×
ContextoExato

Contexto Exato

Brasil - Brasília - Distrito Federal - 26 de outubro de 2021

Qual o peso da pandemia para os profissionais da saúde?

Qual o peso da pandemia para os profissionais da saúde?Foto: Tatiana Fortes

Pandemia elevou demanda por profissionais nos diversos locais de atendimento e uma suposta "valorização salarial"

Francisco Barbosa - Brasil De Fato | Fortaleza (ce) - 17/01/2021 - 11:02:19

“Vizinhos não queriam usar o mesmo elevador”, relata o médico generalista João Rodrigues.

Os profissionais de saúde estão na linha de frente no combate e na prevenção ao coronavírus. Mas você já se perguntou como toda essa nova condição à qual estamos sujeitos afetou esses profissionais? Como é o dia a dia desses médicos e enfermeiras que lidam constantemente com pacientes que estão com covid-19?

João Rodrigues é médico generalista, e tem trabalhado durante a pandemia de covid-19 em Unidade Básica de Saúde e em Unidade de Pronto Atendimento. Ele afirma ter notado uma demanda crescente por profissionais nos diversos locais de atendimento, como postos, Hospitais, UPAs. Soma-se a isso uma "valorização salarial" que, segundo ele, esconde, na verdade, a sobrecarga de trabalho, visto que diversos profissionais precisaram se ausentar por apresentarem sintomas.

:: Sem reajuste, trabalhadores da saúde no RS realizam novo ato "Palmas não Bastam" ::

Impactos psicológicos

Além disso, uma grande pressão psicológica de estar em unidades com pessoas morrendo com muito mais frequência do que o habitual. “Senti que, inicialmente, o fluxo de pacientes no geral diminuiu — todos em casa temerosos pela pandemia, as empresas fechadas, enfim, quaisquer motivos. Porém hoje mudou bastante. Desde o início do ano — após Natal e Reveillon —, observo uma explosão no número de atendimentos, agora devido ao retorno das atividades comerciais associado ao grande número de paciente sintomáticos respiratórios. O estresse da quantidade de pacientes graves mudou para o estresse da quantidade de pacientes. Porém, atualmente sem a anterior valorização salarial”, avalia Rodrigues.

João também explica que o fato de ser profissional de saúde, apesar de visto como algo positivo na mídia, tornou-se quase um estigma social no prédio em que mora, fato que também é observado por outros colegas dele. “Vizinhos não queriam usar o mesmo elevador, por exemplo. A vida mudou bastante para além do trabalho também, mas como é algo que afetou a todo mundo, acho que esse ponto de vista vale mais a pena iluminar, da minha parte”.

Questionado se há algum acompanhamento especial voltado para os profissionais da saúde, João afirma que não há um acompanhamento especial o que existe é rede de contato e mais acesso aos mesmos serviços oferecidos ao restante da população.

:: "Estamos esgotados", desabafam profissionais da saúde ::

Saúde mental

Já Francisca Luciana Almeida Colares, médica residente de Medicina de Família e Comunidade, explica que, no período do primeiro pico, presenciou algumas iniciativas em estabelecimentos de saúde específicos referentes aos cuidados em saúde mental, como disponibilização de psicólogos para profissionais envolvidos no cuidado a pacientes com covid-19 que vieram a desenvolver transtornos ou sofrimento mental durante aquele período.

Ela também afirma que havia o serviço de teleatendimento disponibilizado pelo Governo do Estado do Ceará, em que o profissional poderia entrar em contato por telefone ou mensagem e conversar com psicólogos e ser direcionado de acordo com o caso.

“Porém, creio que com o parcial controle da pandemia aqui no estado nos últimos meses, muitos serviços assim foram desativados, o que preocupa, pois estamos enfrentando novamente aumento do número de casos e internações”, pondera.

Cuidados clínicos

Já em relação aos cuidados clínicos com profissionais de saúde que vieram adoecer por covid-19 por exemplo, ela diz que não se recorda de um acompanhamento específico, mas acompanhamento pelo SUS ou por planos de saúde de maneira habitual, como os outros pacientes.

Uma técnica de enfermagem, que preferiu não ter seu nome divulgado nessa matéria, desabava sobre a situação dos profissionais da saúde. Ela afirma que as pessoas acham que agora, por conta da pandemia, é que os profissionais de saúde estão trabalhando em meio a dificuldade, mas ela afirma que isso sempre foi assim.

