×
ContextoExato

Contexto Exato

Brasil - Brasília - Distrito Federal - 09 de dezembro de 2021

Salário baixo e indignação levaram polícia de Santa Cruz a se voltar contra Evo Morales

Salário baixo e indignação levaram polícia de Santa Cruz a se voltar contra Evo MoralesFoto: Estadão

O motim policial em Santa Cruz foi anunciado no dia 9 pelo presidente da Associação de Soldados, Cabos e Sargentos, Javier Trigueiro. No dia seguinte, pressionado pelo comando das Forças Armadas e os protestos organizados em sua maioria por jovens, Evo renunciou.

Estadão Conteúdo - 18/11/2019 - 08:43:21

Não foi apenas o sentimento de dever cívico despertado por suspeitas de fraude eleitoral que fez com que a Polícia Nacional em Santa Cruz de La Sierra decidisse se amotinar contra o governo Evo Morales levando à queda do governo. Segundo o comandante da corporação local, coronel Miguel Mercado, o mal-estar da tropa começou com a ordem de aquartelamento que seguiu a eleição de 20 de outubro. Aquartelados, os policiais não podiam usar os dias de folga para fazer os bicos que complementam o salário baixo, um dos menores do continente.

“A polícia boliviana é uma das que recebem menor remuneração em toda a região. A maior parte dos policiais faz seu serviço e depois trabalha em outra coisa. São motoristas de táxi ou têm os próprios negócios. Este problema social da Bolívia é muito grande”, disse o coronel ao Estado na sede do comando da Polícia Nacional em Santa Cruz.


O motim policial em Santa Cruz foi anunciado no dia 9 pelo presidente da Associação de Soldados, Cabos e Sargentos, Javier Trigueiro. No dia seguinte, pressionado pelo comando das Forças Armadas e os protestos organizados em sua maioria por jovens, Evo renunciou.

Segundo Mercado, durante as três semanas em que a tropa ficou aquartelada ou mobilizada em cidades do interior para evitar distúrbios políticos, o mal-estar provocado pela impossibilidade de fazer bicos se somou à indignação cívica.

Para Entender

Crise na Bolívia: A ascensão e queda de Evo Morales

Por que a gestão dele teve tanto destaque? Como ele mudou a nação sul-americana? A democracia corre perigo no país? Entenda essas e outras questões

“O desgaste foi este. Afetados por muito tempo de aquartelamento, a maior parte começou a mostrar um mal-estar que piorou quando se falou que existiam fraudes. Os policiais diziam que não podiam trabalhar defendendo a ilegalidade”, disse o coronel.

O piso salarial da polícia boliviana é de menos de B$ 2,4 mil, equivalentes a R$ 1,5 mil. No topo da carreira, os vencimentos chegam a B$ 14 mil (R$ 8,7 mil).

Esta não foi a primeira vez que a insatisfação salarial da polícia levou à queda de um governo na Bolívia. “Em 2003, quando o governo Sánchez de Lozada caiu, os policiais se amotinaram do mesmo jeito. Por quê? Porque lhes tiraram B$ 50 (para impostos). Isso é muito dinheiro para um policial. Representa o pão de uma semana”, lembrou Mercado.

Para Entender

A luta de poder na Bolívia: Jeanine Áñez no gabinete contra Evo Morales exilado no México

Presidente interina precisa obter reconhecimento, organizar eleições, além de estabilizar e reconstruir o país após semanas de protestos violentos; enquanto isso, ex-mandatário promete manter papel ativo na política boliviana

O governo Evo ainda tentou conter o descontentamento depositando B$ 3 mil nas contas de 36 mil policiais de baixa patente, mas era tarde demais. A imagem do sargento Trigueiro anunciando o motim em meio aos líderes do Comitê Cívico pró-Santa Cruz, principal polo da oposição a Evo, viralizou e uma onda de motins policiais se espalhou por vários departamentos.

Para analistas, a revolta da Polícia Nacional em Santa Cruz foi tão importante para a queda do governo quanto as manifestações populares lideradas pelo presidente do comitê cruzenho, o advogado Luís Fernando Camacho, que também se espalharam para o restante do país.

Com aproximadamente 3,3 milhões de habitantes, Santa Cruz, a cidade mais rica da Bolívia, é historicamente um reduto de oposição ao governo central de La Paz. O Comitê Cívico nasceu em 1950 de uma demanda local por mais participação na divisão dos impostos federais. Na época, o departamento recebia 1% do montante. Após forte mobilização passou a receber 11%.

A demanda por maior autonomia em relação à capital gerou ao longo das décadas várias tentativa de sublevação. A última foi em 2009, quando o Comitê hoje presidido por Camacho liderou a chamada Meia Lua, formada pelos departamentos do leste boliviano (Tarija, Santa Cruz, Beni e Pando) numa tentativa de ganhar autonomia em relação a La Paz que terminou em acordo.

