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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 28 de junho de 2022

Renascimento e transformação. “O câncer me abriu portas”

Renascimento e transformação. “O câncer me abriu portas”Foto: Correio Braziliense

Aprendizado pós-trauma

Alan Rios E Jéssica Eufrásio-correio Braziliense - 24/12/2019 - 08:21:49

Em meio ao caos do cotidiano, a gratidão prevalece entre muita gente que passou por momentos de risco. Nesta véspera de Natal, o Correio apresenta relatos de pessoas que decidiram adotar um novo olhar sobre a vida depois de verem a morte de perto

A aproximação de um novo ano costumar trazer reflexões, e o clima natalino abre essa fase, principalmente para quem enfrentou situações difíceis ou viu a vida ficar por um triz. Histórias de sobreviventes que venceram algum problema grave ajudam a lembrar — especialmente nesta época — a importância da gratidão. Na véspera de Natal, o Correio apresenta relatos de pessoas que passaram bem perto da morte e, após renascerem, decidiram adotar um novo olhar sobre si mesmas e sobre os demais.

“O câncer me abriu portas”

A descoberta de um câncer no sistema linfático, em 2014, foi um divisor de águas na vida da psicóloga Letícia Norata, 26 anos. Após um tratamento que durou mais de seis meses, a principal consequência de sobreviver à doença foi a mudança na forma de encarar a si mesma. “Eu vivia muito superficialmente e a favor do que os outros achavam que era certo para mim”, relata. A notícia da doença foi um baque, mas a jovem encontrou forças para não se deixar abater, apesar da constante vontade de desistir.


“Fui pegar a biópsia com os dedos cruzados, torcendo para que não fosse um linfoma. A sala ficava no fim de um corredor, que parecia ter triplicado de tamanho. Eu caminhava chorando, sem ter noção do que estava realmente acontecendo”, relembra a jovem, moradora do Gama. As lágrimas continuaram na sala do médico e em casa, principalmente no dia seguinte, quando a ficha caiu. “Passei por todas as fases do luto em dois dias”, completa.


A descoberta precoce do tumor de 13 centímetros de diâmetro, entre o pulmão e o coração, contribuiu para que o tratamento fosse eficaz. O apoio de amigos, parentes e equipes do Hospital Universitário de Brasília (HUB), onde Letícia tratou a doença, também ajudou para o enfrentamento. Além das dores durante quatro dias da semana e das sete horas de sessão de quimioterapia a cada 15 dias, houve outros momentos difíceis. “Fiz vários amigos (no HUB). De 10 (também pacientes), perdi nove. Conheci muitas pessoas incríveis e com coração maravilhoso que mereciam ter se curado e estar aqui vivendo a vida. Elas ajudaram muito em minha evolução”, avalia.


Quando recebeu o diagnóstico, Letícia trabalhava na secretaria de uma escola. Por lidar com crianças e estar com a imunidade frágil, precisou deixar o emprego. A vida social, por outro lado, ganhou mais atividade. “Antes, eu quase não saía de casa. Minha mãe não deixava. Quando descobri que estava com câncer, mesmo que não pudesse, eu estava nas baladas curtindo muito”, diz. “Cresci muito com essa doença. Não considero que ela veio para me matar ou me devastar, como muitos falam. O câncer abriu muitas portas para mim e uma visão de vida totalmente diferente.”


Apesar da necessidade de repouso, Letícia não quis abrir mão dos estudos. Em 2014, ela cursava pedagogia, mas, ao cogitar a possibilidade de não terminar o curso por causa do câncer, decidiu começar a faculdade com a qual sempre sonhou: psicologia. Formada no mês passado, a jovem pretende trabalhar com pacientes oncológicos e com outras doenças graves, além de idosos. “A morte é a única certeza que temos, então, precisamos fazer o melhor para o próximo. Este foi o ano mais feliz de minha vida. Vou receber minha alta (após cinco anos sem retorno da doença), me formei, e minha família está unida. Isso tudo é gratificante. Será o melhor Natal da vida”, comemora Letícia.




 (Alan Rios/CB/D.A Press)


feliz nas pequenas coisas

Marya Eduarda Aires, 16 anos, lembra de ouvir a mãe chorar e planejar os gastos com o velório da filha. Os médicos disseram que não poderiam fazer mais nada pela adolescente, que, desde junho de 2018, está em tratamento contra retocolite ulcerativa — doença inflamatória intestinal. A jovem não tinha mais forças nas pernas para andar e se alimentava com a ajuda de sonda. Ela só sobreviveu graças a fortes medicamentos, além de três transfusões de sangue.


Os parentes que a acompanhavam diziam que Duda parecia não estar mais aqui, pois só era vista com um olhar distante. Keline Aires, 35, uma das tias, tem orgulho de ver que isso ficou para trás. Em agosto, Marya Eduarda recebeu alta. “Vi de perto minha sobrinha ficar bem debilitada, perder 30 quilos, não conseguir ficar em pé e ter de usar fraldas. Mas também acompanhei quando as vacinas começaram a fazer efeito. Ela recebeu apoio de diversos especialistas e conseguiu sair do hospital (em agosto), depois de meses de internação. Foi uma conquista tão grande que considero um milagre.”


A adolescente se lembra bem do que passou até conseguir dar o primeiro passo fora do hospital. “Enfrentei as piores dificuldades da minha vida. Fiquei muitos dias em hospitais públicos diferentes. Em alguns, tratavam-me muito mal, tinham nojo de mim por causa dos efeitos da doença”, diz. Algumas das consequências incluíam dores no abdômen, falta de ar, perda de sangue e problemas para controlar o sistema excretor. “Eu pedia morfina, porque doía muito. Tentava tudo o que podia para me fazer dormir, mas nem morfina adiantava.”