“A diferença é que agora mais pessoas precisam de atendimento, mas as dificuldades sempre existiram: Falta de respirador, vaga de UTI, medicamentos, profissionais com escalas desumanas, e por aí vai. Pessoas morrem todos os dias por falta de atendimento, com a covid-19 só fez aumentar”, ressalta.

O que falta, de acordo com ela, são políticas publicas para a área da saúde e educação e uma real fiscalização sobre os proventos que os governantes recebem para serem usado em prol da população.

:: Trabalhadores da Saúde cobram testagem para covid-19 e fim das terceirizações ::

Isolamento

Sobre a realização do isolamento/distanciamento social por parte dos profissionais de saúde, Luciana diz que é bem diversificada. “Percebo colegas que seguem com disciplina as regras de distanciamento, outros nem tanto e outros quase nada”, avalia.

De acordo com ela, alguns profissionais confiam que já foram contaminados e estão imunes, quando não se trata somente disso, mas de regras que levam em conta a saúde da comunidade toda, não do indivíduo.

“Nos primeiros meses, a aderência ao distanciamento era maior e mais disciplinada, com a diminuição de casos e com o passar do tempo (manter as regras é cansativo, apesar de ter se tornado mais corriqueiro) percebo algum grau de relaxamento mesmo entre profissionais”, afirma.

João diz que, inicialmente, havia uma angústia, um medo e uma vontade de ficar em casa junto de todo mundo. Isso foi mudando aos poucos, principalmente porque praticamente todos que trabalham na linha de frente tiveram a doença, dando uma falsa sensação de segurança, até que há poucos meses foi descrita a reinfecção.

“Hoje vejo profissionais ainda cuidadosos, mas vejo também profissionais que estão viajando, fazendo aglomerações, indo a festas clandestinas. Acompanho isso diariamente pelas redes sociais”, aponta.

Para ele, essas ações dão um misto de aflição e medo de ver essa postura, mas ele afirma que deixou de fazer campanha nas redes justamente porque há algumas semanas passou a frequentar restaurantes, visitar parentes, mas sempre evitando grandes aglomerações.

Profissionais da saúde têm enfrentado os impactos psicológicos provocados pelo acompanhmento cotidiano da crise sanitária / Foto: Sayonara Moreno/Agência Brasil

Atendimento a pacientes com covid-19

Sobre os atendimentos para os pacientes com suspeitas de covid-19, Luciana diz que os procedimentos dependem da gravidade dos sintomas. De acordo com ela, pessoas que procuram as unidades de saúde com sintomas leves e que não pertencem aos grupos sabidamente de risco são orientadas a se manterem em isolamento, hidratando-se, alimentando-se e repousando em domicílio. Podem ser feitos os testes confirmatórios: swab nasal ou teste rápido, de acordo com a quantidade de dias de sintomas.

“Orienta-se manter vigilância sobre os sinais vitais: temperatura, frequência cardíaca e respiratória, saturação de oxigênio e observação ao surgimento de sintomas como tosse persistente, falta de ar, dor no peito, fraqueza intensa ou piora dos sintomas após cinco dias de doença”, explica.

De acordo com ela, essa vigilância pode ser feita pelo próprio paciente e familiares, por profissionais de saúde em casa, ou remotamente por teleatendimento. “Essas pessoas devem ser orientadas a procurar novamente atendimento médico na unidade de saúde se houver a presença de qualquer dessas alterações para reavaliação presencial e realização de exames laboratoriais ou de imagem e tratamento em unidade hospitalar”, orienta.

Luciana explica que, se necessário, faz-se suplementação de oxigênio externa ou invasiva através de ventilação mecânica, suporte clínico geral e outras medicações específicas para os diferentes distúrbios orgânicos com os quais essas pessoas possam evoluir no decorrer da doença.

“É importante também as orientações quanto à necessidade de observação para presença de sintomas e isolamento de pessoas que habitam no mesmo domicílio para que se mantenham em isolamento e evitem dar continuidade à cadeia de transmissão”, finaliza.