As diferenças em relação a La Paz vão além da política e têm componentes, geográficos, étnicos, religiosos e econômicos. Ao contrário dos departamentos do Altiplano, Santa Cruz fica na planície amazônica, fazendo fronteira com o Brasil. A economia tem como base o agronegócio e a indústria (responde por 25% do PIB e produz 70% dos alimentos da Bolívia) e a população tem origem guarani ou europeia, autodenominada “camba”, enquanto no Altiplano a população é em sua maioria de indígenas quíchua ou aimara.

A eleição de Evo com a bandeira de valorização das comunidades indígenas acentuou essas diferenças. O componente racial é um elemento importante na política boliviana. Mas, para o vice-presidente do Comitê Cívico, o médico Romulo Calvo, a cidade reflete mais a cultura inter-racial do que o Altiplano. “Somos a quarta cidade com maior crescimento demográfico do mundo. Aqui em Santa Cruz temos todos os componentes de uma cultura cosmopolita”, disse.

“Há um pequeno grupo racista, mas não é determinado como corrente política”, completou o secretário departamental de governo, Vladimir Peña.

Outro fator diferencial é o cristianismo. Por toda Santa Cruz é possível ver símbolos cristãos. Não foi por acaso que Camacho escolheu o Cristo Redentor como local para as mobilizações nas quais fazia discursos por vezes histriônicos com uma Bíblia na mão. Mas, segundo Peña, o uso de símbolos religiosos é uma característica pessoal de Camacho. “Em Santa Cruz há maior ligação com os símbolos cristãos, mas o que nos move politicamente não é a religião. Camacho deu este impulso, mas a Bíblia não foi determinante para isso”, afirmou.

Peña e Calvo refutam a possibilidade de o movimento civil que ajudou a derrubar Evo se transforme em uma alternativa política, mas admitem que o nome de Camacho está na boca do eleitorado.

Comentários para "Salário baixo e indignação levaram polícia de Santa Cruz a se voltar contra Evo Morales":

Deixe aqui seu comentário

Preencha os campos abaixo:
obrigatório
obrigatório
Uma pista novinha para os skatistas de Águas Claras

Uma pista novinha para os skatistas de Águas Claras

Com a ajuda de aprendizes do RENOVADF, a pista de skate da quadra 107 ganha manutenção; outros 27 equipamentos na cidade passarão por reformas

UnB aprova título de Doutor Honoris Causa para o líder indígena Aílton Krenak

UnB aprova título de Doutor Honoris Causa para o líder indígena Aílton Krenak

Líder indígena e ambientalista Aílton Krenak receberá o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Brasília (UnB)

MST comercializa cesta de natal com produtos da reforma agrária

MST comercializa cesta de natal com produtos da reforma agrária

O período de entrega ou retirada das cestas será entre os dias 14 e 23 de dezembro.

Começa a 54ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Começa a 54ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Festival de Brasília do Cinema Brasileira será totalmente online e vai de 7 a 14 de dezembro; filmes poderão ser vistos de forma gratuita pela internet.

De olho na natureza, crianças participam do Natal no Cerrado

De olho na natureza, crianças participam do Natal no Cerrado

A ação contou com exposição de fotos, plantação de sementes e contação de história

Rede pública de ensino do DF amplia oferta de idiomas

Rede pública de ensino do DF amplia oferta de idiomas

Sofia de Souza, de 15 anos, pretende cursar alemão no Cemi Gama e conhecer a Alemanha

Grafite muda a paisagem da avenida W3 Sul

Grafite muda a paisagem da avenida W3 Sul

Douglas Retok conta que muitas vezes percorreu a W3 Sul em busca de um muro que servisse de suporte para sua arte

Artesãos brasilienses participam de feira em Belo Horizonte

Artesãos brasilienses participam de feira em Belo Horizonte

A artesã Tânia Rodrigues com a secretária de Turismo, Vanessa Mendonça

Trânsito é liberado aos domingos e feriados na W3 Sul

Trânsito é liberado aos domingos e feriados na W3 Sul

A avenida volta a ter circulação de veículos

Museu da República no Distrito Federal exibe três mostras simultaneamente

Museu da República no Distrito Federal exibe três mostras simultaneamente

Cecília Lima, Raíssa Studart e Cléber Cardoso Xavier apresentam trabalhos produzidos durante residência artística em Olhos D’Água

Jardim Zoológico de Brasília recebe ursa ameaçada de extinção

Jardim Zoológico de Brasília recebe ursa ameaçada de extinção

Liz veio da Bahia especialmente para encontrar Ney. Expectativa é que o casal contribua para a preservação da espécie, ameaçada de extinção.