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Técnica de enfermagem morre 8 dias após gravar vídeo com apelo: 'Não saiam'

Técnica de enfermagem morre 8 dias após gravar vídeo com apelo: 'Não saiam'Foto: Reprodução

Daniele Costa, técnica de enfermagem

Herculano Barreto Filho Do Uol, No Rio - 29/04/2020 - 06:50:12

Oito dias antes de morrer por causa da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, a técnica de enfermagem Daniele Costa fez um apelo para que as pessoas seguissem o isolamento social. O registro foi feito em um vídeo de 22 minutos publicado no seu perfil no Facebook.

Hoje à tarde, parentes postaram na rede social que o sepultamento de Daniele será restrito, por causa da pandemia. "Estaremos realizando uma live para que todos possam se despedir da nossa Pretinha". Internada desde a última quinta-feira (23) no CTI do Hospital Estadual Zilda Arns, em Volta Redonda (RJ), Daniele morreu segunda-feira (27).

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O Cofen (Conselho Federal de Enfermagem) já contabiliza 44 mortes por covid-19 e outros 15 óbitos ainda em análise no país. Segundo a entidade, 7.883 profissionais de saúde já foram afastados do serviço por causa da pandemia. No final da tarde de hoje, a Secretaria Estadual de Saúde do Rio informou o registro de 8.504 casos confirmados e 738 óbitos por coronavírus no estado. Há ainda 259 óbitos em investigação.

Quem puder? Fiquem em suas casas, cuidem da imunidade de vocês. Minha mãe não gosta que eu me exponha. Mas eu vou me expor. Aqui ao lado da minha casa, tem reuniões todos os dias. Isso me entristece. Tá ouvindo essa música? É assim todos os dias. Fico morrendo de medo de eles [vizinhos] ficarem doentes também

Daniele Costa, técnica de enfermagem

"Deixem para comemorar depois. Não é o momento de vocês ficarem se reunindo. Vocês estão botando a vida de vocês e de outras pessoas em risco", completou ela no vídeo publicado em seu perfil no Facebook no dia 19.

Daniele falou ainda sobre os sintomas e o avanço da doença. "Comecei com uma tosse seca. No dia seguinte, comecei a sentir febre. Fiquei muito cansada", contou. "Eu não quero que passem pelo que eu passei. É muito difícil. Cada dia é uma coisa diferente. Já tive diarreia, minha boca tá muito amarga e estou perdendo o apetite", disse.

Em seguida, afirmou ter procurado atendimento no Hospital da Posse, em Nova Iguaçu (RJ), onde morava e trabalhava na UPA do bairro Austin. "Tive vários aborrecimentos. Quem é da área de saúde sabe como funciona o sistema. Realmente, foi uma experiência muito ruim. Mas o médico me atendeu bem. Ele estava sozinho no plantão desde as 7h. Já eram 20h e ele ainda não tinha se alimentado."

Ela também falou de outros casos de pessoas infectadas. "Tive notícia de que uma família inteira está contaminada. Nessa família, duas pessoas já faleceram. E eram pessoas jovens. Quantos amigos, técnicos de enfermagem, enfermeiros, médicos, estão sendo contaminados? [Conheço] médicos que estão intubados, lutando pela vida. E as pessoas ainda estão achando que é brincadeira", criticou.

"É agoniante você ver que as pessoas estão ali, curtindo o momento. Mas não sabem se amanhã vão estar contaminadas ou se vai ter leito para elas. Queria muito que as pessoas tivessem a consciência de que é uma doença grave e sem tratamento."

Ela chorou ao falar sobre o isolamento, dentro de casa. "Minha família não tem contato comigo. Minha irmã deixa a comida na escada e vai embora. Eu fico muito triste", desabafou.

Mas voltou a sorrir ao agradecer o apoio da família. "Minha família me paparica muito. Minha tia trouxe um suco horrível pra mim. Já rimos bastante da história do suco. Mas é um suco que é necessário, que é para fortalecer o meu sistema imunológico, né? Mas depois disso, eu não vou querer saber desse suco não, gente. É muito ruim. Meu pai manda comida pra mim como se fosse para um batalhão", contou sorrindo.

E se despediu com uma mensagem de otimismo. "Eu vou sair dessa, isso é só um susto. Sei que estão preocupados comigo. Mas eu estou bem. Vai ser vitória, porque a covid não vai me vencer."

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