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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 24 de outubro de 2021

Senadora Simone Tebet: “Temos um presidente que, quando fala, cria crise”

Senadora Simone Tebet: “Temos um presidente que, quando fala, cria crise”Foto: Rafaela Felicciano-Metrópoles

Senadora avalia que equipe econômica é obrigada a “fazer política” para conter problemas causados por Bolsonaro e seus filhos

Por Luciana Lima-metrópoles - 05/05/2019 - 10:18:07

A senadora Simone Tebet (MDB-MS) ascendeu ao posto de presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado após ter desempenhado papel importante para a derrocada de seu correligionário Renan Calheiros (MDB-AL) no comando da Casa. Com isso, sua imagem de enfrentamento de velhos caciques da política começou a se firmar logo no início do atual governo.

Hoje, ela se diz independente da administração de Jair Bolsonaro (PSL) e tenta imprimir uma nova marca ao MDB, legenda que participou de todas as gestões federais desde a redemocratização do país e que sustenta a fama de ser governo, independentemente de quem seja o ocupante do Palácio do Planalto.

“Não sou governo”, garantiu a senadora em entrevista ao Metrópoles. Em consonância com a atual administração federal, no entanto, ela tem uma preocupação com a pauta econômica e diz tentar imprimir um “trabalho paralelo” na CCJ do Senado, com o objetivo de “fazer a roda da economia girar”.

Simone Tebet não poupou críticas ao presidente Jair Bolsonaro (PSL), embora reconheça qualidades no time econômico escalado pelo atual chefe do Executivo federal. “Hoje, a meu ver, a equipe econômica está fazendo política, coisa que não é papel dela. Está fazendo política, acertadamente, porque temos um presidente da República que, quando fala, cria crise econômica e política no país”, avaliou.

O papel do Paulo Guedes e de sua equipe econômica, o do próprio Marinho [Rogério Marinho, secretário especial da Previdência] na Previdência, eram papéis institucionais, mas técnicos. Eles estão avançando (a meu ver, positivamente) o sinal porque estão precisando apagar o fogo da parte econômica do governo que não está funcionando"

Simone Tebet (MDB-MS), senadora e presidente da CCJ do Senado Federal

Lista de prioridades
Enquanto a Câmara se debruça sobre as prioridades do governo – reforma da Previdência e pacote anticrime –, Simone Tebet encaminhou na comissão que preside no Senado as votações de admissibilidade das propostas de criação do cadastro positivo e da Empresa Simples de Crédito (ESC), além de outras medidas cujo objetivo é “desburocratizar” a economia.

“A prioridade é a pauta econômica, independentemente de a reforma da Previdência estar aqui ou não”, avisou. “É fazer avançar todos o projetos que atendam aos interesses do país e da própria equipe econômica do governo, embora eu não seja governo”, enfatizou.

Na avaliação da senadora, as declarações polêmicas do presidente da República são o principal entrave ao andamento dos interesses do governo no Congresso. “Hoje isso paralisa o trabalho da Câmara. Nós estamos avançando, mas independentemente do governo”, destacou.

“Acho que está faltando coordenação, foco naqueles pontos prioritários e começar a dialogar com o Senado naqueles projetos que estão parados e que são estruturantes”, observou. “Como a CCJ é o coração e o pulmão dos trabalhos do Senado, se nós não formos ágeis, tudo para, principalmente no primeiro ano, no qual houve uma troca muito grande de senadores. Muitos projetos vão para o arquivo e outros ressurgem – até, de certa forma, copiados de projetos arquivados”, completou a parlamentar.

Filhos do presidente
Além da postura do presidente, a senadora ainda considerou que a existência de um “quarto núcleo” no governo, formado pelos filhos de Jair Bolsonaro, tem atrapalhado ainda mais os rumos do país. “Os filhos estão atrapalhando mais do que o pai”, disparou.

“O governo tem três núcleos: o econômico, o político e o militar. Não vejo problema nenhum nisso, no fato de os militares estarem no governo”, avaliou. “Estamos na UTI. Temos um país moribundo, prestes a chegar em um momento de shutdown . Mas nunca tivemos um presidente da República, um chefe de Executivo no Brasil, nem antes da ditadura, com um quarto núcleo, no qual os filhos mandam no país”, avaliou a senadora.

