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Tarsila do Amaral. Uma pintora que apostou nas cores do Brasil

Tarsila do Amaral. Uma pintora que apostou nas cores do BrasilFoto: eBiografria.com.br

Em entrevista, a professora, pesquisadora e biógrafa Nádia Batella Gotlib detalha o percurso da artista e ressalta a importância de suas obras

Por Carlos Andrei Siquara-o Tempo - 06/05/2019 - 06:47:43

Nádia Batella Gotlib

A biógrafa Nádia Batella Gotlib destaca os diálogos entre Tarsila do Amaral e Oswaldo de Andrade, a quem dedicou o quadro "Abaporu"

Autora da biografia “Tarsila do Amaral, a Modernista”, Nádia Batella Gotlib comenta a trajetória da artista que está sendo homenageada com uma grande exposição no Museu de Arte de São Paulo (Masp). Ela também reflete sobre o significado das escolhas feitas pela pintora paulista no contexto da arte brasileira e ressalta a importância do seu legado.

Tarsila do Amaral e Anita Malfatti são reconhecidas por terem contribuído para o desenvolvimento da pintura modernista no Brasil. Diferentemente de Anita, Tarsila conseguiu inserir-se melhor nesse contexto. Por quê?

Mário de Andrade afirma, acertadamente, referindo-se às duas pintoras, que a pintura modernista no Brasil tem início com Anita Malfatti e termina com Tarsila do Amaral. Longe de afirmar que essa pintura tem um fim, o que ele propõe, no meu entender, é que há duas pontas importantíssimas no percurso das artes plásticas no Brasil feito por mulheres. De fato, a exposição de Anita, em 1917, abriu o caminho. Sua tela “O Homem Amarelo”, por exemplo, já propagava a primazia da cor, as pincelada fortes, a figura sentada de modo desleixado, rompendo com os “bons modos” do retrato clássico. E a arte de Tarsila, de certa forma, consolidou esse processo de manifestação feminina nas artes plásticas. Nesse contexto, há que se considerar que o contato entre as duas pintoras também colaborou para levar Tarsila para o território modernista: enquanto estava na Europa, em 1921-1922, Anita lhe contava o que estava acontecendo no Brasil no campo das artes. Em 1922, quando Tarsila chega da Europa, depois da Semana de Arte Moderna, a aproximação entre as duas continua. Nos anos seguintes, Tarsila vai algumas vezes para a Europa, mergulha nas vanguardas, e a relação entre as duas passa por alguns períodos de instabilidade. Hoje, pode-se afirmar que a obra de Tarsila tem repercussão maior que a de Anita. Pelo menos é o que se observa a partir das exposições mais recentes de Tarsila em Chicago, Nova York, e agora no Masp, em São Paulo, que permitiram o acesso de sua obra a um público amplo e global.

Em sua biografia, você conta que a própria Tarsila não entendeu a proposta dos quadros de Anita Malfatti. Mas ela não a rejeitou, como fez Monteiro Lobato. Podemos dizer que Tarsila, ao contrário de Lobato, buscou investigar melhor o que estava acontecendo no mundo das artes no início do século XX?

São dois pontos de vista bem diferentes em relação à obra da artista Anita: o do crítico e o da artista. Acho bem interessante o artigo de Monteiro Lobato, publicado na imprensa, que acabou sendo conhecido como “Paranoia ou Mistificação?”. Embora seja uma leitura bem negativa da obra de Anita, levanta questões fundamentais do ponto de vista da recepção da obra de arte: como o espectador reage diante de uma obra que usa recursos até então por ele não previstos ou desconhecidos? No caso de Lobato, a saída é de autodefesa: tudo bem com ele, Lobato, o espectador; a arte de Anita é que era “anormal”. Quanto a Tarsila, sempre se manteve aberta a novas experiências no campo da arte. Tanto em São Paulo, quando estudou com professores de linhagem mais acadêmica e tradicional, quanto em Paris, no período em que teve contato com a mais avançada vanguarda europeia e tornou-se amiga de artistas famosos, como (Pablo) Picasso e (Fernand) Léger.

