Após forte reação negativa, Fifa desiste de abertura ao capital privado
São Paulo, Sp (uol/folhapress) - 03/08/2026 06:38:25 | Foto: Bnews - Divulgação Divulgação/Fifa
GUILHERME PADIN-SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - A oito meses da eleição na qual concorrerá a mais um mandato como presidente da Fifa (Federação Internacional de Futebol), Gianni Infantino enfrenta um cenário político cada vez mais adverso. O dirigente tem sido duramente criticado pelas confederações continentais, circunstância bastante diferente das quais enfrentou em 2019 e 2023, quando foi eleito sem concorrência.
A hegemonia construída a partir de 2016 é desafiada pela ampla rejeição à proposta, já retirada, de vender uma participação nos direitos comerciais da Copa do Mundo e outras competições por meio de uma nova empresa da entidade máxima, a Fifa Forward Enterprise (FFE).
Europa, América do Norte e Ásia se opuseram praticamente em unanimidade e criticaram não somente a proposta, mas também a Fifa, o que fez o presidente ítalo-suíço desistir do plano. Em meio às críticas, o assessor principal de Infantino, Carlos Cordeiro, também se opôs à proposta e se demitiu.
Porém, mesmo após o recuo, a Uefa, que rege o futebol europeu, voltou a expressar sua reprovação e indicou ter perdido a confiança na Fifa de Infantino.
"Não podemos continuar assim com planos secretos em prazos acelerados, elaborados por indivíduos sem rosto e de benefício duvidoso para o jogo. Devemos identificar os responsáveis e responsabilizá-los", escreveu a Uefa. "Esta é uma vitória para todo o futebol. Mas não deve ser o fim da história. A proposta foi retirada. A tarefa de reconstruir a confiança na Fifa está apenas começando", completou a nota.
Embora a Uefa falasse pelas suas 55 associações nacionais, a federação inglesa também fez questão de publicar sua posição. "É hora de uma revisão completa e robusta da liderança e governança da Fifa para garantir que o esporte global seja gerido de forma transparente, em benefício de todas as 211 nações membros e com a administração de longo prazo do futebol em seu cerne", afirmou a FA (sigla em inglês para Associação de Futebol da Inglaterra).
PROVÁVEIS CONCORRENTES
As articulações contra a permanência de Infantino se intensificaram, sobretudo após a rejeição à FFE, revelando uma divisão entre a cúpula da Fifa e alguns dos principais atores do futebol pelo mundo.
Diante do desgaste da atual gestão, a imprensa britânica aponta que a oposição já trabalha na consolidação de uma alternativa concreta para o pleito de 2027. O presidente da Concacaf, Victor Montagliani, surge com nome fortalecido para presidir a Fifa a partir de março de 2027, segundo a rádio talkSPORT.
Outro consenso entre os europeus, segundo o The Telegraph, é o nome de Nasser Al-Khelaifi, presidente do Paris Saint-Germain e da Qatar Sports Investments. Ele seria visto como o candidato com chances maiores de vencer Infantino em meio à atual crise por possuir influência e prestígio no futebol mundial.
Seja Montagliani, Al-Khelaifi ou outro candidato, quem se opor a Infantino na próxima eleição terá um forte obstáculo: assegurar um apoio amplo em meio à proposta do atual presidente de ampliar a Copa do Mundo de 2030 para 64 seleções. A medida é bem recebida e escorada por federações nacionais na África, na Ásia e nas Américas do Norte e Central, o que pode auxiliar Infantino na votação.
QUEM APOIA INFANTINO
Apesar da intensa contestação no território europeu e norte-americano, Infantino não está isolado. O dirigente preserva importantes focos de resistência, como a Confederação Africana de Futebol (CAF), que desponta como um de seus pilares de apoio mais sólidos.
Durante a semana de reações à FFE, a posição da CAF foi de cautela, sem mostrar rejeição, como fizeram outras três confederações. Dias após o fim da Copa do Mundo, o presidente da confederação africana se pôs ao lado de Infantino após críticas pelo caso Balogun e pela introdução das pausas para hidratação.
