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Tragédia em Brumadinho, devastadora e pré- anunciada

Tragédia em Brumadinho, devastadora e pré- anunciadaFoto: noticias.r7.com.

O Mar Sem Fim continua perplexo, e de olho. A tragédia em Brumadinho é o maior acidente do mundo, entre mineradoras, em número de mortes. E a Vale S.A já é a responsável pela maior tragédia ambiental do Brasil, três anos atrás, em Mariana, quando 19 pessoas morreram soterradas, e o distrito de Bento Rodrigues foi riscado do mapa. Agora, a Vale repete a dose macabra matando centenas. A empresa é responsável pela morte de dois rios: O Doce, e o Paraopeba.

Estadão Conteúdo - 10/03/2019 - 08:04:20

imagem de Ponte destruída pelo mar de lama da Nova barragem da Vale se rompe

Tragédia em Brumadinho. Pontilhão destruído pelo mar de lama da Vale. Foto: www.bbc.com.

Tragédia em Brumadinho, Ibama informa sobre dimensão do acidente

O Ibama declarou que a tragédia de Mariana despejou 50 milhões de metros cúbicos de rejeitos, contra 13 milhões de Brumadinho. Foram detonados cerca de 270 hectares de terreno, que equivalem a 270 campos de futebol.

Advogado da Vale diz que empresa não tem culpa

Segundo o Estadão, “o advogado Sergio Bermudes, um dos principais defensores da mineradora, afirmou que “não vê responsabilidade” da companhia sobre o rompimento da barragem em Brumadinho e que já havia enviado à Justiça mineira pedido de reconsideração sobre as decisões que bloquearam mais de R$ 11 bilhões do caixa da empresa.”

imagem da destruição da Nova barragem da Vale se rompe

Retrato da impunidade no Brasil. Dos 21 gestores da Vale condenados no acidente de Mariana, nenhum ainda foi preso passados três anos. Foto: noticias.r7.com.

A licença da barragem

Segundo a Folha de S. Paulo, ” a Ata da reunião extraordinária do órgão ambiental de Minas Gerais que aprovou em dezembro, de forma acelerada, a ampliação das atividades do complexo Paraopeba, que inclui a Córrego do Feijão, mostra que o risco de rompimento, que acabou acontecendo foi objeto de discussão.” Ou seja, a empresa sabia do risco e não agiu porque não quis.

imagem da Nova barragem da Vale se rompe

Tragédia em Brumadinho. Rastro de destruição. Foto: www.metropoles.com.

A Vale, em Minas Gerais, tem sido uma empresa irresponsável

No primeiro acidente a empresa matou um curso d’água, o Rio Doce. No segundo, tirou a vida do Paraopeba. Mais um recorde sinistro da companhia.

imagem de Nova barragem da Vale se rompe

Tragédia em Brumadinho. Horror dos horrores. Quem estava lá dentro? Foto: UOL.

Alguns dados da ex-Vale do Rio Doce

A vale é a “31ª maior empresa do mundo, atingindo um valor de mercado de 298 bilhões de reais. Em novembro de 2007, a marca e o nome de fantasia da empresa passaram a ser apenas Vale S.A. Foi privatizada em maio de 1997- durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Em janeiro de 2012 foi eleita como a pior empresa do mundo, no que refere-se a direitos humanos e meio ambiente, pelo “ Public Eye People´s ”, premiação realizada desde o ano 2000 pelas ONG’s Greenpeace e Declaração de Berna. Dessa forma a Vale tornou-se a primeira empresa brasileira a “vencer” tal eleição, também conhecida como “ Oscar da Vergonha “. A escolha foi realizada por meio de votação pública, tendo a Vale recebido 25 mil votos. Em segundo lugar na eleição ficou a japonesa Tepco, responsável pela operação das usinas nucleares de Fukushima, atingidas por um tsunami em março de 2011.

imagem da Tragédia em Brumadinho

Tragédia em Brumadinho.