Grande parte da formação de Tarsila se deu na Europa, com atenção especial ao cubismo. Mas por que ela teria afirmado que seu conhecimento da pintura modernista se deu, de fato, no Brasil?

Porque o seu contato com a arte modernista aconteceu, de fato, quando ela voltou da Europa, em 1922, e passou a frequentar assiduamente o “grupo dos cinco” (Tarsila, Anita, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia) e a cultivar no Brasil amizade com outros artistas e intelectuais ligados ao movimento modernista. Posteriormente, de volta para a Europa, teria lições com novos mestres ligados ao cubismo e passaria, então, a registrar, por exemplo, formas geométricas variadas. Mas a essa altura já teria passado por essa experiência de um repertório novo, bem “brasileiro”, que lhe chegara pelo seu contato intenso com o grupo modernista que participou da Semana de 22.

Em poema escrito para Tarsila, Drummond pontua que a artista estava reaprendendo tons “desprezados pelo doutor bom gosto oficial”. O que representou as escolhas feitas por Tarsila?

Ela voltou seu olhar para a arte popular brasileira, até então desprezada pelo tal “bom gosto oficial”. Daí recuperou as chamadas “cores de baú” que encontrou, por exemplo, na arte mineira que conheceu de perto na sua viagem ao interior de Minas em 1924. Pintou altares de santos, remontando às flores de papel crepom que conhecera em altar da cidade de São Vicente, no litoral de São Paulo. E optou por cores fortes e alegres. Sem medo de ser feliz. Em 2018, o “Abaporu” completou 90 anos. O quadro inspirou Oswald de Andrade a desenvolver o Movimento Antropofágico. Mas, para além desse exemplo, houve outros momentos em que criações dela inspiraram os escritos dele, e vice-versa? Sim. E mais frequentemente no período em que viveram uma relação conjugal. O livro “Pau-Brasil”, de Oswald de Andrade, publicado em Paris, em 1925, portanto do período pau-brasil, anterior ao da antropofagia, é um bom exemplo dessa conjugação bem-sucedida: há ali poemas de Oswald e desenhos de Tarsila. Cada um na sua modalidade – a literatura e o desenho –, mas integrados num mesmo “sistema” estético, o da arte pau-brasil, que remonta às nossas riquezas primeiras para ali redescobrir um Brasil livre, sem as amarras da civilização repressora, movido pela alegria, ironia, e também com espírito crítico aguçado.

Tarsila teve três principais fases, sendo a terceira mais social. Como ela entendia o papel do artista na sociedade?

Essa fase social acontece paralelamente a uma nova relação amorosa, então com Osório César, psiquiatra marxista. Eles fazem juntos uma viagem à Rússia. Retornam para o Brasil em 1931. E em 1932 Tarsila é presa durante um mês em São Paulo, sob suspeita de ser comunista. Mas o próprio Osório César não reconhece em Tarsila um ímpeto revolucionário. Nem há nos seus textos questionamentos sistemáticos sobre o papel social do artista. Seja como for, movida ou não por um compromisso com ideologia de esquerda, o fato é que a artista manifestou ter profunda consciência social e sensibilidade diante do proletariado. Se assim não fosse, não teria pintado “Operários”, em 1933.

Cinquenta anos depois de sua primeira grande retrospectiva no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, Tarsila tem agora sua obra exposta no Museu de Arte de São Paulo. Qual olhar você acha que ela deixou como legado para a arte brasileira?

O maior legado de Tarsila é o de ter recuperado, de modo criativo e inovador, as nossas raízes culturais, a partir dos anos 1920, ao rever nossos valores, crenças, costumes, cores, espaços, num registro engatado nos novos procedimentos estéticos em voga na Europa. Natural que, com esse repertório, fiel a nossa terra e a nossa gente, sensível, pois, à inclusão social, e mediante procedimentos avançados para a época, sua arte permaneça afinada com os nossos tempos, quase um século depois.

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