:: Sem leitos públicos, população de Manaus improvisa tratamento contra covid em casa ::

O estado do Ceará já tem estoque de 2 milhões de seringas e agulhas e há previsão de que outras 6 milhões cheguem ainda na primeira quinzena de janeiro / Foto: Instituto Butantan

Vacina

Luciana diz que a expectativa sobre a vacina é que ela seja mais um aliado no controle e erradicação da pandemia, junto com as medidas de higiene e distanciamento, que deveriam estar sendo encorajadas e praticadas de maneira intensiva.

“Creio que, no geral, os profissionais esperam que o país inicie o quanto antes a vacinação e que seja eficaz, como forma de garantir o controle das infecções e mortes pela covid-19. Somos um país treinado em vacinação rápida e em massa, com um programa vacinal mundialmente reconhecido, temos profissionais na ponta do sistema de saúde habituados a campanhas de vacinação anualmente, temos vacinas promissoras já sendo disponibilizadas, só falta os chefes políticos iniciarem e intensificarem os esforços para mobilização de recursos e planejamento da vacinação”, avalia.

Para ela, a vacinação é realmente uma esperança para controle da pandemia.

:: Plano de vacinação “copiado” da Europa ignora desigualdade brasileira, critica médico ::

Fonte: BdF Ceará

Edição: Camila Maciel e Monyse Ravena

Comentários para "Qual o peso da pandemia para os profissionais da saúde?":

Deixe aqui seu comentário

Preencha os campos abaixo:
obrigatório
obrigatório
Governador do DF prevê desobrigar uso de máscara em ambientes abertos em novembro

Governador do DF prevê desobrigar uso de máscara em ambientes abertos em novembro

O número de vacinados com a 2ª dose ou dose única havia alcançado a taxa de 59,96% da população acima de 12 anos até hoje. Um total de 86,84% tomou a 1ª dose da imunização contra a covid.

Cartórios passam a receber denúncias de violência doméstica

Cartórios passam a receber denúncias de violência doméstica

Campanha Sinal Vermelho auxiliará mulheres de modo discreto e sigiloso

Projeto ‘Desapega DF’ recolhe doações de servidores

Projeto ‘Desapega DF’ recolhe doações de servidores

Peças de vestuário estão entre os itens requisitados para doação

Prorrogado o período de matrícula na rede pública de ensino do DF

Prorrogado o período de matrícula na rede pública de ensino do DF

Escola Parque da 308 Sul, no Plano Piloto.

Mulheres fingem pedir comida para serem resgatadas no DF

Mulheres fingem pedir comida para serem resgatadas no DF

PMs passam por treinamento para reconhecer solicitações de ajuda

CPI que investigará sonegação de bancos no DF tem composição definida

CPI que investigará sonegação de bancos no DF tem composição definida

O autor do requerimento para dar início às investigações, deputado Delmasso, espera resultados similares aos obtido por CPI paulistana que "colocou de volta nos cofres públicos cerca de R$ 3 bilhões”

Ativista por moradia popular denuncia perseguição em Santa Maria, no DF

Ativista por moradia popular denuncia perseguição em Santa Maria, no DF

Ativista Mona Lisa, do Coletivo Mais de Nós, denuncia ter sofrido perseguição após apoiar luta por moradia popular

Estudantes cobram da Capes pagamento de bolsas

Estudantes cobram da Capes pagamento de bolsas

UNE protocolou um ofício cobrando uma urgente reunião com a presidência da CAPES

Com autorização da Aneel, conta de luz no DF terá reajuste de 11,6%

Com autorização da Aneel, conta de luz no DF terá reajuste de 11,6%

A tarifa residencial no DF, que ocupava o 51º lugar do ranking nacional sendo uma das mais baixas do país, passa a ocupar a 36º posição.

Biotic sedia lançamento do programa ‘Centelha’ no DF

Biotic sedia lançamento do programa ‘Centelha’ no DF

Presente à cerimônia de lançamento, o vice-governador Paco Britto assegurou que o Centelha será um programa-modelo no DF

Sindicato dos Professores do DF critica possibilidade de retorno 100% presencial das aulas

Sindicato dos Professores do DF critica possibilidade de retorno 100% presencial das aulas

Sindicato aponta que 136 escolas públicas no DF registraram casos de contaminação por covid-19. Fotos: Acácio Pinheiro/Agência Brasília