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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 18 de janeiro de 2022

Planalto vê provocação de Mandetta cobrando ‘fala única’ do governo

Planalto vê provocação de Mandetta cobrando ‘fala única’ do governoFoto: Gastão Guedes - Palácio do Planalto

Ministro da Saúde criticou ‘dubiedade’ do governo nas orientações sobre novo coronavírus

Estadão Conteúdo - 13/04/2020 - 00:21:25

A entrevista do ministro da Saúde , Luiz Henrique Mandetta ao “Fantástico”, da Rede Globo, na noite deste domingo, 12, foi encarada por interlocutores e integrantes do Palácio do Planalto como uma provocação ao presidente Jair Bolsonaro , com quem uma trava uma guerra pública sobre medidas de enfrentamento ao novo coronavírus . Na avaliação inicial deles, Mandetta não apenas voltou a contrariar as opiniões do presidente, mas a fala à emissora que o presidente costuma classificar como “inimiga” também foi vista como uma afronta.

Outro ponto que não passou despercebido foi o fato de a entrevista ter sido gravada no Palácio das Esmeraldas, na sede do governo de Goiás. O governador Ronaldo Caiado (DEM) rompeu no mês passado com o presidente, após Bolsonaro se referir à covid-19 como uma “gripezinha” e ter incentivado as pessoas voltarem à “normalidade” para evitar um colapso econômico.

No sábado, 12, Mandetta e Caiado condenaram a atitude de Bolsonaro, que após visitar ao lado deles a construção de um hospital de campanha em Águas Lindas (GO), foi a encontro de apoiadores , cumprimentou pessoas e tirou a máscara, que usava inicialmente. Depois que Bolsonaro voltou para Brasília, o ministro e governador seguiram juntos para Goiânia.

Os desdobramentos sobre a entrevista de Mandetta são esperados para o início da manhã desta segunda-feira. Um integrante do alto escalão do governo, que acompanha de perto o desentendimento, considerou a entrevista “menos grave” do que se esperava. Ponderou, no entanto, que é preciso aguardar a reação de Bolsonaro. Na crise do novo coronavírus, o presidente tem se aconselhado com os três filhos mais velhos. Principalmente, com o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), que viajou com o presidente a Águas Lindas.

Dubiedade. Na avaliação de políticos, Mandetta usou a entrevista para marcar posição e mandar recado que não vai ceder. O ministro cobrou uma unificação do discurso para orientar a população. “Eu espero que essa validação dos diferentes modelos de enfrentamento dessa situação possa ser comum e que a gente possa ter uma fala única, uma fala unificada. Isso leva para o brasileiro uma dubiedade. Ele não sabe se escuta o ministro da Saúde, o presidente, quem é que ele escuta”, disse Mandetta.

Mandetta também criticou o comportamento de pessoas que têm furado o isolamento social. Citou como exemplo uma ida a padaria, exatamente como o presidente fez na semana passada, acompanhado do ministro da Infraestrutra, Tarcísio de Freitas, e o filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro. “Quando você vê as pessoas entrando em padaria, supermercado, fazendo fila, piquenique isso é claramente uma coisa equivocada”, avaliou o ministro.

O ministro da Saúde ainda citou as notícias falsas que circulam na internet, dizendo que o coronavírus é uma invenção. Em grupos de WhatsApp de bolsonaristas e em perfis nas redes sociais de apoio ao presidente, as teorias negando o vírus e minimizando a doença são populares. “Tem muita gente que gosta da internet. Que vê que é fake news dizendo que é invenção de países para ganhar vantagem econômica ou vê complô mundial.”

Os dados atualizados até este domingo apontam 1.223 mortes no País em decorrência da covid-19. No mundo, o total de vítimas já ultrapassou 114 mil.

Em outro contraponto ao presidente, Mandetta alertou que o período mais preocupante da crise da covid-19 ainda não chegou. Neste domingo, em uma live com lideranças religiosas, Bolsonaro disse que “o coronavírus está começando a ir embora”.

“No mês de maio, junho, teremos os dias muito duros. Dias em que seremos tachados. ‘Ah, vocês não fizeram o que tinham de fazer, ‘deviam ser mais duros’, ‘menos duros, porque a economia está assim’. Sempre vai haver os engenheiros de obra pronta. Serão dois, três meses de muitos questionamentos das práticas”, disse Mandetta.

Bolsonaro defende um isolamento seletivo, restrito para idosos e pessoas dos grupos de risco, como forma de reduzir o impacto da pandemia sobre a economia. O presidente tem 65 anos, mas não tem respeitado o distanciamento social recomendado pelas autoridades sanitárias.

Comunicação. A entrevista à Globo foi uma decisão individual de Mandetta. No final de março, o Planalto resolveu unificar a comunicação sobre a crise do coronavírus. Com isso, as entrevistas de todos os ministros passaram a ser concedidas na sede do Executivo. Na semana passada, diante de rumores de uma demissão e após uma reunião tensa com o presidente, Mandetta também decidiu dar uma entrevista no Ministério da Saúde sem o conhecimento do Planalto.

Na ocasião, admitiu que seus auxiliares na pasta chegaram a limpar suas gavetas. Em um pronunciamento à imprensa, Mandetta pediu "paz" para trabalhar e reclamou de críticas que, em sua visão, criam dificuldades para o seu trabalho. A interlocutores, no entanto, o ministro tem confidenciado que gostaria que Bolsonaro o demitisse, mas mantém a posição de não tomar a iniciativa de deixar o governo com receio de ficar com o ônus de ter abandonado "o barco" no momento de crise.

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