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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 22 de setembro de 2021

Silvero Pereira: Foto: Arquivo Pessoal

Silvero Pereira: "Força de Bacurau é a comunidade. Nossa força é fazer diferença nas eleições"

Ele é categórico ao afirmar que o filme não é um retrato de um Brasil de hoje

Por José Eduardo Bernardes E Marina Duarte De Souza - Brasil De Fato - 21/07/2021 - 22:10:19

O ator e diretor brasileiro Silvero Pereira, marcou as telonas com o personagem Lunga no filme Bacurau , de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles , e agora comenta sobre outro personagem polêmico que se prepara para encenar, o estilista, apresentador de TV e deputado federal Clodovil Fernandes, mais conhecido como Clô.

A complexidade da personalidade forte, que acompanhava comentários conservadores e frequentes envolvimentos em polêmicas de Clô, foi o que mais "instigou" Pereira a desvendar o personagem, mesmo não sendo a favor de algumas falas do estilista, que até hoje – 12 anos depois de sua morte –, marca as publicações nas redes sociais.

"Não sou a favor de uma série de coisas ditas pelo Clô, mas enquanto ator, diante deste personagem, também há o meu dever de defesa desta figura. Afinal de contas, se eu estou me predispondo a interpretá-lo é necessário viver essa figura', explica Pereira.

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"Então, se eu vou vivê-lo, que eu consiga defendê-lo. E defendê-lo nas perspectivas não do que o Silveiro pensa, não do que a comunidade LGBTQIA+ pensa, mas sim do que, de fato, ele pensava. É preciso também entender sobre quem era esta figura, qual era a história dele, em que contexto ele estava, qual a maneira que ele foi educado, o que se passava pela cabeça dele".



Militante LQBTQIA+, o ator fala também sobre a sua trajetória e encontro com o teatro na capital cearense, onde escolheu pelo caminho de uma "arte político social" como principal vertente do seu trabalho. Foi assim que criou o companhia de teatro As Transvestidas , que desde 2008, busca trazer as discussões e representatividade para questões LQBTQIA+ junto à sociedade.


"O teatro que me deu o lugar da profissão, me deu o lugar da sustentabilidade, me deu a força que eu tenho hoje, a coragem que eu tenho hoje. Eu acredito no teatro, nesse aspecto de que com ele é possível fazer questionamentos, provocações e transformações sociais. Eu fiz um caminho por esse lado", exclama o ator, que se intitula um curioso do ofício.

A inquietação e amor pelas artes cênicas, área que se formou no Instituto Federal do Ceará, acabaram o levando para o audiovisual, seja no cinema ou na televisão. Pereira reafirma que não sabe como isso aconteceu. Ele ganhou o Troféu Grande Otelo, de Melhor Ator, do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, pela atuação no filme Bacurau .



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Sobre a obra ele é categórico ao afirmar que não é um retrato de um Brasil de hoje, mas um "Brasil de sempre", que ainda persiste no sertão do país como o interior do Ceará, como em cidades como Mombaça, onde nasceu, em que o "coronelismo, clientelismo e nepotismo" ainda ditam as regras das comunidades. Mas, para Silvero a força não está em um "Lunga".


"A gente precisa, de fato, acordar como a própria Bacurau fala. A força de Bacurau não é no Lunga, não é nas personagens individuais, é naquela comunidade. Precisamos entender isso, o grande recado do filme é a nossa força, é a nossa população. A nossa força é fazer a diferença nas eleições e que a gente saiba fazer dessa potência que temos na hora de digitar os números certos, fazer uma grande mudança", pontua.

Confira alguns trechos da conversa:

Brasil de Fato: Silvero, você pode compartilhar como está o novo projeto que está participando, a série sobre o Clodovil? Ele é um personagem complexo que além de ser conservador, tem durante a trajetória uma série de questões, inclusive, em relação aos direitos da comunidade LGBTQIA+. Como você tem se preparado para viver esse personagem e como vê a figura que era o Clodovil?

Silvero Pereira: Essa é uma série que está em fase de pré-produção, estamos finalizando ainda o roteiro. Quando eu recebi o convite pra fazer esse personagem, o que mais me instigou foi ele ser essa figura tão polêmica e, de fato, de alguns depoimentos tão conservadores, tão delicados pra nossa comunidade LGBTQIA+.

Eu sou um militante LGBTQ. Desenvolvo também o meu trabalho com a arte, em defesa da minha comunidade. Então, não sou a favor de uma série de coisas ditas pelo Clô, mas enquanto ator, diante deste personagem, também há o meu dever de defesa desta figura. Afinal de contas, se eu estou me predispondo a interpretá-lo é necessário viver essa figura. Então, se eu vou vivê-lo, que eu consiga defendê-lo.