"Gosto do seu profundo amor pelo futebol, do seu profundo compromisso com o futebol em nível global e do seu apoio à África. Gianni desempenhou um papel fundamental na ampliação das oportunidades para as seleções africanas no cenário mundial", disse Patrice Motsepe.
Dentre as federações nacionais, as entidades das sedes da Copa do Mundo de 2022 e do próximo Mundial também expressaram apoio. A marroquina parabenizou Infantino após o recuo e afirmou que seguirá o apoiando em suas iniciativas. "A decisão [de recuar] foi sábia, pois prioriza a unidade e a coesão entre as associações-membro da Fifa", escreveu a federação marroquina.
Já a federação do Qatar afirmou que a FFE possuía ideias que mereciam ser avaliadas, além de elogiar o recuo da Fifa após a repercussão negativa do projeto. "Na Federação Catari de Futebol, reafirmamos o total apoio aos esforços contínuos do presidente Infantino para desenvolver e expandir o futebol pelo mundo", concluiu a entidade, em nota.
CBF NÃO FALA, CONMEBOL SE ESQUIVA
Por aqui, a posição é de neutralidade em relação à Fifa e à proposta de Infantino. Até o momento, a CBF não emitiu qualquer posicionamento sobre a FFE.
A Conmebol, por sua vez, até publicou uma nota a respeito do plano, mas sem tomar posição ou falar em uma possível adesão. A confederação apenas informou que pediu mais detalhes à Fifa sobre o projeto.
"A Conmebol iniciou um processo de consulta com suas Associações Membro e convocou uma reunião do Conselho com o objetivo exclusivo de analisar e avaliar a proposta, com a responsabilidade e o rigor que o assunto exige", escreveu a Conmebol.
Diante da fortíssima reação negativa no mundo, Fifa desiste de abertura ao capital privado
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Fifa (Federação Internacional de Futebol) anunciou na noite de sexta-feira (31) a interrupção do projeto que havia anunciado no início da semana. Diante de fortíssima rejeição no mundo do futebol, foi abortado o plano de vender uma participação minoritária significativa em uma nova entidade comercial avaliada em cerca de US$ 20 bilhões (R$ 102 bilhões).
"Após ouvir atentamente todas as opiniões, ficou claro que o projeto criou divisões de uma natureza que, independentemente do nível de apoio, não atendem mais ao interesse do objetivo estabelecido inicialmente. Nosso propósito sempre foi -e sempre será- unir e melhorar. Como resultado, esta proposta não seguirá adiante", afirmou o presidente da federação, Gianni Infantino.
Em declaração divulgada pela entidade que preside, ele observou que "o Fifa Forward Enterprise tinha como objetivo fornecer uma base para fortalecer ainda mais as associações que são membros da Fifa". Mas apontou que só iria adiante após "um processo de consulta" e "se a maioria das associações estivesse de acordo".
Claramente, não foi o caso. A proposta apresentada foi recebida de maneira bastante negativa por atores importantes no futebol, notadamente algumas das confederações continentais. Houve reverberações até mesmo dentro da Fifa. O conselheiro sênior de Infantino, Carlos Cordeiro, renunciou ao cargo, dizendo opor-se frontalmente ao projeto.
Na quinta-feira (30), a Uefa (União das Associações Europeias de Futebol) aprovou por unanimidade um boicote às competições da Fifa enquanto a proposta não fosse retirada. A Concacaf (Confederação das Associações de Futebol da América do Norte, da América Central e do Caribe) e a AFC (Confederação Asiática de Futebol) também manifestaram oposição.
Venda de participação da Fifa reacende debate sobre escândalos do passado
VALENTIN FURLAN E GUILHERME PADIN-SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - A proposta da Fifa de criar a Fifa Forward Enterprise (FFE), empresa que concentraria a exploração comercial de seus principais ativos e poderia receber investimento privado, provocou reação imediata das federações europeias e reacendeu comparações com modelos adotados pela entidade no passado.