A volta para casa, no Novo Gama (GO), Entorno da capital federal, ainda não era garantia de recuperação. Mas o companheirismo das pessoas queridas ajudou com o quadro. “Antigamente, eu ligava muito para amizades, festas. Quando me vi naquela situação, vi que minha família estava comigo. Comecei a me aproximar muito de minha tia, de todos. Vi que minha família se uniu”, ressalta Marya Eduarda.


Hoje, a adolescente comemora coisas simples, como conseguir se maquiar e vestir a própria roupa, após meses internada em uma maca. Enquanto melhora, tem feito aulas de dança e se planeja para voltar à escola. “Vamos ter dias bons e ruins, mas temos de estar preparados. Hoje, estou boa, mas, na semana passada, não estava. Gosto de acordar, viver tudo o que quero e dormir sabendo que estive viva, que venci mais um dia”, comenta.




“SOrtudo de estar vivo”






 (Vitor Milanez)

O Natal de 2019 não será como os outros para Gabriel Boni, 32 anos. Na quinta-feira, o Dj brasiliense sofreu um acidente automobilístico em São Paulo. A van em que ele estava com outras 10 pessoas colidiu contra um caminhão no km 274 da Rodovia Anhanguera. “Foi a situação mais impactante da minha vida. Acordei em um pesadelo, com pessoas agonizando, presas às ferragens”, detalha. Por sorte, ninguém morreu.


Depois da batida, alguns passageiros quebraram vidros e abriram as portas traseiras do veículo, na tentativa de salvar os colegas. “Havia muitos gritos de pânico, fumaça. Achei que fosse fogo”, conta Gabriel. Com um corte fundo na cabeça e sem forças nas pernas, ele aguardou o socorro deitado na grama. A esposa do Dj, Amanda Felicio, 25, sofreu ferimentos internos e ainda está hospitalizada, mas fora de perigo.


Além do casal, outro Dj — que se apresentaria com o brasiliense no show na capital paulista — quebrou todos os dentes, o nariz e sofreu fraturas no rosto. “Tenho refletido muito sobre coisas que achamos que nunca acontecerão conosco”, comenta Gabriel. “Penso em como sou sortudo de estar vivo hoje, além das tantas vezes em que andei de van e em que poderia ter acontecido algo.”


O acidente, no entanto, não impediu o artista de se apresentar em São Paulo, no domingo. Ainda com ferimentos e curativos no rosto, ele passará o feriado com a esposa no hospital. “Estou agradecido pela chance de nascer de novo, por essa oportunidade de viver novamente. Senti um laço muito grande com todos que passaram por isso, e sempre choramos quando nos vemos. A sensação é de estar mais presente. Sempre tive essa filosofia. Só o hoje existe”, completa.




Aprendizado pós-trauma






Suelene Aparecida de Freitas vivenciou experiências traumáticas ao menos três vezes ao longo dos 29 anos de vida. A primeira, aos 3 anos, afetou a fala durante algum tempo. Na fase em que ela começava a ensaiar as primeiras palavras, o pai a colocou em cima de um touro, que girou, pulou e quase fez com que ela caísse. O choque deixou a criança muda até os 6 anos. Depois de acompanhamento fonoaudiológico, a menina voltou a se comunicar verbalmente, mas ainda com dificuldade. A condição permaneceu até os 15 anos.


Ainda na infância, Suelene perdeu o pai. A caminho do velório, um carro atingiu o ônibus em que ela estava com a família. Os cinco ocupantes do automóvel — dois adultos e três crianças — morreram. Os passageiros do coletivo não sofreram ferimentos graves. Aos 18 anos, enquanto ia para uma fazenda com duas amigas, o veículo em que estavam capotou. Suelene não usava cinto de segurança, mas sofreu apenas escoriações.


Após o caso mais recente, a moradora de Cristalina (GO) quase ficou paraplégica. “Em 2015, ia de carro para o curso de inglês, com minha mãe e uma amiga. Estávamos a 15 quilômetros de casa, quando um automóvel nos atingiu de frente, do meu lado. Os dois veículos tiveram perda total”, conta. Mesmo abalada, Suelene conseguiu empurrar a mãe para fora, resgatar a amiga do banco traseiro e fotografar o acidente. Em seguida, ela desmaiou e só acordou no dia seguinte, no hospital.


Com a notícia da fratura de três vértebras, surgiu a preocupação com a possibilidade de perder o movimento das pernas. “Até o médico se assustou (com o fato de eu ter sobrevivido). Fiquei dois anos sem poder caminhar muito, correr, dançar ou fazer esforço. Tive de começar fisioterapia, acupuntura, RPG (reeducação postural global) e todos os tratamentos possíveis para ter uma vida normal”, relata Suelene. “Foi um milagre. Não tem outra explicação. Principalmente depois do último acidente, em 2015.”


De lá para cá, a analista administrativo recebeu diagnóstico de um quadro de síndrome do pânico, passou por tratamento psicoterapêutico e resolveu adotar outra maneira de lidar com a rotina e as prioridades. “Minha vida sempre foi muito corrida. Trabalhava em uma multinacional, viajava muito, tinha pouco tempo para a família. Percebi que, às vezes, valorizamos coisas que não têm tanta necessidade e deixamos de dar importância àqueles de quem gostamos”, observa. “Com certeza, sou mais grata. Foi um estalo. Eu deixava de me dedicar à vida e me dedicava às coisas materiais. Levo isso como aprendizado.”

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