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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 16 de outubro de 2021

Um basta às agressões. "A Debora não é estatística"

Um basta às agressões. Foto: Correio Braziliense

Governo de Brasília quer criar câmara técnica voltada para elas

Por Alan Rios, Bruna Lima, Mariana Machado E Sarah Peres-correio Braziliense - 22/05/2019 - 09:06:42

Protesto na porta do prédio onde professora foi assassinada pelo ex-namorado cobra medidas eficientes para garantir a segurança das mulheres.

"Quem tem a vida ceifada é a vítima de toda a situação estrutural da nossa sociedade. Se o homem não consegue enxergar e respeitar a mulher como igual a ele, que tem direitos próprios e independência, ele precisa de ajuda médica, psicológica. Não é simplesmente achar que tem o direito de matar" Lúcia Bessa, advogada e diretora de Gênero do Fórum de Mulheres do Mercosul

Amigos, conhecidos e colegas sensibilizados com a morte de Debora Tereza Correa, 43 anos, realizaram ontem um ato contra os casos de feminicídio no Distrito Federal. A professora de português é a 13ª vítima neste ano, conforme levantamento do Correio. Na porta da sede da Coordenação Regional de Ensino do Plano Piloto e Cruzeiro, na 511 Norte, onde Debora trabalhava, cerca de 70 pessoas questionaram a segurança das mulheres e, inclusive, dos servidores da Educação.

A professora Deborah Von, 30, compartilha não só o nome da vítima, mas a profissão. Ela estava no 1º andar do prédio quando escutou o som dos tiros disparados pelo policial civil Sergio Murilo dos Santos. “Foi como se uma parte de nós também morresse ali. É algo tão surreal e absurdo, muito difícil assimilar”, lamentou.

Para Neliane Maria da Cunha, 41, da Frente de Mulheres Negras do DF e Entorno, a morte de Debora se tornou um exemplo da luta contra o feminicídio. “O que mais nos deixa indignados é o fato de ela ter pedido socorro e não ter recebido a ajuda necessária. A nossa luta é para mostrar que Debora não é estatística. Ela é história, e precisamos lutar para que não surja mais nenhuma”, ressaltou a militante.


Neliane Cunha, da Frente de Mulheres Negras:
Neliane Cunha, da Frente de Mulheres Negras: "Precisamos lutar"


Dever do Estado


“A primeira responsabilidade é a do Estado, que é falho nas políticas públicas de segurança das mulheres.” A afirmação da advogada e diretora de Gênero do Fórum de Mulheres do Mercosul, Lúcia Bessa, atribui a recorrência de feminicídios e de violência doméstica à falta de manutenção dos mecanismos de defesa das vítimas. “Em Brasília, a Casa Abrigo está fechada, deixando de dar apoio às mulheres que buscam sair do ciclo de violência. A única delegacia especializada para o atendimento da mulher é no Plano Piloto e deveria ser expandida para regiões onde há muitos casos de feminicídio, como Ceilândia, Sobradinho e Santa Maria, por exemplo”, justificou.

A maneira com que tantas mulheres são tratadas mostra, para a especialista, que a cultura do machismo está enraizada na sociedade brasileira. “Quem tem a vida ceifada é a vítima de toda a situação estrutural da nossa sociedade. Se o homem não consegue enxergar e respeitar a mulher como igual a ele, que tem direitos próprios e independência, ele precisa de ajuda médica, psicológica. Não é simplesmente achar que tem o direito de matar”, alertou Lúcia.

Lúcia acredita que a punição penal é necessária aos agressores, mas que não basta para mudar as estatísticas. “Além de tratar a mente doente do homem e fornecer assistência à mulher, precisa-se implementar medidas a longo prazo”. Entre as sugestões dela estão o trabalho preventivo dentro das escolas a fim de interromper a reprodução da cultura machista pelas próximas gerações, e a elaboração de ações públicas para atender crianças e adolescentes vítimas de violência.

A secretária da Mulher do DF, Ericka Filippelli, afirmou que a pasta trabalha para restabelecer a câmara técnica voltada à criação de políticas e ações públicas em proteção à vida das mulheres. “O comitê visa à integração eficiente dos órgãos públicos para combate da violência contra a mulher. A minuta de criação para esta câmara foi enviada. Nesse primeiro momento, podemos fortalecer os organismos não governamentais que atuam atendendo as mulheres nas comunidades. O projeto de governo é conseguir instalar centros especializados em cada uma das cidades mais vulneráveis”, especifica.

