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Retrato mais que feminino. “Nós estamos cansadas de receber não. Isso nós já temos“

Retrato mais que feminino. “Nós estamos cansadas de receber não. Isso nós já temos“Foto: Correio Braziliense

Retrato mais que feminino

Ana Maria Da Silva* - Correio Braziliense - 13/07/2020 - 11:07:11

Documentário busca retratar a realidade de mulheres brasilienses que enfrentam jornadas desgastantes em tempos de pandemia e de isolamento social

Cumprir os prazos do trabalho, lidar com a chefia, manter a casa em ordem e limpa, cuidar da alimentação dos familiares, da própria saúde e, principalmente, não surtar. Cansativo, certo? É fato que a vida de todos sofreu mudanças, em decorrência da pandemia da covid-19, e, para as mulheres, não foi diferente. Em geral, as tarefas domésticas e familiares, que já eram intensas antes das mudanças sociais, têm se concentrado desigualmente sobre elas.

Luiza de Cássia:
Luiza de Cássia: "Nós estamos cansadas de receber não. Isso nós já temos. Agora, precisamos correr atrás da mudança"

A coordenadora da União Brasileira de Mulheres (UBM), Beatriz Matté Gregory, ressalta que, apesar de os companheiros procurarem contribuir mais nos afazeres domésticos, as mulheres ainda vivem muito atarefadas em casa. “Os valores culturais do patriarcado ainda se fazem presentes hoje. Dessa forma, os cuidados e tarefas domésticas ainda recaem, principalmente, sobre as mulheres”, afirma Beatriz. De acordo com ela, o período de pandemia reforça isso. “Com a família toda na residência, a mulher precisa se desdobrar para manter a casa limpa, preparar comida, cuidar das crianças e das tarefas escolares”, exemplifica.

Além disso, a coordenadora da UBM ressalta que boa parte das mulheres vivem de trabalho remoto, principal razão do desgaste psicológico e físico. “Sob uma perspectiva, é ótimo que ela tenha conseguido manter o emprego. Mas, diante de tantas tarefas, ela ainda precisa cumprir as horas de trabalho e apresentar resultados”, diz. Nessa pressão, Beatriz afirma que a alternativa que encontram é utilizar o tempo de descanso para cumprir os prazos. “Ela acaba fazendo isso de madrugada, na hora do almoço, ou quando as crianças dormem. Dessa forma, falta tempo para si mesma, tempo para se cuidar”, reforça.

Mas, as dificuldades vão além da sobrecarga de trabalho das mulheres nesse período. Com a nova realidade, Beatriz explica que as mulheres precisam aprender, ainda, a viver com os sentimentos à flor da pele. “Esse momento é difícil. Há o desespero, a angústia e dor com entes queridos hospitalizados, o medo e preocupação de pegar a doença, e o sentimento de dúvida quanto ao que virá do futuro”, diz. “Felizmente podemos dizer que as mulheres brasileiras são guerreiras, têm força e estão encarando com coragem esse momento. Mas sabemos que não está sendo fácil”, completa.

Espaço

Com o intuito de oferecer para as mulheres do Distrito Federal um espaço de fala e compartilhamento das diferentes percepções desse momento preocupante, e de sobrecarga, foi criado o projeto do filme documentário Ser mulher no DF nos tempos da covid-19”. O projeto colaborativo visa o registro histórico das mulheres de Brasília, apresentando sentimentos, dificuldades e atitudes frente ao tempo desafiador que é vivido atualmente.

Sob direção de Tânia Fontenele, cineasta e coordenadora do Instituto de Pesquisa Aplicada da Mulher, o documentário será construído com a coleta de depoimentos de várias mulheres que tenham interesse em partilhar um pouco de sua história. “A nossa preocupação foi em como viabilizar a coleta dos depoimentos. Efetivamente, ir na casa das pessoas não seria possível. Então é algo novo. Abrimos para que as pessoas que se interessarem façam os seus depoimentos”, explica.

