×
ContextoExato

Contexto Exato

Brasil - Brasília - Distrito Federal - 28 de janeiro de 2022

Quase dois terços das favelas no Brasil estão a menos de dois quilômetros

Quase dois terços das favelas no Brasil estão a menos de dois quilômetrosFoto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Conhecido como favela, aglomerado subnormal é ocupação irregular

Por Ana Cristina Campos - Agência Brasil - Rio De Janeiro - 19/05/2020 - 11:45:51

O país tem quase dois terços (64,93%) das comunidades e ocupações irregulares localizadas a menos de dois quilômetros de distância de hospitais. A maioria dessas localidades (79,53%) também está próxima, a menos de um quilômetro, de unidades básicas de saúde.

Os dados, estimados para o ano de 2019, têm como base o levantamento Aglomerados Subnormais: Classificação preliminar e informações de saúde para o enfrentamento à Covid-19, divulgado hoje (19) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Rio de Janeiro.

Segundo o IBGE, conhecidos como favelas, palafitas, entre outros, os aglomerados subnormais são formas de ocupação irregular de terrenos públicos ou privados, caracterizados por um padrão urbanístico irregular, carência de serviços públicos essenciais e localização em áreas que apresentam restrições à ocupação. As populações dessas comunidades vivem sob condições socioeconômicas, de saneamento e de moradias precárias, diz o instituto.

As informações, produzidas para o próximo Censo Demográfico, adiado para 2021 em função da pandemia, foram cruzadas com o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde, do Ministério da Saúde, e estão disponíveis para consulta em mapas interativos no site.

“Antecipamos a divulgação desses dados para mostrar qual é a situação dos aglomerados subnormais em municípios e estados, já que nessas localidades a população tem maior suscetibilidade ao contágio pela doença provocada pelo novo coronavírus, devido à grande densidade habitacional”, disse, em nota, o gerente de Regionalização e Classificação Territorial do IBGE, Maikon Novaes.

Números evidenciam realidade

De acordo com a estimativa, em 2019 havia 5.127.747 milhões de domicílios ocupados em 13.151 mil aglomerados subnormais no país. Essas comunidades estavam localizadas em 734 municípios, em todos os estados do país, incluindo o Distrito Federal. Em 2010, havia 3.224.529 domicílios em 6.329 aglomerados subnormais, em 323 cidades, segundo o último Censo Demográfico.

Segundo Novaes, a estimativa visa a subsidiar a operação do próximo Censo. Dessa forma, é necessário aguardar os resultados definitivos para se fazer comparações com 2010. “Estamos oferecendo uma informação sobre ordem de grandeza de cada área, de modo a melhor distribuir o trabalho entre os recenseadores. Somente com o próximo Censo, quando todos os domicílios serão visitados, é que teremos um dado assertivo e comparável”, afirmou.

Conforme o levantamento, dos 13.151 mil aglomerados subnormais do país, somente 827 (6,29%) estavam a mais de cinco quilômetros de unidades de saúde com suporte de observação e internação. O restante fica bem mais próximo de um hospital.

O coordenador de Geografia e Meio Ambiente do IBGE, Cláudio Stenner, destaca, no entanto, que a pesquisa não investigou se as unidades de saúde próximas de aglomerados têm estrutura para atendimentos relacionados à covid-19.

“A grande maioria dos aglomerados subnormais está próxima de unidades de saúde. Ou seja, o problema não é distância das unidades de saúde, mas, talvez, a falta de estrutura nessas unidades. Não sabemos detalhes dessas estruturas”, disse.

Entre os estados, o Amazonas (34,59%) tem a maior proporção de domicílios em ocupações irregulares. Em seguida, figuram o Espírito Santo (26,1%), Amapá (21,58%), Pará (19,68%) e o Rio de Janeiro (12,63%). Em São Paulo, 7,09% dos domicílios estão nessas localidades. O estado mais populoso do país tem pouco mais de 1 milhão de casas em aglomerados subnormais. O estado com a menor proporção é Mato Grosso do Sul (0,74%).

Proliferação de ocupações irregulares

De acordo com o IBGE, embora a proliferação de ocupações irregulares seja associada, geralmente, a cidades maiores, como Rio de Janeiro e São Paulo, o levantamento mostra que essas comunidades estão localizadas em grande proporção em cidades pequenas e capitais do Norte e Nordeste do país.

O município de Vitória do Jari, no Amapá, tem 74% dos domicílios localizados em aglomerados subnormais. Na cidade vivem 15,9 mil pessoas. Belém e Manaus têm mais da metade dos domicílios ocupados em ocupações irregulares, 55,5% e 53,3%, respectivamente. Em seguida, vem Salvador, com 41,8% das habitações em comunidades carentes.