Atualmente, a secretaria coordena os três Centros de Atendimento à Mulher, espaços que fornecem assistência psicológica e social e realiza encaminhamentos jurídicos às vítimas. As unidades ficam na estação de metrô da 102 Sul, em Planaltina e em Ceilândia. O atendimento às famílias e aos autores de violência doméstica também é prestado em outros nove núcleos, que ficam em Brazlândia, Gama, Núcleo Bandeirante, Paranoá, Planaltina, Samambaia, Santa Maria, Sobradinho e Plano Piloto.


por Debora Tereza, parem de nos matarFamiliares e amigos despediram-se ontem da professora morta a tiros pelo ex-namorado. Revolta e impotência marcaram o adeus da mulher que tinha medida protetiva contra o assassino desde agosto


» ALAN RIOS
» BRUNA LIMA
» MARIANA MACHADO
SARAH PERES

Publicação: 22/05/2019 04:00

O adeus a Debora ocorreu no Cemitério Campo da Esperança (Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press)
O adeus a Debora ocorreu no Cemitério Campo da Esperança

Dor e impotência deram o tom ao velório da professora Debora Tereza Correa, 43 anos, a 13ª vítima de feminicídio do Distrito Federal em 2019. Na tarde de ontem, centenas de amigos e familiares reuniram-se no Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul, para se despedir da mulher assassinada na sede da Coordenação Regional de Ensino do Plano Piloto e Cruzeiro, na 511 Norte. Durante a cerimônia, representantes do Sindicato dos Professores (Sinpro) ergueram faixas com os dizeres “Parem de nos matar!” e “Basta de feminicídio!”.


Ela foi morta por três tiros dados pelo ex-namorado, o policial civil Sergio Murilo dos Santos, 51. Em seguida, cometeu suicídio (leia Memória). “Não é só mais um crime, é a história de vida de uma pessoa que é levada”, declarou o irmão da vítima, Samuel Péricles Caminha Corrêa, 52. Debora deixou pai, mãe e mais um irmão. Segundo ele, a irmã, de perfil reservado, dizia apenas estar em um relacionamento complicado.

Ontem, a família lamentou a insegurança a que estão submetidas as vítimas de violência doméstica. “As medidas judiciais não são suficientes, não estão protegendo. Se alguém assalta, a Justiça vai dar um papel ao acusado dizendo que ele não pode mais roubar?”, questionou Samuel. Debora tinha uma medida protetiva de urgência contra Sergio desde agosto do ano passado, mas, ainda assim, ela manteve contato com o policial.

A imprensa não pôde acompanhar o velório e o sepultamento do policial civil. Por telefone, um familiar do agente afirmou: “Nada justifica essa tragédia tão grande que ele fez. Mas o Sergio não é esse monstro que estão pintando. A Debora não merecia ser morta nem a minha família merecia passar por isso”.

 (Arquivo Pessoal)

Em setembro do ano passado, Sergio e Debora tiveram uma briga, e ela acionou a polícia, mas ele não foi preso porque alegou que ela permitia o contato entre eles. Em novembro, a medida protetiva foi revogada pelo juizado de violência doméstica e familiar contra a mulher, de Sobradinho. O policial chegou a ser condenado, mas foi absolvido, na segunda instância, pela 2ª Turma Criminal do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT).

Apesar de ter passado por três inquéritos policiais no ano passado, sendo dois por violência doméstica cometida contra Debora e um pelo descumprimento da medida protetiva, o policial civil continuava de posse da arma da corporação. Em janeiro de 2018, ela foi recolhida, mas devolvida em abril do mesmo ano, por decisão judicial.

A arma usada para matar a professora é, em princípio, da corporação. “A confirmação de que tenha sido utilizada para a prática do fato depende de análise pericial. Não havia limitação ao policial sobre as suas atividades, as quais exercia regularmente na 13ª DP (Sobradinho)”, informa nota da Polícia Civil. O Correio questionou a Divisão de Comunicação quanto à abertura de processos administrativos para investigar a conduta do agente. Contudo, a PCDF alegou que não se manifestará a respeito.

A Secretaria de Segurança Pública (SSP) reforçou a declaração do governador Ibaneis Rocha de que lançará uma campanha de conscientização. “Para ampliar a proteção das vítimas de violência doméstica, a SSP pretende implementar, por meio de dispositivos eletrônicos, o projeto de monitoração móvel de medidas protetivas determinadas pela Justiça”, reforçou a pasta, em nota. A secretaria, porém, não informou quando o projeto começa. “Em relação às condutas praticadas pelo policial, a Polícia Civil instaurou os respectivos inquéritos policiais e todas as medidas previstas na Lei Maria da Penha foram tomadas. Como se tratavam de condutas que não estavam diretamente ligadas à função por ele exercida, a responsabilidade ficou limitada ao processo criminal”, concluiu a SSP.


Doçura

“Ela era uma pessoa tão pacífica, que nunca levantava a voz para ninguém. Choca a todos nós ver esse fim”, recordou Ana Cláudia Souza, 39, no velório de Debora Tereza. Amigas desde 2007, ela lembra do amor da vítima pelos animais. “Ela gostava muito de gatos; era como um. Reservada, tímida e ficava na dela. Mas, quando pegava intimidade, abraçava e mostrava a doçura de pessoa que era”, conta. No trabalho, era apaixonada pela carreira.