Três anos depois, o caso da Barragem do Fundão não evoluiu

Passados três anos da tragédia de Mariana, os pescadores artesanais continuam sem ter onde pescar; as indenizações ainda não foram pagas; a construção do novo povoado ainda não saiu do papel. Esta é a Vale do Rio Doce . E foi por esta indesculpável omissão do poder público, que a Vale se encorajou para ‘arriscar’ uma segunda dose. O jornal Estado de Minas publicou matéria. O título diz tudo: “Três anos depois do rompimento da barragem do Fundão, o pesadelo continua. Na Justiça criminal ou nos tribunais cíveis, a tragédia do rompimento da Barragem do Fundão permanece, três anos depois, uma questão sem resposta para as quase 500 mil pessoas atingidas entre Minas Gerais e o Espírito Santo.” O Mar Sem Fim observa que, tanto na Barragem de Fundão, como na de Brumadinho, a empresa sequer tocou o alarme para avisar os cidadãos.

Rio Doce: i nquérito não levou a nada

Em Outubro de 2016, quase um ano depois da tragédia, finalmente o inquérito chegou ao seu final. O “MPF denunciou 21 gestores e conselheiros, por homicídio doloso”. Mas, mais uma vez passados três anos, nenhum diretor foi preso.

imagem de mapa da bacia do rio paraopeba local da nova barragem da Vale se rompe

Tragédia em Brumadinho. A região da tragédia.

Ibama não aceitou plano de recuperação Ambiental do Rio Doce

Veja a cara-de-pau, e a impunidade imperando apesar dos pesares. Uma das obrigações da Samarco, depois da tragédia, foi apresentar um plano de recuperação ambiental para todo o vale do Rio Doce. A empresa mostrou plano tão ruim que não foi aceito. Segundo o Ibama, o que a Samarco apresentou era…

…de caráter genérico e superficial, sem considerar o imenso volume de informações produzidas e disponíveis até o momento, além de apresentar pouca fundamentação metodológica e científica…

Por estas e outras, aconteceu Brumadinho. Só que agora não são apenas 19 mortos, mas centenas. O Mar Sem Fim considera que, tudo a seu tempo, os gestores da Vale merecem cadeia.

Imagem de Tragédia em Brumadinho

Tragédia em Brumadinho. Foto: exame.abril.com.br.

Brilhante artigo de José Goldenberg

De tudo que se publicou até agora sobre este negro episódio da nossa história recente, que pegou mal no mundo inteiro, foi o recente artigo de José Golbenberg no Estadão. Como se sabe, Goldenberg, PROFESSOR EMÉRITO DA USP, FOI MINISTRO DO MEIO AMBIENTE E SECRETÁRIO DO MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SÃO PAULO. O título, muito apropriado em épocas de Bolsonaro, foi, ‘Licenciamento e desastres ambientais’.

O artigo começava assim: “É possível ser mais rigoroso e proteger a população sem impedir o desenvolvimento.” O professor explica: “Os desastres ambientais de Mariana e Brumadinho põem na ordem do dia, com alta prioridade, o problema do licenciamento ambiental. Isso significa uma séria inversão de prioridades do governo federal. A reorganização administrativa promovida em janeiro levou à extinção e realocação de várias áreas ligadas a questões ambientais, o que indicava uma visão desenvolvimentista em que o licenciamento ambiental parece ser um obstáculo ao desenvolvimento.”

“Pagamos o preço”

“Estamos pagando hoje o preço com os desastres de Mariana e Brumadinho. E o governo Bolsonaro não ajudou nada, até agora, a resolver os problemas reais do setor ao reduzir o status do Ministério do Meio Ambiente (que até cogitou de extinguir) e tolerar entrevistas e declarações de membros de sua administração desqualificando a defesa do meio ambiente como inspirada por agentes internacionais e de modo geral “xiita” nas suas reivindicações ( O Mar Sem Fim concorda em gênero, número, e grau, veja ).

“Semelhança com Operação Lava-jato”

“Esta é uma situação parecida com a Operação Lava Jato e o papel do juiz Sergio Moro. A legislação anticorrupção, com delação premiada e outros dispositivos legais, já existia, mas foi a coragem do juiz em aplicá-la que fez toda a diferença.”