“Em São Paulo e no Rio de Janeiro, as capitais mais populosas do país, a proporção de domicílios em aglomerados subnormais não passa de 20%, mas a quantidade de imóveis nessas comunidades é a maior entre todas as demais capitais: no Rio são 453.571 domicílios em aglomerados subnormais, e em São Paulo, 529.921. A capital paulista tem quase o dobro da população da capital fluminense”, informa o IBGE.

Comunidade de Paraisópolis.

Paraisópolis, em São Paulo, tem 19.262 domicílios em ocupações irregulares (Arquivo/Rovena Rosa/Agência Brasil)

A Rocinha, no Rio, é o maior aglomerado subnormal do país, com 25.742 domicílios. Em seguida, vêm a comunidade do Sol Nascente, no Distrito Federal, com 25.441 casas; Rio das Pedras, também no Rio, com 22.509; e Paraisópolis, em São Paulo, com 19.262 domicílios em ocupações irregulares.

O gerente-geral de Geografia do IBGE, Cayo Franco, destaca que esse levantamento não apresenta toda a dimensão da vulnerabilidade no país, mas boa parte dela. “Há bairros pobres que não foram classificados como aglomerados subnormais, seja porque os moradores possuem a posse da terra ou alguns serviços de saúde e saneamento. O que apresentamos aqui é uma dimensão da vulnerabilidade, no caso, os mais vulneráveis dos vulneráveis”, afirmou.

Edição: Kleber Sampaio


Comentários para "Quase dois terços das favelas no Brasil estão a menos de dois quilômetros":

Deixe aqui seu comentário

Preencha os campos abaixo:
obrigatório
obrigatório
Orquestra formada por músicos com doenças mentais luta contra estigmas

Orquestra formada por músicos com doenças mentais luta contra estigmas

Quase cem dos músicos regionais farão um concerto intitulado Stigma-Free at Symphony Hall (algo como Sem Estigma no Symphony Hall), às 15h deste domingo, no horário local, no Boston Symphony Hall.

TJSP mantém condenação de dois homens por racismo e injúria contra Maju Coutinho

TJSP mantém condenação de dois homens por racismo e injúria contra Maju Coutinho

Depois, ainda segundo a Promotoria, os réus se reuniam para derrubar páginas do Facebook de pessoas consideradas por eles 'inimigas'

Entenda como o preconceito impede o desenvolvimento das empresas

Entenda como o preconceito impede o desenvolvimento das empresas

Empresas que promovem a diversidade e inclusão se destacam no mercado

"Somos todos seres humanos incompletos e imperfeitos", diz escritor LGBT

Saulo Sisnando levanta a bandeira de que o amor é único e universal

Vacinação infantil: Cada segundo conta, toda vida importa

Vacinação infantil: Cada segundo conta, toda vida importa

Para Bolsonaro e Queiroga, tem mais valor a opinião de leigos do que o conhecimento da Anvisa e de sociedades científicas do mundo inteiro.

Minas Gerais implementa carteira de identidade do autista

Minas Gerais implementa carteira de identidade do autista

Estado usa assinatura eletrônica Gov.br para emissão do documento

União do mesmo gênero cresce e fica mais jovem

União do mesmo gênero cresce e fica mais jovem

A maior aceitação das famílias aos LGBTI+, embora o preconceito ainda seja um problema grave, também está por trás do rejuvenescimento dos noivos

A luta antirracista de Aranha: De goleiro chamado de macaco a escritor

A luta antirracista de Aranha: De goleiro chamado de macaco a escritor

A palavra ganhou um sentido ainda mais potente e atual no livro

Vídeo: Desigualdade em vacinas pelo mundo atrasa fim da pandemia

Vídeo: Desigualdade em vacinas pelo mundo atrasa fim da pandemia

Nações Unidas chamam atenção para desigualdade na distribuição das doses da vacina.

'A economia prateada já move R$ 1,6 trilhão por ano'

'A economia prateada já move R$ 1,6 trilhão por ano'

Apesar do crescimento, essa população não tem sido atendida de forma satisfatória, diz o diretor-superintendente do Sebrae-SP, Wilson Poit.

Operação foca em rede de extremistas que cultua racismo e homofobia

Operação foca em rede de extremistas que cultua racismo e homofobia

Os investigadores dizem ter identificado, a partir da quebra de sigilo de dados e telefônicos autorizados pela Justiça, grupos que "se autodeclaram nazistas e ultranacionalistas, associados para praticar e incitar atos criminosos".