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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 25 de junho de 2022

Sob aplausos e emoção, corpo de Sigmaringa Seixas é enterrado no DF

Sob aplausos e emoção, corpo de Sigmaringa Seixas é enterrado no DFFoto:

Despedida no Cemitério Campo da Esperança reuniu familiares, amigos, admiradores e muitas autoridades. Lula mandou coroa e carta.

Por Ana Luiza Vinhote - Foto: Felipe Cardoso - Portal Metrópoles - 26/12/2018 - 21:57:06

Amigos, políticos, autoridades e familiares se despediram de O advogado morreu nessa terça-feira (25/12) e foi enterrado na tarde desta quarta (26), no Cemitério Campo da Esperança da Asa Sul. Sem autorização da Justiça para ir ao velório, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que está preso na carceragem da Polícia Federal em Curitiba (PR), encaminhou uma coroa de flores à família do advogado.

O petista também enviou uma , que foi lida pelo deputado distrital Chico Vigilante (PT) pouco antes do sepultamento. “Foi com profunda tristeza que recebi a notícia da morte do meu grande amigo e companheiro de vida Luiz Carlos Sigmaringa Seixas. Nosso Sig teve a delicadeza de nos deixar no dia Natal, uma data em que a sensibilidade das pessoas está voltada para o amor e o bem, que foram a marca de sua passagem pela Terra. Saudades para sempre e um abraço carinhoso do amigo”, escreveu.

Lula lembrou a trajetória de Sigmaringa e a honra de tê-lo como advogado. “Mas principalmente o privilégio de ter o Sig como amigo leal e generoso, convivendo familiarmente com você, Marina, e com nossa querida Marisa. Estes momentos são as melhores que levarei de você”, assinalou o ex-presidente.

Na carta, Lula ainda elogiou a “decência, ética, dignidade, independência e honestidade intelectual de Sigmaringa”. “Prova disso é que o convidei duas vezes para a nossa Suprema Corte e ele recusou, com o argumento de que não se sentia preparado para a função, praticando um desprendimento raro, mas não surpreendente vindo dele.”

Nas palavras finais, lidas com emoção por Vigilante, Lula destacou: “A vida segue, companheiro Sigmaringa. Com a certeza de que o seu sonho de um Brasil de paz, fraternidade, de justiça social ainda se transformará em realidade, por obra do nosso povo maravilhoso e de pessoas como você”.

O presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, esteve no velório e comentou a decisão da Justiça. “Está cumprindo um dispositivo legal. Mas, neste caso, é um amigo de mais de 30 anos, que era seu advogado e reconhecido quase como da família. Porém, é uma interpretação. Assim como às vezes interpreta ajudando, também interpreta de outras formas. E o Lula lamentavelmente tem tido péssimas interpretações”, alfinetou.

Por volta das 16h30, o corpo de Sigmaringa foi sepultado, sob forte emoção e muitos aplausos. Marina, viúva do advogado, agradeceu o carinho de familiares e amigos. Ela também pediu orações para que “Sig descanse em paz”.

O ex-governador da Bahia Jaques Wagner disse que as decisões da Justiça em relação a Lula estão “beirando o sadismo”. “Lula não é nenhuma ameaça. Mesmo que não seja um vínculo familiar, é pública a amizade longuíssima entre eles. Qual o mal que faria uma pessoa que está presa há oito meses?”, assinalou. Durante o cortejo, os presentes gritavam nome de Sig e “Lula livre”.

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, chegou cedo ao Campo da Esperança: “Pessoa extremamente importante para a história de Brasília e do Brasil. Foi relator da autonomia do Distrito Federal na Constituinte e isso transformou a cidade. Teve um papel importante na transição democrática, de conciliador, buscando unir as pessoas. Um bom amigo, jogávamos futebol juntos”.

Por volta das 11h, o governador eleito do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), foi ao cemitério para se despedir de Sigmaringa. Ele ficou cerca de 20 minutos no local. Na saída, fez muitos elogios ao advogado e amigo, que sempre o aconselhava.

“Nesse momento não tem esquerda, direita, não tem PT não tem MDB. Estamos perdendo um homem culto da mais alta relevância e qualidade na cidade. Brasília está aos prantos”, assinalou o advogado e ex-presidente da Ordem no DF (OAB-DF).