“Isso não significa que a legislação ambiental não possa ser aperfeiçoada e simplificada – sem perder o rigor -, sobretudo definindo melhor as características específicas dos empreendimentos. Licenciar uma pequena central hidrelétrica numa fazenda no interior não precisa ter a complexidade de licenciamento de uma grande usina hidrelétrica.”

Receita para evitar desastres como o de Mariana

“Para evitar novos desastres, como em Mariana e Brumadinho, o governo federal precisa demonstrar claramente que vai aplicar as leis vigentes, “doa a quem doer”. Somente assim os técnicos e engenheiros responsáveis pelos projetos e pela fiscalização ambiental se sentirão respaldados para propor a interdição de projetos inadequados e não conceder novas licenças sem a permissão de medidas protetoras da população.”

“Licenciar uma barragem como a de Brumadinho, permitindo que abaixo dela fossem instalados uma pousada e um refeitório da Vale, ultrapassa as raias do absurdo na sua irresponsabilidade. E poderia ter sido evitado por uma simples medida administrativa.”

Manter a natureza intocada?

Goldenberg finaliza: “Não é possível, como querem alguns, resolver os problemas da pobreza no País mantendo a natureza intocada. Mas é possível fazer um licenciamento ambiental mais rigoroso e ágil, que proteja a população sem impedir o desenvolvimento.”

‘Licenciamento ambiental é obstáculo ao crescimento’

É isso que o Presidente apregoa quase toda semana desde que estava em campanha. Senhor presidente, ainda considera que o ‘Ibama é uma fábrica de multas’? Que o ‘licenciamento ambiental é obstáculo ao crescimento’? Infelizmente, este trágico acidente mostra mais uma vez a importância de um ministério do Meio Ambiente bem aparelhado por equipes, e equipamentos. O que não acontece.

2018 – orçamento do Ministério do Meio Ambiente: 0,1% do orçamento da União

Patinho Feio de todos os ministérios, o do Meio Ambiente, encarregado de cuidar de nosso mais importante ativo, tem um orçamento que demonstra claramente não ser ele uma prioridade, apesar de todo o blá-blá-blá que está na Constituição, é um orçamento irrisório, 0,1% do orçamento da União (aprovado, não necessariamente realizado, sempre há as contingências de verbas…). Assim tem sido em todos os governos recentes.

O Ibama e o ICMBio jamais tiveram o investimento que merecem. São deficitários em equipes e equipamentos como já demonstramos várias vezes . O jornal O Globo confirma: “Estudo divulgado pela WWF-Brasil, em parceria com a ONG Contas Abertas, aponta que, em cinco anos, o orçamento do Ministério do Meio Ambiente (MMA) caiu mais de R$ 1,3 bilhão. Em 2013, a verba prevista para a pasta era de pouco mais de R$ 5 bilhões – já em 2018, o orçamento autorizado é de 3,7 bilhões.”

imagem da Barragem I – Mina Córrego do Feijão

Nova barragem da Vale se rompe. Barragem I – Mina Córrego do Feijão. Fonte: valeinformar.valeglobal.net

Fontes: https://gauchazh.clicrbs.com.br/; https://valeinformar.valeglobal.net/BR/MG/Paginas/Home-14-03-18.aspx?pdf=1; https://exame.abril.com.br/brasil/bombeiros-rompimento-de-barragem-em-brumadinho-deixa-200-desaparecidos/; https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/01/risco-de-rompimento-foi-citado-na-tensa-reuniao-que-aprovou-licenca-da-barragem.shtml; https://www.pontosbr.com/mina-de-ferro-carajas-vale-do-rio-doce-parauapebas-pa-21.html; https://pt.wikipedia.org/wiki/Vale_S.A; https://g1.globo.com/natureza/noticia/em-cinco-anos-orcamento-do-ministerio-do-meio-ambiente-cai-r-13-bilhao-diz-estudo.ghtml.

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