipos de assembleias, sem organização do Estado, a fim de levantar ideias e repassá-las às autoridades. Elas são realizadas em âmbito comunitário, inclusive dentro de clubes de futebol e em universidades. Espera-se uma resposta do governo de Sebastián Piñera que seja capaz de chamar à renovação do pacto social. Não está descartada a redação de uma nova Constituição, desde que os protestos continuem pacíficos.”

 (Arquivo pessoal)


Miguel Ángel López, professor de estudos internacionais da Universidad de Chile


Revolta e dor

Sem limite de idade

 (Roland Tandaypan Sanchez/Divulgação)


A imagem foi registrada pelo fotógrafo independente chileno Roland Tandaypan Sanchez, 28 anos, na última quarta-feira, na Plaza Itália, centro de Santiago. Uma idosa com um lenço vermelho cobrindo o rosto, usando vestido rosa e calçando um par de tênis segura um pedaço de madeira diante da nuvem de gás lacimogêneo e golpeia um blindado das forças de segurança. “Essa senhora simplesmente apareceu do nada e começou a protestar. Ela apenas exigia seus direitos. Gritava por uma aposentadoria mais farta e por uma melhor atenção à saúde nos hospitais, à medida que as tanquetas passavam, reprimindo os manifestantes. Depois de fazer as fotos, não a vi mais”, contou Roland ao Correio. Para o fotógrafo, a imagem trasmite a mensagem de “lutar pela dignidade”. “Aqui no Chile, causa grande impacto quando uma idosa sai às ruas para reclamar os seus direitos”, explicou.



A arte como resistência

 (Twitter/Reprodução)


“Não se renda. Por favor, não se renda”, pediu no Facebook o chileno Claudio Rocco, ilustrador do jornal La Tercera, em Valparaíso. O apelo acompanhava um desenho que causou impacto em muitos de seus compatriotas: um garoto segurando a bandeira do Chile estilizada com a cor preta. Um detalhe chama a atenção. O olho direito do menino está coberto por um curativo. Outra imagem, de autoria anônima, mostra um estudante arremessando um livro contra policiais.

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