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Rebeca Realleza, a voz e a poesia de uma rainha

Rebeca Realleza, a voz e a poesia de uma rainhaFoto: Correio Braziliense

Criada no Sol Nascente, a rapper Rebeca Realleza desafia a dura realidade das periferias de Brasília, impõe-se na cena artística com versos instigantes e, com aguçada feminilidade, expande os limites do hip-hop

Fernando Brito-correio Braziliense - 28/11/2019 - 08:48:16

A voz doce e o discurso elaborado são as ferramentas para expressar uma trajetória de lutas que atravessam gerações e mares. A postura elegante na noite, típica de quem arrasa na pista, revela uma jovem rainha. Com música, poesia e dança, Rebeca Realleza, 24 anos, constrói um reino a partir do Sol Nascente. Não exatamente contemplando o espetáculo diário oferecido pelo astro-rei, mas na batalha constante travada por uma mulher negra que precisa buscar meio de sobrevivência em uma das regiões mais carentes da capital do país. Mas ela pode...

Filha de um moçambicano e uma mineira que se encontraram em Brasília, Rebeca jamais conheceu o pai. A mãe, empregada doméstica, encarou sozinha o desafio de cuidar da filha. Os primeiros anos de vida da família de duas integrantes foram passados no Guará. Depois, elas se mudaram para a periferia. O novo endereço foi estabelecido nas ruas empoeiradas ou lamacentas — a depender da estação — do Sol Nascente, até então bairro de Ceilândia e, desde agosto, região administrativa do DF.

 (BoomClap/Divulgação)

“Quando minha mãe se casou com meu padrasto, fomos para Ceilândia, onde comecei a ter concepções de sociedade, negritude, arte, cultura, racismo, machismo e militância. Na cidade, passei a compreender questões de raça”, diz a jovem artista, que cursa o oitavo semestre de direito.

Em um cenário carente de infraestrutura, saneamento básico e segurança, Rebeca moldou a personalidade. Na infância e nos primeiros anos da adolescência, rejeitava a própria cor e se envolvia em brigas por conta do bullying que sofria na escola. “Sou uma negra muito retinta. Não havia como disfarçar meus traços, amenizar o tom da minha pele ou modificar meu cabelo. Então, eu reagia de forma agressiva para me defender”, conta a rapper.

Os episódios de racismo se multiplicavam quase que diariamente. Do segurança a seguindo pelos corredores do mercado, como se a cor da pele denunciasse uma presença criminosa, à recepcionista de um escritório que a confundiu como candidata a faxineira, quando na verdade apresentava currículo para assistente administrativa, Rebeca se angustiava em silêncio. “A autoestima não era baixa, estava no subsolo. Eu condenava minha mãe por ter se relacionado com um africano. Questionava por que ela não procurou um homem branco para ser o meu pai”, desabafa.

"Antes do rap, eu era a Rebeca, descendente de escravos. Isso que me foi ensinado na escola. Depois do rap, eu virei a Realleza, porque sou descendente de reis e rainhas. Eu não sou descendente de escravos, mas de um povo que foi escravizado, de uma cultura que foi escravizada por um sistema político"

A música e a poesia, no entanto, despertariam uma nova forma de encarar a realidade. Ainda nos tempos de colégio, foi apresentada a uma canção que provocou uma catarse no olhar sobre o mundo. A faixa Manifesto, interpretada pelo grupo PR 15, explicou para Rebeca o que era o racismo e lhe ofereceu instrumentos para lidar com os covardes ataques que sofria. “Uma letra me esclareceu o que passei a vida toda. Foi impactante. Eu não entendia. Por isso, agia com agressividade, tentava ignorar ou ficava deprimida”, recorda. “Hoje, minha reação em relação ao racismo é orientar, com argumentos. Se antes eu usava socos e pontapés, agora eu utilizo as palavras, que são as melhores armas.”

