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Resultados negativos em testes do drive-thru podem ser falsos

Resultados negativos em testes do drive-thru podem ser falsosFoto: Hugo Barreto - Metrópoles

As especificações da própria fabricante alertam que resultados negativos não excluem a infecção por Covid-19

Thays Martins - Correioweb - 27/04/2020 - 10:29:55

A testagem em massa que o Governo do Distrito Federal (GDF) começou a faze r na população pode não ser efetiva para separar os contaminados daqueles que não têm o vírus. Na prática, isso quer dizer que mesmo se o resultado for negativo, isso não quer dizer que a pessoa não esteja com coronavírus.

A própria especificação do fabricante, a Gbio, diz que este teste fornece resultados preliminares e que resultados negativos não excluem a infecção por SARS-CoV-2 e não podem ser usados como única base para o tratamento ou outra decisão.

Natália Pasternak, microbiologista do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), explica que existem dois tipos de teste para a detecção do coronavírus. O primeiro é o molecular, feito em laboratório e que demora em torno de 20 dias para se ter o resultado. “Ele detecta o material genético do vírus, vai dizer se ele está lá, isso desde o momento que se infecta, nem precisa ter sintomas. Este teste é para fazer diagnóstico”, explica. O segundo, são os testes de anticorpos, dentro dos quais se encaixa os testes rápidos. Segundo ela, esta testagem não serve para diagnóstico. “Ele vai saber se a pessoa produziu anticorpos. Ele só sabe se o vírus passou por ali. Não sabe se a pessoa está doente”, ressalta.

Este tipo de teste é capaz de detectar a produção de dois tipos de anticorpos: IgM e IgG. O IgM é o primeiro anticorpo que a pessoa começa a produzir ao ter contato com um vírus. O IgG é a memória que fica depois que o vírus já foi embora, é ele que diz se a pessoa está imune à doença. A grande questão é que eles omeçam a ser produzidos em torno de sete a 11 dias depois da infecção. É exatamente por isso que o GDF só faz a testagem nesse sistema de quem apresenta sintomas há mais de sete dias.

Os testes aplicados pelo GDF são capazes de detectar estes dois tipos de anticorpos. Ao todo foram adquiridos 5 mil unidades, cada uma delas custa R$ 159. De acordo com a fabricantes dos testes, a taxa de erro para resultados falso-negativos é de 14%. Mas a microbiologista alerta que este número pode ser maior, até 25%. “O teste negativo não diz nada, absolutamente nada. Os testes rápidos são ruins no geral, além da pessoa poder ainda não estar produzindo anticorpos quando faz o exame, ela pode até já estar com o vírus e o teste não detectar”, explica. Por isso, na opinião dela, toda essa ação, na prática, não serve para nada. “É um investimento em vão. É uma confusão na cabeça das pessoas e isso pode prejudicar comportamentos, a pessoa sai achando que não está doente. É um desperdício de dinheiro público”, enfatiza.

Artigo publicado na revista científica Medical News & Perspectives diz que a eficiência desses testes está não no diagnóstico de pessoas doentes e sim para saber quem já teve o vírus e está imune. Isso teoricamente, porque a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que não há evidências de que quem já contraiu o vírus fique realmente imune.

Segundo a Eco diagnóstico, uma outra fabricante, esse tipo de teste é adequado quando o molecular deu negativo e o paciente apresenta sintomas de pneumonia há mais de 10 dias. Segundo a explicação, a vantagem desse tipo de teste é que “em caso de resultado de PCR (molecular) negativo devido à diminuição do título viral, os testes sorológicos são úteis para verificar a presença de anticorpos e conduzir o paciente na investigação epidemiológica”. A desvantagem é que esse teste é “ineficiente para o diagnóstico na fase aguda”.

Entenda na imagem os diferentes tipos de testes

A recomendação do Ministério da Saúde é que, além da espera dos setes dias, o teste rápido só seja usado em profissionais de saúde e profissionais de segurança pública em atividade ou pessoas que residam com esses profissionais.

Ainda, segundo avaliação do Ministério da Saúde, esses testes podem não ser úteis para detecção da fase aguda da doença devido ao atraso na produção de anticorpos. A pasta ainda orienta que, como não há muitos estudos publicados sobre esses testes, é importante a validação dos resultados com testes moleculares.

O GDF esclareceu, em coletiva de imprensa, que a testagem em massa da população é uma das estratégias adotadas para a reabertura do comércio e para se ter números para estudos. “Para que, dentro de um processo de reabertura de algum segmento, nós tenhamos alguns indicadores e a testagem é um desses indicadores”, explicou o secretário de Saúde, Francisco de Araújo Filho, secretário de Saúde.

Quanto a possibilidade de falsos-negativos o GDF esclareceu que não é necessário fazer o teste novamente. “Não é necessário fazer um novo teste, a não ser que ela volte a apresentar sintomas. Se deu negativo ela está suscetível a contrair o vírus, ela pode contrair alguns dias depois”, esclareceu Ricardo Tavares Mendes, subsecretário de assistência básica a saúde.

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