O governador Rodrigo Rollemberg (PSB) chegou por volta das 15h30 e acompanhou o sepultamento. Ele lamentou a perda. “Foi uma grande referência política pelo seu legado ético, pela sua conduta, pela sua defesa aos diretos humanos. Fui eleitor, admirador, seguidor. Tenho ele como uma referência importante para a minha vida política”, pontuou.

O ex-secretário da Saúde do DF Jofran Frejat (PP) e o deputado distrital Chico Vigilante (PT) também acompanharam o velório desde as primeiras horas no Cemitério Campo da Esperança. “É uma grande perda. E ele ficou me devendo. Combinamos de tomar um vinho juntos, mas Deus vai dar um jeito”, disse Frejat.

“Sentimento de perda completa. Era um dos meus melhores amigos e um dos maiores juristas desse país. É o homem mais sério e humilde que conheci. Grande perda para o mundo político e jurista”, completou o petista.

O ex-procurador-geral da República Roberto Gurgel também foi se despedir do advogado. “Conheço o Sig desde que cheguei a Brasília, em 1982. Ele era amigos de amigos. Nossa amizade se fortaleceu na Constituinte. Fará muita falta, sobretudo no momento que vivemos no país.”

Sigmaringa Seixas perdeu a batalha para um câncer. Ele chegou a fazer um transplante de medula há alguns dias no Hospital Sírio-Libanês de São Paulo, mas não resistiu às complicações do procedimento.

Carioca, tornou-se um advogado conhecido e respeitado por atuar em causas humanistas. Defendeu estudantes da Universidade de Brasília (UnB) e sindicalistas. Também militou ao lado de petistas durante muitos anos. Ele foi deputado federal constituinte e acabou reeleito por duas vezes. Ele deixa a esposa, Marina, e dois filhos.

Formado em direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Sigmaringa foi deputado federal pelo DF entre 1987 e 1995 e também entre 2003 e 2007.O ex-parlamentar era filho de Antônio Carlos Sigmaringa Seixas, que presidiu a Ordem dos Advogados do Brasil no Distrito Federal (OAB-DF) nos anos 1970 e morreu em janeiro de 2016.

Sigmaringa Seixas tornou-se um célebre advogado durante a ditadura militar, quando defendeu vítimas de abusos. Muito próximo do bispo Dom Evaristo Arns, igualmente defensor dos direitos humanos, Seixas ajudou a montar o relatório Brasil: Nunca Mais, que compilou dados sobre a tortura aplicada aos opositores do regime.

Além de atuar na esfera dos direitos humanos, Sigmaringa era militante radical da necessidade de diálogo entre grupos antagônicos. Próximo aos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ele tentou, em vão, organizar um encontro de ambos ao longo do processo de impeachment de Dilma Rousseff.

Sigmaringa filiou-se ao PT, mas, ainda assim, manteve os laços de proximidade com o PSDB. Ele chegou a ser padrinho do filho de Pedro Parente, ex-ministro-chefe da Casa Civil de FHC e presidente da Petrobras no governo de Michel Temer.

Em sua conta pessoal no Facebook, Rafael Parente, seu afilhado, contou que visitou Seixas no hospital antes do falecimento. “Ontem [24/12] foi a nossa última conversa, na UTI. Ele, mesmo frágil, fazia perguntas e piadas, como de costume”, narrou.

Com perfil conciliador, Sigmaringa articulou em 1998 o apoio de José Serra (PSDB), então ministro da Saúde, à candidatura de Cristovam Buarque ao governo. Seixas era seu vice. No mesmo pleito, o presidente tucano FHC apoiou o opositor de Cristovam e vencedor das eleições, Joaquim Roriz.

Seixas chegou a ser cotado para assumir uma vaga como ministro do Supremo Tribunal Federal em 2006, com a aposentadoria do ministro Carlos Velloso. No seu lugar, entretanto, acabou escolhido Ricardo Lewandowski.

Ele manteve, de qualquer forma, a amizade com Lula e ficou parcialmente responsável por sua defesa no processo que levou o ex-presidente à cadeia. Segundo relatos do jornal Folha de S. Paulo, foi Sigmaringa quem arrumou a cama do ex-presidente na primeira noite que Lula passou na carceragem da Polícia Federal em Curitiba, no dia 7 de abril.

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