E defendê-lo nas perspectivas não do que o Silveiro pensa, não do que a comunidade LGBTQIA+ pensa, mas sim do que, de fato, ele pensava. Volto a dizer, não estou de acordo com as coisas que ele dizia, mas é preciso também entender sobre quem era esta figura, qual era a história dele, em que contexto ele estava, qual a maneira que ele foi educado, o que se passava pela cabeça dele.

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Pra mim, o mais interessante dessa série é o Clodovil que a gente conhece da política, da televisão, da publicidade, de tudo que a gente viu dele nas redes sociais – que a gente ainda vê hoje das publicações, das falas dele – isso a gente conhece, mas quem é o Clodovil na intimidade? Quem foi essa figura? O que aconteceu com ele? Quais eram os sentimentos, quais eram os afetos e os não afetos que ele teve durante a vida, que o fizeram essa figura tão agressiva em alguns comentários?

É isso que mais me interessa desta intimidade desse personagem, que é uma coisa que poucas pessoas tem conhecimento e que eu gostaria que a série colocasse mais a frente. Eu acho que precisamos compreender o tempo também.

Eu uso muito como referência o lugar da minha família, por exemplo, meu pai e a minha mãe. Qual a dificuldade do meu pai e da minha mãe de entenderem o lugar de identidade do Silveiro? De sexualidade do Silvero.

Meu pai e minha mãe são duas pessoas, um homem analfabeto, uma mulher que estudou até o terceiro ano do Ensino Fundamental, e que passaram por uma sociedade extremamente conservadora, preconceituosa.

Eu venho de um outro tempo, e olha que eu sou da década de 1980, não tão evoluído assim. É completamente diferente do que a gente vive hoje, das perspectivas de respeito e diversidade que a gente tem hoje.

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Eu compreendi que talvez eu fosse o movimento de desconstrução do meu pai e da minha mãe. Talvez fosse eu, de fato, a pessoa que levaria para dentro de casa mais informações, esse lugar da falta, do afeto que eu tô falando, do aconchego, do acolhimento. Assim eu consegui modificar isso dentro da minha família, com os meus pais, com os meus irmãos, com os meus sobrinhos.

A gente precisa entender os contextos históricos também. Não acho que é perdoável a cena do que eu estou querendo colocar aqui, é que, “ah, não, não vamos, então, colocar a culpa no tempo. Pessoas poderiam ter feito isso”. Bom, as pessoas poderiam ter feito?

Poderiam, mas nós também precisamos levar em consideração que as consequências de 30, 40 anos atrás, são completamente diferentes das consequências que se tem hoje ao se abrir, ao se falar sobre esse assunto e eu acho que precisamos respeitar também essas histórias.

Falando da sua trajetória, como se deu o início da sua carreira artística? Você é de Mombaça no Ceará, começou lá ou veio a se desenvolver quando você chega a Fortaleza, onde você se forma em artes cênicas e monta dois grupos de teatro importantíssimos para a cena artística?

Eu lembro que quando criança sempre tive disposição pra arte, mas eu não tinha conhecimento sobre o que significava isso na minha vida. O que eu sabia era que eu gostava de pintar, de desenhar, dançar, de assistir as coisas, mas eu não tive contato com arte.

Quando eu me mudo pra Fortaleza, eu me mudo com a perspectiva de profissão e de pensar. Eu quero mudar a vida da minha família, eu quero fazer a diferença, me formar como doutor, trabalhar, levar dinheiro pra dentro de casa.

Eu não pensei em ir pra Fortaleza para me tornar artista, só que quando eu entro na Escola Técnica Federal, eu sou apresentado a uma peça de teatro. E ao ver isso, eu fui arrebatado por aquele sentimento. E no dia seguinte, eu falei: “É isso que eu quero fazer da minha vida! Eu quero me inscrever na oficina de teatro, eu quero fazer teatro”.

Foi assim desde então, por volta de 1997, que me inscrevi e fui entrar no lado profissional.

E você fundou em Fortaleza dois grupos teatrais, como se deu esta criação? Como era a cena por lá nesse momento? As Travestida s, que é um desses grupos, sempre foi um grupo ativista. Nunca foi simplesmente pra ser divertido ou só por entretenimento, sempre teve muito ativismo envolvido na sua produção artística?

As Travestidas começa já quando eu já era um profissional dentro das artes cênicas. Eu já estava fazendo faculdade na área, eu não era mais um estudante de teatro, eu já estava me formando como ator.

Dentro da classe artística, em 2002, comecei a perceber este lugar que foi sempre tão permissivo, tão aberto, tão incrível, que me permitiu me reconhecer, que me permitiu me assumir, me mostrar pras pessoas quem eu era de verdade, era um lugar extremamente violento também no que se refere às questões de diversidade de gênero.

Diversas vezes eu me emocionei muito mais em dois minutos de dublagem do que em peças de duas horas com grandes atores.

A classe artística cearense, julgava todo e qualquer artista que tentasse fazer algum trabalho travestido. A classe artística dizia que esses atores não tinham coragem de assumir a sua sexualidade e usavam o teatro pra isso.

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