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Site alemão demite escritor brasileiro por tuíte satírico

Site alemão demite escritor brasileiro por tuíte satíricoFoto: Estadão

“O brasileiro só será livre quando o último Bolsonaro for enforcado nas tripas do último pastor da Igreja Universal”, tuitou João Paulo Cuenca no começo da semana.

Estadão Conteúdo - 21/06/2020 - 08:43:18

“O homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre”, escreveu Jean Meslier (1761).

“O brasileiro só será livre quando o último Bolsonaro for enforcado nas tripas do último pastor da Igreja Universal”, tuitou João Paulo Cuenca no começo da semana.

A frase é uma releitura da a defesa do estado laico feita no século XVIII.

Foi adaptada e pichada também nas ruas de Paris em maio de 1968: “E depois de estrangular o último burocrata nas tripas do último sociólogo, ainda teremos problemas?”

Porém, a sátira do escritor brasileiro alimentou um linchamento organizado por internautas de direita, encabeçado por Rodrigo Constantino, e motivou sua demissão do site DW Brasil, página brasileira da Deutsche Weller, império broadcaster alemão, de que era colunista.

Que despachou: “A Deutsche Welle comunica que deixa de publicar a coluna quinzenal Periscópio, de J.P. Cuenca, após o colunista ter escrito, em perfil privado nas redes sociais, mensagem que contraria os nossos valores.”

E se explicou: “A Deutsche Welle repudia, naturalmente, qualquer tipo de discurso de ódio e incitação à violência. O direito universal à liberdade de imprensa e de expressão continua sendo defendido, evidentemente, mas ele não se aplica no caso de tais declarações.

As ligações da Igreja com a direita são notórias em toda a Europa. Estados laicos a combatem, como a França, que deixa suas igrejas aos cupins.

Provocações contra igrejas e sátiras são temas recorrentes da literatura e dramaturgia, de Voltaire a Molière.

ILUMINISMO “Só haverá liberdade quando o último rei for enforcado ...

Na Itália, sede da Igreja Católica, tem o ditado: 50% são católicos, 50% odeiam o Papa.

Aliás, a autonomia do Vaticano foi um presente de Mussolini à Igreja.

Meu bisavô anarquista italiano cantava: “Bandiera rossa nelle mani, il santo Papa sarà migliorato…” (com bandeira vermelha nas mãos, vamos enforcar o Papa).

Cuenca escreveu numa rede social:

“Ainda estou perplexo diante do comunicado mentiroso, covarde e difamatório publicado pela DW Brasil na tarde de ontem [18 de junho]. É desconcertante ver um veículo alemão caindo no jogo persecutório de elementos fascistas no Brasil e me perguntar se ele teria feito a mesma coisa em outros momentos da história da Alemanha.”

Afirma que tomará medidas cabíveis pela imputação de “discurso de ódio”.;

“Não aceito ser e caluniado e difamado, de forma alguma, pela imprensa supostamente livre e democrática que deveria me apoiar contra um linchamento virtual de origem fascista que contou com dezenas de ameaças de morte recebidas via inbox nas últimas 72 horas. O meu tuíte em questão não contém discurso ‘de ódio e incitação à violência’ e qualquer um com o mínimo de leitura é capaz de perceber isso.

“Agindo dessa forma covarde, a DW Brasil manda o pior tipo de recado a essas milícias fascistas: que elas podem empreender coação e censura no Brasil – e, pior, contar com o apoio da imprensa pública alemã para isso.”

Colunista desde 2003 dos veículos Tribuna da Imprensa, Jornal do Brasil, Globo, Globonews, Folha de SP, Intercept, lembra que nunca sofreu retaliação por suas opiniões.

Veio de um site de notícias alemão e causou revolta entre escritores, jornalistas e intelectuais brasileiros, de Afonso Borges, Paulo Scott a Márcia Tiburi.

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