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Que Brasil vai sobrar, se sobrar algum Brasil?

Que Brasil vai sobrar, se sobrar algum Brasil?Foto:

Nossa dignidade como país acabou. É preciso retomada econômica – o que não quer dizer reabrir o comércio. Pobres não podem pagar a conta

Anderson França - Metrópoles - 15/05/2020 - 17:11:48

Em 2008 o mundo quebrou.

A crise começou em Wall Street, por causa da bolha imobiliária.

Funcionava assim:

As imobiliárias queriam vender casas. As pessoas não tinham dinheiro. Então apareciam corretores oferecendo empréstimos imobiliários. Daí as pessoas pegavam dinheiro emprestado, compravam a casa, e pagavam o empréstimo.

Acontece que, depois de um tempo, o mercado queria vender mais casas. E os corretores ofereciam empréstimo pra qualquer um. E descobriram que oferecer empréstimo pra imigrante era um ótimo negócio. Eles assinavam qualquer contrato, sem ler.

Não precisava comprovar renda, visto, nada. Só pegar um papel, assinar, e simplesmente comprar sua casa nos Estados Unidos. Você, sem um dólar no bolso, recém chegado no país, dono de uma casa. Quem não quer isso? A Terra das Oportunidades.

Acontece que esses contratos liberavam a casa, mas não garantiam o pagamento, porque eram feitos sem qualquer garantia. Os corretores queriam mais era pegar a comissão deles na imobiliária. Uma fraude, bem brasileira, por sinal, mas Made in USA.

Um dia, eram pilhas de contratos, uma inadimplência estratosférica, e o mercado estourou. Essa era a bolha. A bolha de contratos que não valiam nada, de compradores que não tinham um centavo, mas eram donos de casas enormes.

Wall Street era a sede dos bancos que operavam isso. Bank of America, Deustch, UBS, J.P. Morgan, Lehman Brothers.

Na manhã que a notícia do crash estava acontecendo, mercados do mundo inteiro olharam pra Nova York e foi, pra muitos, a mesma sensação que tiveram ao ver os aviões no 11 de setembro. Calados, atônitos, impotentes.

Seis milhões de pessoas foram despejadas de suas casas. Cinco milhões ficaram desempregados. A crise cruzou o mar, e chegou na Grécia, Espanha, Portugal, Itália, China e mesmo no Brasil.

Foi um tipo de pandemia econômica.

Portugal levou 5 anos pra sair da crise, e teve muita gente na miséria, pelas ruas da Europa e Estados Unidos.

Na verdade, as pessoas que ficaram sem casas passaram a morar nas ruas. O governo não socorreu essas pessoas, ele socorreu os bancos.

A corda rebentou do lado mais fraco.

No lado dos pobres e imigrantes.

Sempre serão os pobres e imigrantes que vão pagar essa conta.

E ela está chegando novamente.

No Brasil, os efeitos da desaceleração da economia vão chegar aos mais pobres e moradores de periferias. Estes, porém, já vivem tão na margem, que não vão perceber tantas perdas, mas vão, certamente, ter reduzida sua expectativa de vida em anos, sua possibilidade de ascensão social e melhoria de vida. Muros invisíveis vão ser erguidos. Como uma nova Guerra Fria entre Leblon e Complexo da Maré.

Divididos pela Avenida Brasil ou Túnel Rebouças.

O abismo entre mais ricos e mais pobres vai aumentar.

Esta semana, divulguei na minha página no Facebook, a foto de uma criança que trocava máscaras por alimento, nas avenidas da Barra da Tijuca, bairro onde reside o presidente.

Várias pessoas estão ali, fazendo isso. Nossa dignidade como país, acabou.

Essas pessoas vão continuar pagando a conta, e outras pessoas vão somar a este grupo. Cada vez mais desempregados, sem chance de voltar ao mercado.

E isso não quer dizer que devemos reabrir o comércio.

Isso quer dizer que chegou a hora de a oposição criar uma pauta única em torno da retomada econômica. Levar isso ao Congresso, e governar do Legislativo pra rua. Não temos presidente. Temos um bandido. Maia tem dezenas de pedidos de abertura de impeachment, e não vota nenhum.

Precisamos, povo que não quer fechamento do STF ou Congresso, pressionar para que congressistas apresentem um plano de retomada para os próximos meses.

É de outra ordem a necessidade de tirar Bolsonaro do Planalto, mas tão urgente quanto, é criar um caminho para que as pessoas não morem na rua, não PEÇAM COMIDA NA RUA, pequenos empreendedores sejam apoiados, novas logísticas de distribuição, linhas de créditos em caráter emergencial, porque sim: os bancos brasileiros podem e têm dinheiro. O próprio Guedes disse que o brasileiro é “trouxa” de aceitar que 6 bancos mandem no país. Uma pessoa pega um empréstimo de R$ 1.700, parcela em 72 vezes e vai pagar mais de R$ 7.000. Isso não existe em nenhum lugar do mundo. Bancos estão lucrando agressivamente, num país onde o dólar, um mês atrás, passava R$ 5, estava sendo vendido ontem a R$ 6,12.

E a oposição precisa olhar para este lado, também, e urgentemente.

Porque esse jogo de Bolsonaro tem apenas um objetivo: matar o povo, seja por doença, seja por depressão, seja por pobreza.

Governadores que decidiram não reabrir o comércio, façam o trabalho inteiro: encontrem meios de garantir comida, teto e proteção social para os mais vulneráveis, os que não têm nada.

Porque em breve, eles vão pagar a conta, injustamente. Pobres e imigrantes.

O poder político quase nunca tem como objetivo o povo. É muito a sede do poder, pelo poder. Já ouvimos hoje o vice presidente dizer que o “Brasil está se fazendo muito mal”. Mourão quer ser presidente. Mas quem não quer?

A energia gasta nessa crise, e nas mobilizações para polarizar o povo, praticamente esvazia nosso senso de unidade. Não sabemos se temos uma nação, ou somos um grande pedaço de terra, com gente perdida dentro.

Os símbolos roubados pela extrema-direita. A família Bolsonaro como a maior peste que já existiu na república. E o povo morrendo, quase mil por dia.

E não estamos pensando o Brasil pros que ficarem. Pro Brasil que ficar. Se restar algum.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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