“Normalmente, quem quer, inclusive, mostrar autoridade como capitão e defensor do conservadorismo – e de parte desse conservadorismo eu até comungo – não pode mostrar o contrário no poder. O pátrio poder é do pai e é da mãe”, disse. “O que se vê é o processo inverso, os filhos comandando, mesmo tendo consciência de que há outros núcleos falando, interferindo. Não deixando o presidente governar”, avaliou Simone Tebet.

A senadora afirmou ainda que falta a Bolsonaro deixar a sua marca no conjunto de mudanças nas aposentadorias. “O presidente tem que colocar a digital na reforma da Previdência e, enquanto ele não fizer isso, a Câmara não vai votar. Enquanto ele não comandar o partido dele e disser que é para votar – ‘eu preciso de vocês’ – e conversar com o centro, com a esquerda, dialogar, vir ao Congresso, colocar esta questão muito clara, a reforma não será aprovada”, considerou a emedebista.

Caciques
Filha de Ramez Tebet, Simone viu seu pai ser senador, presidente do Senado, ministro e governador de Mato Grosso do Sul. Ela chegou à Câmara Alta do Parlamento brasileiro forçando prévias em seu partido para a escolha do presidente da Casa, contrariando a tradição emedebista de definir o candidato por aclamação. Contrariou interesses de políticos contemporâneos de seu pai, como o senador Renan Calheiros, que tentou neste ano presidir o Senado Federal pela quinta vez.

Como resultado do movimento liderado por Simone Tebet, Renan perdeu a disputa pelo cargo, assumido, em uma conturbada eleição, pelo senador Davi Alcolumbre (DEM-PA), com quem ela tem atuado diretamente na condução dos trabalhos.

“É importante ter uma linha muito rápida de comunicação com o presidente do Senado, saber o que está acontecendo, para que a CCJ seja um instrumento para agilizar os trabalhos no plenário”, argumentou a parlamentar.

Imagem de independência
A senadora tem divulgado a intenção de reforçar uma imagem de independência do MDB. Para ela, a renovação nos quadros do partido, em contraposição aos velhos caciques, é o único caminho para a legenda não se tornar uma sigla média ou pequena nos próximos anos.

“Já disse isso para o próprio presidente do partido [Romero Jucá (MDB-RR)] e deixei as coisas muito às claras. Disse que entendia haver uma necessidade muito grande de renovação”, contou. “Se não nos reinventarmos, vamos deixar de ser o maior partido do Brasil, que ainda somos só por conta das eleições municipais, e vamos virar um partido mediano ou até pequeno”, avaliou.

Disputa interna
Nesse contexto, a senadora também passou a encabeçar um movimento no processo de sucessão dentro do MDB, contrária à possível candidatura do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, à presidência nacional da legenda.

Ibaneis é considerado “o novo” pela atual cúpula emedebista, que deseja se manter no comando do partido. Em contraposição a isso, lideranças de estados do Sul do país já ensaiam outro nome para a disputa, com o objetivo de tirar o controle da legenda das mãos do ex-senador José Sarney, do próprio ex-presidente Michel Temer, de Renan Calheiros e de Romero Jucá.

“Eu alertei o presidente do partido de que não terá o meu apoio o candidato a presidente que, embora seja um nome novo, não comunga das atuais ideias. Ele [Ibaneis] não falou das suas ideias, mas, se ele não significar o novo, não terá o meu voto”, disse Tebet. “Não basta ser um nome novo”, completou.

Aliados da senadora nessa empreitada são o senador Dario Berger e o deputado Celso Maldaner, ambos do MDB-SC. Ela, no entanto, se negou a ser o nome a enfrentar os caciques nas eleições internas.

“Já fui procurada por vários colegas, mas acho que minha cota de participação eu já dei. Acho que abri caminho, ajudei a construir uma ponte para esta travessia”, enfatizou. “Eu ajudei a mudar, tanto é que, pela primeira vez, nós não somos governo”, observou Simone Tebet.

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