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Sou deputada, mas vivo programada para me proteger do racismo, diz Érica Malunguinho

Sou deputada, mas vivo programada para me proteger do racismo, diz Érica MalunguinhoFoto: Érica Malunginho - Alesp

Deputada estadual fala sobre o racismo estrutural, a política genocida de Bolsonaro e união para derrotar bolsonarismo

Por José Eduardo Bernardes - Brasil De Fato - 21/06/2021 - 15:34:33

O caso de racismo envolvendo Matheus Ribeiro e dois jovens brancos no Leblon, bairro de classe média alta do Rio de Janeiro, evidenciou como a prática do crime está estruturalmente arraigada no Brasil.

Para a deputada estadual Érica Malunguinho (PSOL-SP), pessoas negras sempre terão que negociar seu pertencimento em espaços tradicionalmente dominados pela branquitude.

“Não adianta pessoas negras se deslocarem economicamente, se deslocarem socialmente, se deslocaram culturalmente do projeto que nos coloca em vulnerabilidade, não adianta. Se a gente adquirir algum bem de consumo, ou estiver em lugares de sociabilidade branca, a gente sempre será colocado como alguém a negociar o pertencimento, a negociar a existência”.


Malunguinho é a convidada desta semana no BDF Entrevista. Na conversa, a deputada lembra que, apesar de ter “acesso à escolarização, uma condição econômica diferente da maioria da população negra brasileira”, ainda vive “programada para me proteger das violências raciais”.

“Eu entro no supermercado, se eu estiver com uma sacola, eu dou um nó na sacola que eu estou, para que ninguém ache que eu vou colocar alguma coisa dentro. Eu evito ao máximo abrir a bolsa para pegar celular. Se for atender o celular eu me afasto de tudo, me coloco em uma situação bem visível e pego o telefone. Eu vejo um carro da polícia, eu acho que ele vai me parar e fico elaborando mentalmente os códigos de abordagem policial.”

A deputada ainda comenta sobre o racismo estrutural do país, a política genocida do governo Bolsonaro e as articulações necessárias para derrubar o bolsonarismo do poder.

“Derrotar Bolsonaro deve ser uma missão de todas as pessoas que têm o mínimo de responsabilidade, de humanidade. É quase independente de quem estiver na disputa. Estou falando isso não da minha posição, eu tenho muito bem estabelecida qual é a minha escolha, meu lugar, que está obviamente no campo da esquerda. A gente tem que batalhar por algum nível de união para que a derrocada do bolsonarismo possa acontecer.”

Confira alguns trechos da entrevista:

Brasil de Fato: No caso de racismo com o jovem Matheus Ribeiro, em um bairro de classe média alta do Rio de Janeiro, você fez uma série de postagens de como pessoas negras precisam, sempre, se defender, estarem atentas. E este racismo atravessa inclusive classes sociais, não é?

Érica Malunguinho: Não adianta pessoas negras se deslocarem economicamente, se deslocarem socialmente, se deslocarem culturalmente do projeto que nos coloca em vulnerabilidade, não adianta. Se a gente adquirir algum bem de consumo, ou estiver em lugares de sociabilidade branca, a gente sempre será colocado como alguém a negociar o pertencimento, a negociar a existência.

Isso é uma programação que a gente aprende desde criança. Nossos pais, familiares e tutoras que cuidam de crianças negras, já fazem essa programação desde sempre, por uma questão de sobrevivência.

Até hoje, eu estou uma deputada, eu tenho acesso à escolarização, fiz um mestrado, tenho uma condição econômica diferente da maioria da população negra brasileira, mas eu vivo ainda, e continuarei, programada para me proteger das violências raciais.

Eu entro no supermercado, se eu estiver com uma sacola, eu dou um nó na sacola que eu estou, para que ninguém ache que eu vou colocar alguma coisa dentro. Eu evito ao máximo abrir a bolsa para pegar celular. Se for atender o celular eu me afasto de tudo, me coloco em uma situação bem visível e pego o telefone. Eu vejo um carro da polícia, eu acho que ele vai me parar e fico elaborando mentalmente os códigos de abordagem policial.

