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Tradição: Reconversão polêmica

Tradição: Reconversão polêmicaFoto: CorreioWeb

Rodrigo Craveiro - Correioweb - 11/07/2020 - 10:00:45

Conselho de Estado remove a condição de museu da antiga basílica de Santa Sofia, também conhecida como Hagia Sophia, um dos mais importantes monumentos de Istambul. Presidente Recep Tayyip Erdogan transforma o local em mesquita, a partir de 24 de julho

 (Ozan Kose/AFP)

Uma das maiores joias arquitetônicas da Turquia, além de tesouro cultural dos impérios bizantino e otomano, será reconvertida à condição de mesquita. “Foi decidido que Hagia Sophia (veja arte) será colocada sob a ‘administração Diyanet’ (Autoridade de Assuntos Religiosos) e ficará aberta às orações. (…) Faremos juntos as orações de sexta-feira em Hagia Sophia no dia 24 de julho e, portanto, será aberta aos cultos”, anunciou o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, ao assinar um decreto com a determinação, no qual usa a palavra “mesquita”. Também conhecida como a antiga basílica de Santa Sofia, a construção — iniciada pelos bizantinos no ano 360 e concluída em 537 — foi convertida em mesquita depois da tomada de Constantinopla pelos otomanos, em 1453. Quase meio milênio depois, em 1934, Mustafa Kemal Atatürk, o fundador da República da Turquia, decidiu transformar o prédio em museu, na esperança de “oferecê-lo à humanidade”.

Ontem, o Conselho de Estado, o mais alto tribunal administrativo da Turquia, acatou os pedidos de várias associações islâmicas e revogou a decisão de Atatürk, retirando o status de museu de Hagia Sophia. “O tribunal decide revogar a decisão do conselho de ministros que é objeto deste pedido”, afirmou a Corte. Em meio às denúncias de que Erdogan promove uma islamização do país, a reconversão de Hagia Sophia em mesquita foi alvo de críticas da comunidade internacional (veja quadro), de especialistas e da Unesco, agência da ONU que concedeu ao monumento o título de Patrimônio Mundial. Erdogan prometeu que uma das mais visitadas atrações turísticas de Istambul “permanecerá aberta a todos, turcos e estrangeiros, muçulmanos e não muçulmanos”. No ano passado, o local recebeu cerca de 3,8 milhões de turistas — média de quase 10,5 mil por dia.

Sectarismo

Em entrevista ao Correio, Tugba Tanyeri Erdemir, professora assistente do Departamento de Antropologia da Universidade de Pittsburgh (Estados Unidos) e uma entre 350 especialistas que firmaram uma carta aberta na qual expuseram preocupações sobre o tema, advertiu que a conversão de Hagia Sophia de museu para mesquita terá “consequências terríveis”. “A decisão do Conselho de Estado não apenas prejudicará os esforços de preservação, mas também reforçará as hierarquias sectárias e os símbolos de dominação”, comentou. Ela lembrou que Hagia Sophia é um local simbolicamente importante para o cristianismo e o islamismo. Tanto que líderes religiosos e políticos responderam aos planos de Erdogan.

Erdemir aponta questões preocupantes com a preservação de longa data de Hagia Sophia. “O monumento será retirado dos auspícios do Ministério da Cultura, sob o qual era profissionalmente mantido e conservado, e colocado sob a jurisdição da Diyanet, onde não receberá mais a atenção necessária para sua sobrevivência às gerações futuras”, explicou.

Tradição

No entanto, Murat Yavuz Ates (leia Duas perguntas para), embaixador da República da Turquia em Brasília, afirmou ao Correio que o país tem longa tradição de inscrever suas propriedades culturais e naturais na lista de patrimônios mundiais. “Essa tradição traz consigo um profundo conhecimento da Convenção do Patrimônio Mundial, assinada em 1972, e de suas diretrizes operacionais para a implementação desta convenção. A Turquia está consciente de suas obrigações e responsabilidades, incluindo em relação à cooperação com o Centro de Patrimônio Mundial da Unesco, no sentido de preservar o valor universal notável, a integridade e a autenticidade deste memorial histórico”, explicou. Ele lembra que a Convenção e as diretrizes operacionais não impõem um impedimento a direitos de propriedade de locais de patrimônio cultural, incluindo a mudança de status.