Embora especialistas ouvidos pela reportagem ressaltem que não há indícios de irregularidades na iniciativa, eles afirmam que o projeto revive um debate antigo sobre a relação entre a entidade e empresas responsáveis por transformar direitos esportivos em receita.
A comparação surgiu após a Fifa apresentar a ideia de criar uma subsidiária responsável pela gestão comercial de ativos como a Copa do Mundo e o Mundial de Clubes. A intenção é vender uma participação minoritária da empresa a investidores, mantendo o controle da entidade.
Para o especialista em marketing esportivo e PhD em Comportamento do Consumo Fernando Fleury, a proposta guarda semelhanças com modelos utilizados por empresas como ISL, Traffic e LiveMode, mas representa um passo além.
"A ISL era uma empresa externa que recebia ou comprava direitos da Fifa e ganhava com sua revenda. A Traffic operava de forma semelhante, sobretudo em mercados e competições regionais. A LiveMode representa uma evolução, ao integrar comercialização, produção, distribuição e construção de audiência. Mas todas continuam sendo empresas externas", disse Fleury, especialista em marketing.
Segundo ele, a principal mudança é que a Fifa deixaria de apenas contratar terceiros para explorar seus ativos comerciais.
A Fifa pretende concentrar sua operação comercial numa empresa própria e vender uma participação dessa companhia a investidores. Portanto, não estará apenas contratando alguém para explorar seus direitos. Estará permitindo que terceiros participem economicamente da estrutura que transforma esses direitos em receita.
Fleury resume a diferença da seguinte forma: "A ISL privatizava parte da comercialização. A FFE pretende privatizar parcialmente o motor comercial."
Apesar da semelhança estrutural, o especialista afirma que a comparação não deve ser feita sob a ótica dos escândalos de corrupção que marcaram o futebol internacional.
"Isso não permite comparar a proposta atual aos esquemas de corrupção da ISL ou da Traffic. Até agora, não há evidência nesse sentido. A comparação válida é de arquitetura, incentivos e governança", disse.
O QUE MUDOU AGORA?
A antiga ISL foi a principal parceira comercial da Fifa durante as décadas de 1980 e 1990, negociando direitos de marketing e patrocínio de competições da entidade. Após sua falência, vieram à tona investigações que revelaram o pagamento de propinas a dirigentes esportivos para assegurar contratos comerciais.
Anos depois, o chamado Fifa Gate também revelou esquemas de corrupção envolvendo empresas de marketing esportivo na negociação de direitos comerciais e de transmissão de competições, especialmente nas Américas.
Para o advogado especialista em direito esportivo internacional Eduardo Carlezzo, entretanto, a estrutura proposta pela Fifa difere significativamente daqueles modelos.
"Existem algumas diferenças importantes entre as operações que não podem ser ignoradas. Ao contrário da ISL, que era uma empresa terceira, plenamente independente e detentora dos direitos, a FFE é apresentada como uma subsidiária na qual a Fifa manteria o controle majoritário, com investidores privados entrando apenas como sócios minoritários e sem poder de gestão", explica Carlezzo.
Ele também destaca que o projeto dependerá da aprovação das federações filiadas, algo inexistente nos contratos firmados no passado.
Também há um processo de aprovação do projeto a ser votado pelas federações-membro, o que nunca existiu com a ISL
Segundo Carlezzo, a própria estrutura de governança da entidade mudou desde os escândalos que marcaram a gestão da Fifa nas últimas décadas.
"Do ponto de vista formal, a Fifa hoje tem uma estrutura de compliance e investigação interna muito mais sofisticada do que tinha durante a era ISL. O Comitê de Ética foi dividido em uma câmara investigativa e uma câmara julgadora, foram criados um Código de Conduta, um comitê de auditoria independente e canais de denúncia confidenciais", continuou.
PRESSÃO COMERCIAL PREOCUPA ESPECIALISTAS
Na avaliação de Fleury, a principal discussão não está na legalidade do projeto, mas nos incentivos econômicos que podem surgir caso investidores privados passem a participar da estrutura comercial da Fifa.