Com o objetivo de preservar relatos e sentimentos que a pandemia trouxe, Tânia afirma que o objetivo principal é revelar o quanto as mulheres ainda seguem sobrecarregadas. “Esse fenômeno obriga as pessoas a pensarem na divisão social do trabalho e que ainda há resquícios muito fortes da dependência do trabalho doméstico e exploração do trabalho da mulher”, acredita. “Queremos registrar a percepção delas, do quanto é duro esse trabalho cotidiano, e que não pode ser reservado somente a elas”, completa.

Sob o vislumbre de apresentar o significado de ser mulher na quarentena, Tânia afirma que o documentário é uma oportunidade de dar voz a quem não tem. “Algumas pessoas acham que a sua história e luta não têm valor, mas todas têm. Então, abra o coração, sua criatividade. Tenha coragem de expor as dificuldades e as coisas boas, as superações”, convida. “Eu sei que muitas vezes não é fácil de falar de sofrimento, mas acredito que é uma oportunidade de contar uma história que pode impactar a vida de outras mulheres. E elas podem ver semelhanças, motivos de inspiração pra lutar, pra mudar”, acredita.

Lutas

Dores no corpo, preocupações, e esgotamento psicológico. A vida da auxiliar de serviços gerais Luiza de Cássia Silva, 49 anos, é marcada por uma série de lutas. Ela conta que após se divorciar, a situação em casa ficou difícil. Apesar de sempre contar com a ajuda dos filhos, Luiza precisou ser a força da casa. “A gente se desespera achando que não vai conseguir. Precisamos trabalhar, educar os filhos e dar conta da casa. Eu sou muito ativa, sempre lutei pelo sustento da minha família”, lembra.

Hoje, com os filhos crescidos e sem poder trabalhar devido à pandemia, Luiza conta que tem vivenciado novas experiências. “Imagina só, levantar todo dia cedo, tendo uma perspectiva de vida e, de repente, precisa ficar em casa o tempo todo. Me sinto impotente, mas é uma superação a cada dia. Só de não estarmos contaminados é uma vitória”, acredita. Apesar das lutas, a auxiliar de serviços gerais reforça a importância da atitude positiva. “Não podemos ficar o tempo todo nos lamentando. Às vezes, precisamos arregaçar as mangas e sair pra lutar. Em muitas situações, sou eu e eu. Enfrentei muita luta e dificuldade, mas superei”.

Após sua participação no filme Ser mulher no DF nos tempos da covid-19”, Luiza ressalta que encontrou no documentário o espaço de fala que em muitos momentos não teve. “Passei por muitas situações calada e não tive a oportunidade de contar um pouquinho do que já vivi. Assim como aconteceu comigo, eu acredito que vai mudar a vida de muitas mulheres, pois vai dar o que elas não encontram: oportunidade”, acredita. “Nós estamos cansadas de receber ‘não’. Isso nós já temos. Agora precisamos correr atrás da mudança”, reforça.

* Estagiária sob supervisão de José Carlos Vieira

Como participar do documentário?

Faça um registro em vídeo com o seu celular na posição horizontal sobre sua percepção dessa pandemia e as formas de enfrentamento encontradas por você durante o isolamento social. Pode começar falando seu nome, sua idade, ocupação, a cidade onde mora e há quantos dias está em distanciamento social. Poderão ser enviados quantos vídeos quiser. O período de recebimento vai até 22 de agosto de 2020

Como enviar seu vídeo?

Pelo WhatsApp: vídeo com até, no máximo, cinco minutos.Pelo e-mail: mulherfilmecovid19@gmail.com.Pelo aplicativo We transfer (www.wetransfer.com). Em caso de dúvidas, entre em contato pelo telefone (61) 99588-3278

 (Carlos Vieira/CB/D.A Press)

"Algumas pessoas acham que a sua história e luta não têm valor, mas todas têm. Então, abra o coração, sua criatividade. Tenha coragem de expor as dificuldades e as coisas boas, as superações”

Tânia Fontenele, cineasta (foto)

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