Eu ando com telefones de emergência fixados no meu celular para falar com pessoas que possam me socorrer em alguma situação. Estou falando de mim, mas sei que isso é um relato comum da maioria das pessoas negras deste país.

O racismo é o mesmo, de norte a sul, ele atravessa a geografia. Ele atravessa as barreiras de classe, porque, mesmo pessoas pretas de classe média, elas também estão fadadas a negociar o pertencimento.

Se a filha de Taís Araújo e Lazaro Ramos, de Beyoncé, de Bruno Gagliasso, quem quer que seja, estiver circulando em um espaço que é determinado pela branquitude, essas crianças não têm na testa deles um crachá, filho de y ou z, eles vão ser submetidos a mesma violência racial, porque a questão de raça é um fundamento, ela não é um recorte dentro do conjunto de negociações do processo de sociabilidade.

A senhora acredita que o genocídio da população negra tem se intensificado a partir do que se poderia chamar de um salvo conduto dado pela proximidade entre Bolsonaro e as forças militares do país?

Não podemos esquecer que desde a fundação do MNU (Movimento Negro Unificado) nas escadarias do Theatro Municipal, o movimento negro precisa condenar o genocídio da população negra.

E o bolsonarismo é o rompimento total de qualquer pacto de civilidade, de qualquer condição de civilidade. Essa relação obtusa, nebulosa entre o poder político institucional e o bolsonarismo, é extremamente perigosa e danosa. Principalmente quando esse poder militar está a serviço de uma prática política que é de extermínio.

A gente pode dizer que tem práticas políticas que não verbalizam isso, que não colocam isso como projeto, mas a gente sabe que o bolsonarismo coloca isso como um projeto de sociedade. Assim como o Witzel “atira na cabecinha”, assim como Alckmin, “bandido bom é bandido morto”, assim como João Doria, assim como Bolsonaro, que não tem nenhum tipo de relação com as humanidades.

A gente está vivendo isso nesse cenário, potencializado pela fome e o desemprego. É um coquetel perfeito para eclosão de todas as violências e consequentemente da repressão do Estado, ao que ele acha que é violência efetivamente.

Nas próximas eleições, a tendência é de um choque ainda maior, de uma tensão mais acentuada. Tem receio de como transcorrerá esse pleito?

Fui eleita em 2018, exatamente quando o Bolsonaro se elege. É extremamente simbólico, a eleição da primeira deputada transexual no Brasil, dentro de um cenário bolsonarista. Eu vejo que há uma mudança acontecendo. As eleições de 2020, que colocaram inúmeras parlamentares LGBTs e pretas nas câmaras municipais, eu vejo isso como um sopro de esperança e sinais positivos para 2022.

Ao mesmo tempo, eu fico extremamente preocupada com o tanto de esforço que a oposição, a grande mídia e setores da sociedade civil estão fazendo para derreter o Bolsonaro e ele não derrete.

Me preocupa ver que ele tem esse número de aprovação, saber que ele ainda está em pé de disputa como nomes como o próprio ex-presidente Lula, com quem não há comparação em termos de liderança política, de gestão pública, é uma distância abissal entre esses dois políticos.

Ainda há uma dúvida e ela ainda não está perceptível nas análises. A gente não está conseguindo capturar e perceber onde está essa dúvida que apoia Bolsonaro. A gente sabe que tem núcleo bolsonarista raiz, que é a face da população brasileira que nós não nos deparávamos de forma tão explícita: que são racistas sim, que são gordofóbicos, LGBTfóbicos, que são absolutamente incompatíveis com qualquer parâmetro de democracia.

Derrotar Bolsonaro deve ser uma missão de todas as pessoas que têm o mínimo de responsabilidade, de humanidade. É quase independente de quem estiver na disputa. Estou falando isso não da minha posição, eu tenho muito bem estabelecida qual é a minha escolha, meu lugar, que está obviamente no campo da esquerda. A gente tem que batalhar por algum nível de união para que a derrocada do bolsonarismo possa acontecer.

Edição: Vivian Virissimo

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