Entre as dúvidas levantadas pelo especialista estão a forma de remuneração dos investidores, a duração do investimento, a possibilidade de recompra das participações e o grau de influência que esses sócios poderão exercer sobre decisões estratégicas.
"O risco é diferente do caso ISL. Antes, a dependência estava na relação com uma empresa externa. Agora, o interesse privado poderá estar incorporado contratualmente à própria governança comercial da Fifa. Isso não torna a FFE automaticamente pior, mas pode torná-la mais duradoura e mais difícil de desfazer."
Para ele, justamente por se tratar de uma estrutura permanente, a discussão precisa ocorrer antes da implementação do projeto.
A Fifa não está vendendo a Copa do Mundo. Está vendendo uma participação na máquina que transforma a Copa do Mundo em dinheiro.
Uefa cita 'esquema secreto' e diz que perdeu confiança em Infantino na Fifa
SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - A Uefa publicou um longo comunicado na manhã deste sábado (1º) em que critica a Fifa e seu presidente, Gianni Infantino, pela tentativa de vender ações da entidade na criação de uma empresa.
A entidade europeia aprovou o recuo da Fifa no plano. Infantino disse, na noite de sexta-feira (31), que a ideia não seguirá adiante após avaliar diferentes lados do debate.
No comunicado, a Uefa diz que a Fifa tentou se utilizar de um "esquema secreto com prazos acelerados". A entidade também afirmou que conversará com outras entidades para que não se repita.
"Não podemos continuar assim com planos secretos em prazos acelerados, elaborados por indivíduos sem rosto e de benefício duvidoso para o jogo. Devemos identificar os responsáveis e responsabilizá-los. É correto que, nos próximos dias e semanas, a UEFA trabalhe com suas associações e em estreita cooperação com outras confederações para refletir sobre como isso aconteceu e elaborar um plano para garantir que isso não possa ocorrer novamente", diz o comunicado.
PERDA DE CONFIANÇA EM INFANTINO
A Uefa também foi dura nas críticas ao atual presidente da Fifa. A entidade citou discursos de Infantino na eleição de 2016 e afirmou que ele deixou de cumprir promessas. "O acordo obscuro, de bastidores e sem transparência, que ele arquitetou e tentou impor, esteve muito longe de ser transparente", disse a Uefa.
A entidade que comanda o futebol europeu acredita que Infantino tenha perdido a confiança não só da Uefa, mas de outros setores do futebol. O comunicado, inclusive, é encerrado comemorando a retirada da proposta, mas incentiva uma reconstrução de confiança na Fifa.
"Esta é uma vitória para todo o futebol. Mas não deve ser o fim da história. A proposta foi retirada. A tarefa de reconstruir a confiança na FIFA está apenas começando", disse ainda a entidade em comunicado.
O QUE ESTAVA EM DISCUSSÃO
A Fifa havia confirmado na terça-feira (28) que Infantino queria criar uma subsidiária avaliada em 20 bilhões de dólares (R$ 102,3 bilhões). A empresa, que recebeu o nome de Fifa Forward Enterprise, teria até 20% de sua participação acionária vendida a terceiros, por um valor estimado de 4,2 bilhões de dólares (R$ 21,4 bilhões).
A proposta previa concentrar direitos comerciais e a operação de eventos -entre eles, a Copa do Mundo- na empresa controlada pela própria Fifa. A ideia era reunir mais receitas como patrocínios, direitos de transmissão e licenciamento, mantendo a organização de competições sob responsabilidade da entidade máxima do futebol, de acordo com nota divulgada nesta semana.
O plano também vinha sendo discutido sob pressão de outras instituições. A Uefa anunciou boicote a torneios da Fifa após a divulgação da proposta, e a entidade global afirmou que a criação da empresa só ocorreria se fosse aprovada pela maioria das 211 associações-membro.
LEIA A NOTA COMPLETA
"A UEFA acolhe a decisão da FIFA de retirar seu plano de vender uma participação em suas competições - incluindo a Copa do Mundo - para a iniciativa privada.