O interesse pela arte cresceu no coração de Rebeca. Ainda que o rap não fosse bem recebido em casa, ela se aproximou de artistas de Ceilândia e integrou alguns grupos nos primeiros anos de carreira. Em muitas ocasiões, era a única mulher no palco em exibições que entoavam rimas sobre o cotidiano violento das periferias e o racismo estruturado da sociedade brasileira. Apesar de emancipador, algo ainda a incomodava naquele universo. “Percebi o conteúdo de várias músicas e não me sentia representada. A velha escola do rap foi muito importante para que pudéssemos nos reconhecer como periferia, mas eu precisava abrir espaço para o feminino. Foi assim que nasceu a Realleza, uma rainha, uma deusa, uma referência dentro e fora da periferia, futura advogada, que por meio do conhecimento desafia a ignorância do racismo”, afirma.

Produção musical

Consciente da própria condição racial, Rebeca Realleza assumiu de corpo e alma a natureza da negritude. Do penteado ao brilho das roupas, tudo remete à afirmação de uma essência que precisa ser manifestada. Nos palcos, a música, a dança e a poesia servem de canal para mensagens de fortalecimento feminino. “Aquela Rebeca do passado era triste. Hoje, eu amo a minha cor e meus traços. Tenho vontade de levar esse orgulho para as outras pessoas por meio da música. A mulher negra está na base da pirâmide do país e carrega o Brasil nas costas. Ela precisa ser forte e suportar tudo, como se jamais sentisse dor. Mas a gente também quer ser amparada e receber carinho”, comenta a rapper.

Segundo a artista, boa parte dessa consciência expressada nas letras das músicas que compõe foi inspirada pela ativista e filósofa norte-americana Angela Davis, que ganhou notoriedade mundial na década de 1970 como integrante dos Panteras Negras. “Eu ouvi falar sobre ela em algum lugar e fui pesquisar. É uma história incrível. Uma mulher negra que alcança tamanha visibilidade é porque realmente tem muito conteúdo a oferecer. É uma grande fonte de motivação para seguir atuando”, diz Rebeca, que ressalta a necessidade de os movimentos de consciência negra estarem mais unidos. “É preciso evitar tanta segregação em relação aos tons de pele. A gente precisa de menos fiscal de melanina e abraçar mais os nossos para aprender juntos”, provoca.

Filha dos tempos digitais, a rapper divulga a produção musical por meio da internet. Por ora, lançamentos de discos ou CDs não estão nos planos, mas, para 2020, novas músicas serão disponibilizadas nos diversos canais virtuais. Segundo ela, o EP Afrontosa está em produção e, em breve, estará acessível ao público no YouTube, no Spotify, no Deezer e em outras plataformas. “É um trabalho que ressalta minha identidade de afrontamento em relação às imposições do mundo. Estou em um momento especial de expansão de visibilidade, participando de festivais importantes, como o Coma, e, no próximo mês, farei pela primeira vez dois shows solo em São Paulo.”

Para o futuro, um sonho da cantora é resgatar e desvendar mistérios em relação às origens. Ela planeja visitar Moçambique e conhecer a família do pai. “Sinto a necessidade pessoal, emocional, psicológica e espiritual de conhecer a África. Quero saber como vive minha família, como é a convivência deles do lado de lá, descobrir a terra dos meus antepassados. Na primeira oportunidade, irei a Moçambique para conhecer essa história”, finaliza.


“Olha quem ilumina o baile

A lua tão linda da night

Na pista perigo constante

Preta, preta, dance, dance

Arrase na pista porque você pode”

Trecho da música Lua da Night

“Cantava com o nascer do sol ao seu ouvido

Você dizia ‘Preta, és meu paraíso’

Seu coração foi se enchendo de egoísmo

E eu detectei o seu caráter possessivo

Abortar missão, amor não vinga algoz

Fugindo das prisões, dos laços que viraram nós

Avoar céus adentro e mundo afora

Nessa vida nunca me dei bem com gaiolas”

Trecho da música Tempo


Especial

Para marcar o Mês da Consciência Negra, a série Histórias de consciência é publicada ao longo de novembro e presta homenagem a mulheres e homens negros que ajudam a construir uma Brasília justa, tolerante e plural. Todos os perfis deste especial e outras matérias sobre o tema podem ser lidos no site www.correiobraziliense.com.br/ historiasdeconsciencia

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