“Hagia Sophia foi e será protegida de forma adequada e meticulosa, independentemente de seu status”, assegurou o embaixador. De acordo com Ates, “Hagia Sophia permanece de pé, graças às autoridades otomanas e turcas, que preservaram e fortificaram a estrutura no devido tempo, com o objetivo de conservar esse monumento histórico para as gerações futuras”. “Apesar de todos os desastres naturais, Hagia Sophia se mantém como um patrimônio cultural significativo”, reforçou o diplomata.

“Faremos juntos as orações de sexta-feira em Hagia Sophia no dia 24 de julho

e, portanto, será aberta aos cultos”

Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia

» Duas perguntas para Murat Yavuz Ates, embaixador da República da Turquia em Brasília

Como o senhor analisa a polêmica envolvendo Hagia Sophia?

Para se compreender a recente decisão, é muito importante conhecer os fatos históricos e legais. Historicamente, Hagia Sophia foi convertida em mesquita pelo sultão Mehmet, o Conquistador, após a tomada de Istambul, em 1453. Ela tornou-se parte da Fundação Fatih Sultan Mehmet Endowment, como uma “mesquita” estabelecida pelo próprio sultão em 1462. Hagia Sophia tem sido e é, legalmente, propriedade dessa instituição. De acordo com a Lei Turca sobre Doações, uma propriedade (hayrat) deveria ser usada de acordo com a função descrita no documento de fundação (Waqfiye). Por quase 500 anos, Hagia Sophia foi usada como mesquita. Por estar perto do Palácio Topkapi, que serviu como residência do sultão e QG do Império Otomano, é uma mesquita protocolar muito importante. Somente virou museu em 1934, de acordo com a decisão do Conselho de Ministros. Na realidade, Hagia Sopria tornou-se museu não de uma igreja, mas de uma mesquita que foi funcional por quase meio milênio. A Corte anulou a decisão de 1934 que convertia Hagia Sophia em museu. É uma decisão legal, e esperamos que cada Estado a respeite. Estamos comprometidos com o Estado de direito — o princípio de governança mais essencial.

Pelo fato de Hagia Sophia ser ponto focal para as culturas bizantina cristã e otomana muçulmana, além de tesouro para o mundo, como vê as críticas da comunidade internacional?

Hagia Sophia é um dos monumentos arquitetônicos mais extraordinários do mundo. Estamos profundamente conscientes de seu notável valor cultural, histórico e espiritual. Como mencionei, Hagia Sophia serviu como mesquita, e não como igreja, por quase 500 anos. Devo salientar que muitas igrejas foram autorizadas a continuarem a funcionar depois da conquista de Istambul. Em toda a Turquia, embora exista uma população muito pequena de cristãos e judeus, há muitas igrejas históricas e sinagogas em funcionamento. Nós respeitamos muito os locais de culto. (RC)

» Repercussão

Unesco

» A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) instou “as autoridades turcas ao diálogo imediato” e anunciou que pode revistar o status de Patrimônio Mundial de Hagia Sophia.

Rússia

» A Igreja Ortodoxa Russa demonstrou “consternação” e acusou a Turquia de ignorar milhões de cristãos. Também alertou sobre o risco de mais divisões entre os turcos. Vladimir Dzhabarov, vice-presidente do Comitê de Assuntos Externos da câmara alta do Parlamento russo, disse que “transformar Hagia Sophia em mesquita nada fará pelo mundo muçulmano” e apontou um erro. “Isso não une as nações; pelo contrário, leva-as à colisão.”

Grécia

» A ministra da Cultura da Grécia, Linda Mendoni, denunciou uma “provocação aberta ao mundo civilizado”. “O nacionalismo exibido pelo presidente Erdogan leva seu país de volta seis séculos”, declarou, ao apontar “uma provocação aberta para o mundo civilizado”.

Estados Unidos

» A porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Morgan Ortagus, se disse “desapontada” pela decisão da Turquia e acrescentou que os EUA desejam ouvir os planos do governo turco sobre a administração de Hagia Sophia, a fim de que ela permaneça acessível, sem impedimentos, a todas as pessoas”.

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