A proposta foi rejeitada por unanimidade pelas associações nacionais da UEFA e por muitas outras federações e confederações de todos os tamanhos ao redor do mundo, cujo trabalho é proteger o futebol.
A UEFA agradece a todos os torcedores, ligas, clubes, jogadores, indivíduos, associações e confederações que se opuseram ao plano, juntamente com os muitos primeiros-ministros, chefes de Estado e comentaristas que demonstraram ao presidente da FIFA que o futebol não está à venda.
Não podemos continuar assim com planos secretos em prazos acelerados, elaborados por indivíduos sem rosto e de benefício duvidoso para o jogo. Devemos identificar os responsáveis e responsabilizá-los.
É correto que, nos próximos dias e semanas, a UEFA trabalhe com suas associações e em estreita cooperação com outras confederações para refletir sobre como isso aconteceu e elaborar um plano para garantir que isso não possa ocorrer novamente. Essa revisão deve ser completa e fundamental. Nenhuma opção deve ser descartada. A atual liderança da FIFA não apenas perdeu a confiança da UEFA, mas também a de muitos outros membros da família do futebol.
Quando Gianni Infantino pediu a confiança e os votos das associações-membro da FIFA para elegê-lo presidente da entidade em 2016, ele disse: "É claro que temos de ser transparentes. Tenho sido assim nos últimos 15 anos da minha vida na UEFA. Vocês terão de participar todos os dias da vida da FIFA", antes de dizer às partes interessadas presentes: "O dinheiro da FIFA é o dinheiro de vocês. Não é o dinheiro do presidente da FIFA. É o dinheiro de vocês. Vocês são as associações nacionais e o dinheiro da FIFA deve servir para o desenvolvimento do futebol e para nada mais."
Em ambas essas promessas, ele falhou em cumprir. O acordo obscuro, de bastidores e sem transparência, que ele arquitetou e tentou impor, esteve muito longe de ser transparente.
E, com reservas superiores a US$ 5 bilhões, ele também falhou em utilizar o dinheiro das associações em benefício do jogo.
A UEFA começará imediatamente a trabalhar com parceiros e partes interessadas em todo o mundo e em todos os níveis do futebol para propor uma nova forma de distribuir recursos por meio do programa FIFA Forward já existente.
Precisamos começar a usar parte desse dinheiro que está parado na conta bancária da FIFA para dar o impulso inicial de que o futebol de base e o futebol como um todo precisam em cada um dos 211 países da FIFA. Mas não precisamos vender a prata da família para pagar por isso.
Esta é uma vitória para todo o futebol. Mas não deve ser o fim da história. A proposta foi retirada. A tarefa de reconstruir a confiança na FIFA está apenas começando."
Em meio a enxurrada de críticas a plano da Fifa, Conmebol mantém silêncio
LUCAS BOMBANA-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Após divulgar os planos de vender as ações de uma nova empresa que ficaria responsável por gerenciar as atividades comerciais da Copa do Mundo, a Fifa conseguiu atrair uma reação negativa histórica dos principais atores do futebol mundial.
Desde que o plano veio à tona, na terça-feira (28), a Uefa (entidade responsável pelo futebol da Europa) foi a crítica mais contundente, ameçando boicotar o Mundial caso a Fifa não reconsidera sua posição.
Na mesma linha, a Concacaf (Confederação das Associações de Futebol da América do Norte, Central e Caribe) também rejeitou a proposta, citando "profunda preocupação com a falta de devido processo legal em torno da proposta", assim como a AFC (confederação asiática), que disse que a proposta "não pode, realisticamente, alcançar o amplo consenso e a unidade necessários para avançar".
Diante da repercussão mundial, a Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) mantém o silêncio. A organização ainda não manifestou qualquer posição a respeito do projeto.
Procurada pela reportagem, a entidade informou que aguarda um posicionamento formal vindo de Assunção, no Paraguai, onde fica sua sede.
A CBF (Confederação Brasileira de Futebol), por sua vez, respondeu por meio de sua assessoria de imprensa que, por ora, não teria posicionamento oficial a ser divulgado.
O presidente da Conmebol, Alejandro Domínguez, é visto como um aliado político histórico de Gianni Infantino, o presidente da Fifa no centro das críticas por conta da forma como o plano foi apresentado ao público.
Desde que Infantino assumiu o cargo, em meados de 2016, Domínguez já manifestou diversas vezes seu apoio irrestrito ao dirigente ítalo-suíço, tendo recentemente sinalizado inclusive apoio a uma eventual reeleição.
A próxima edição da Copa também terá jogos na Argentina, no Paraguai e no Uruguai, em celebração aos 100 anos do torneio de seleções, o que pode contribuir para um alinhamento entre as entidades.
Pouco depois do término da Copa do Mundo, no dia 19 de julho, a Fifa anunciou sua intenção de criar uma empresa para gerenciar suas atividades comerciais e atrair investidores externos, prometendo um aporte de US$ 10 bilhões (cerca de R$ 50,8 bilhões na cotação atual) para financiar o desenvolvimento do futebol.
Gianni Infantino defendeu seu projeto na quarta-feira, mas insistiu que se trata de "uma oportunidade, não uma obrigação".
Uefa anuncia boicote a torneios da Fifa após proposta de venda de ações
A Uefa anunciou um boicote às competições organizadas pela Fifa após a proposta de criar uma empresa para organizar competições e gerir as operações comerciais da entidade, com captação de recursos e vendas de ações.
A decisão foi divulgada após reunião de emergência nesta quinta-feira (30). A nota oficial foi publicada no site da Uefa, entidade que comanda o futebol europeu, e exige que a Fifa abandone a proposta.
"A UEFA e suas 55 associações-membro permanecem unidas. Rejeitamos de forma unânime e inequívoca a proposta da FIFA de transferir participações de propriedade na Copa do Mundo e em outras competições da FIFA para investidores privados", disse comunicado oficial da Uefa.
Nesta semana, a Fifa propôs a criação da "SAF". O presidente da entidade, Gianni Infantino, disse que a proposta é, por ora, uma oferta e só será concretizada se for aprovada pela maioria das 211 nações filiadas e pelo conselho da entidade.
A Uefa tem 55 seleções associadas e disse que não participará das competições Fifa enquanto a proposta estiver em vigor. A entidade afirmou que a "Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento".
"A Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento. Ela é um dos maiores legados esportivos do futebol. Foi construída ao longo de gerações por jogadores, seleções nacionais e torcedores em todos os continentes. Nenhuma parte dela jamais deve ser entregue a investidores privados. A Copa do Mundo não está à venda", disse comunicado oficial da Uefa.
"Como resultado da discussão de hoje, nenhuma seleção nacional da UEFA participará de qualquer competição da FIFA enquanto essas propostas permanecerem em vigor, a menos que essa proposta tenha sido abandonada em sua totalidade e garantias vinculantes tenham sido dadas de que a FIFA jamais voltará a abrir sua governança ou suas competições à propriedade privada", disse comunicado oficial da Uefa.
LEIA A NOTA COMPLETA:
A UEFA e suas 55 associações-membros permanecem unidas. Rejeitamos de forma unânime e inequívoca a proposta da FIFA de transferir participações de propriedade na Copa do Mundo e em outras competições da FIFA para investidores privados.
A Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento. Ela é um dos maiores legados esportivos do futebol. Foi construída ao longo de gerações por jogadores, seleções nacionais e torcedores em todos os continentes. Nenhuma parte dela jamais deve ser entregue a investidores privados. A Copa do Mundo não está à venda.
É tanto irresponsável quanto indefensável que uma proposta de tamanha importância para o futebol tenha sido concebida em segredo e levada à beira da aprovação sem qualquer consulta significativa àqueles encarregados de administrar o jogo. Isso não é apenas uma profunda falha de liderança, mas uma abdicação do dever da FIFA como guardiã do futebol mundial.
As associações nacionais ao redor do mundo agora são apresentadas a um ultimato: aceitar a captura irreversível das maiores competições do futebol ou arcar com as consequências. Isso não é uma "decisão democrática", mas uma governança por intimidação - um ato de coerção indigno de uma instituição encarregada da administração do jogo global.
Mas nossa oposição vai muito além do processo.
No momento em que investidores externos adquirirem participações de propriedade nas competições da FIFA, o futebol mudará para sempre. O retorno comercial se tornará uma obrigação permanente. As expectativas dos investidores se tornarão uma pressão diária. A partir desse momento, toda decisão sobre o calendário internacional, toda decisão sobre os formatos das competições e toda decisão que molda o futuro do futebol deixará de ser guiada pelo que melhor serve ao jogo e passará a ser guiada pelo que melhor serve aos acionistas.
Esse modelo não tem lugar no futebol mundial. O futuro do futebol não pode ser ditado pelas expectativas daqueles cujo primeiro dever é maximizar o retorno financeiro. Tampouco os interesses das associações nacionais, ligas, clubes, jogadores e torcedores podem se tornar subordinados aos retornos dos investidores. O futebol não pode hipotecar seu futuro por ganho financeiro.
A posição da Europa é clara. Nunca emprestaremos nossa legitimidade a esse modelo. Ninguém tem autoridade moral para vender aquilo que apenas detém em confiança para a próxima geração.
Como resultado da discussão de hoje, nenhuma seleção nacional da UEFA participará de qualquer competição da FIFA enquanto essas propostas permanecerem em vigor, a menos que essa proposta tenha sido abandonada em sua totalidade e garantias vinculantes tenham sido dadas de que a FIFA jamais voltará a abrir sua governança ou suas competições à propriedade privada.
Ninguém deve ter qualquer dúvida: a UEFA e suas associações nacionais se oporão a esses planos com absoluta determinação.
Há momentos em que as instituições são julgadas não pelo que estão preparadas para aceitar, mas pelo que se recusam a comprometer. Este é um desses momentos.
Algumas coisas são simplesmente importantes demais para serem vendidas. A Copa do Mundo da FIFA pertence ao futebol. Sempre pertencerá. E, enquanto a Europa tiver voz, ela jamais estará à venda.
Entenda a proposta de venda de ações da Fifa que gerou boicote da Uefa
SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - A Fifa publicou nesta quinta-feira (30) uma nota para explicar o que é o Fifa Forward Enterprise (FFE), a proposta de venda de ações da entidade, boicotada em texto divulgado pela Uefa e todas suas nações representantes.
A criação dessa "SAF", segundo o presidente Gianni Infantino, só será concretizada caso aprovada pela maioria das 211 associações-membro da Fifa.
O que é a proposta?
A FFE será uma subsidiária de propriedade controlada pela Fifa, consolidando os direitos comerciais e as operações de eventos da entidade, segundo a nota. A empresa se somaria a outras subsidiárias da Fifa já existentes.
Pelo que a empresa se responsabilizaria?
A "SAF" da Fifa administraria os direitos comerciais e operações de eventos da entidade, entre eles todas as competições, como com patrocínios, transmissões, licenciamento e outros empreendimentos.
Segundo a Fifa, com o valor adquirido com o projeto, a ideia é aumentar o valor de todas essas propriedades a fim de beneficiar as 211 associações-membro da entidade e, portanto, do futebol.
Que benefícios a Fifa vê na proposta?
O objetivo da proposta é que, com o possível aumento de receita, os valores arrecadados cheguem a todos os setores do futebol de maneira adequada, diz a Fifa. Segundo a nota, embora o valor comercial do esporte tenha crescido, o dinheiro não chegou às áreas que mais necessitam dele.
A Fifa perderia funções?
A Fifa afirma que, caso a proposta fosse aprovada, seguiria responsável por governar e desenvolver o futebol, inclusive regulamentando, definindo e organizando competições.
O que a Fifa precisa para aprovar a proposta?
Para que a proposta da Fifa Forward Enterprise seja aprovada, é preciso que a maioria das 211 associações-membro aprovem a medida.
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