A professora morreu no Dia Nacional do Pedagogo e foi velada no Dia do Profissional de Letras, curso que fez na Universidade de Brasília (UnB). Ontem, Ana Cláudia, uma das poucas a saber do relacionamento de Debora com Sergio, disse que a vítima se mudou para a Asa Norte, por medo — ela teria se afastado do policial civil ao descobrir que ele era casado e tinha dois filhos. “Cheguei a procurar lugar para ela morar longe de Sobradinho, mas ela amava a cidade, porque tinha a cara dela. Mais simples, calma, interiorana. Foi uma dor para ela mudar de cidade. Ela jamais faria se não fosse muito grave”.

Segundo ela, o assassino havia ido à escola em que ela dava aula, em Sobradinho, onde provocou uma discussão. Ana ressalta que a amiga e outras mulheres que sofrem violência costumam ser muito julgadas quando expõem o que sofrem, e que isso contribui para o silêncio. “A sociedade tem mania de não acreditar na vítima, dizer que a mulher é louca. Fico triste quando falam que ela aceitava a convivência com ele. Mas ela tinha medo, era obrigada a isso”, explica Ana Cláudia.


Memória

Crime premeditado

Às 9h42, o policial civil Sergio Murilo chegou ao prédio da Coordenação Regional de Ensino do Plano Piloto e Cruzeiro, na 511 Norte. Apesar de estar armado, não foi revistado. Às 9h43, após se identificar com a identidade funcional, o agente passou pela catraca e seguiu para o terceiro andar, onde Debora trabalhava. Lá, ele se dirigiu à Subsecretaria de Gestão de Pessoas e, na recepção, pediu para falar com a professora. Às 9h45, a vítima apareceu e, ao se virar de costas, Sergio Murilo disparou três vezes contra ela. Em seguida, atirou contra a própria cabeça.


Nova linha de apuração

A Polícia Civil tem investigações abertas de mais crimes que podem ter sido motivados por gênero. É o caso da morte de uma moradora de Taguatinga, de 68 anos, em 29 de março, cuja linha de investigação foi alterada. A 17ª DP (Taguatinga Norte) acreditava se tratar de suicídio, mas, agora, a suspeita é de feminicídio, que seria o 14º no ano. A vítima, servidora aposentada da Secretaria de Educação, foi encontrada morta, em casa, em Taguatinga, com um cabo de USB enrolado no pescoço e uma sacola plástica na cabeça. Há cerca de 20 dias, investigadores descobriram que a vítima se relacionava com um rapaz mais jovem. Ele é suspeito. A apuração mostrou que o casal se conheceu em um site de relacionamento e marcou encontros na casa da vítima sem que a família dela soubesse.


Um basta às agressões


Diferentemente de Debora, a também professora e vítima de violência doméstica Ana Beatriz* sobreviveu para contar a própria história. Refém de um relacionamento por quase 20 anos, viu o comportamento cativante e solícito do ex-marido esconder as constantes ameaças e agressões físicas e psicológicas feitas longe dos olhares de familiares, amigos e conhecidos da igreja. A violência foi motivo de cinco separações no período. Mas o medo de perder as duas filhas, a vergonha de ser julgada por se separar e a dependência emocional foram capazes de superar a ameaça de tiros, na frente das crianças — as quais ele garantia que mataria e, depois, cometeria suicídio. Mas a arma falhou três vezes, pessoas escutaram o pedido de socorro e a polícia chegou a tempo.

Apesar da violência, dois anos depois do episódio, ela deu uma nova chance ao casamento. “Essa realidade não foi só minha. Faz parte da história de milhares de mulheres, vítimas de maridos doentes e acorrentadas às próprias limitações e que sofrem caladas. A gente não sabe se deve ou se vai adiantar denunciar, sempre acha que ele vai mudar, sofre preconceito das pessoas que não sabem a realidade e acham que é falta de vontade de lutar pelo bem maior da família. Em meio a tantos fatores internos e externos, a vítima se submete à manipulação, às agressões, ao autoritarismo, ao medo. Até não se reconhecer mais”, relatou Ana Beatriz.

No caso dela, a dependência financeira não era um dos motivos que a mantinha no relacionamento. Professora concursada e com pós-graduação, ela sustentava a casa. Por isso, na avaliação dela, o problema independe de escolaridade, classe social ou faixa etária. Assim, Beatriz levou décadas para sair do ciclo de violência doméstica. “Não foi fácil assumir que a doença dele me deixou doente também, mas consegui me reerguer. Levo para a vida a frase que um delegado disse para mim: ‘Não é só uma medida protetiva que vai assegurar a sua vida, são as suas atitudes’. Precisei abdicar de pessoas queridas que ainda tinham contato com ele e que acreditavam nas versões dele. Escolhi a minha vida e não abro mão dela.”


Valorização


Mesmo depois da decisão definitiva de romper o casamento, Ana Beatriz encontrou dificuldades judiciais. Por mais de um mês, ficou sem a medida protetiva após ter a renovação da ordem de afastamento negada. A vítima precisou peregrinar em delegacias, Ministério Público e fóruns para conseguir reconquistar o direito em segunda instância. Precisou provar a necessidade da proteção, submetendo, inclusive, uma das filhas ao depoimento. Só assim conseguiu a medida protetiva por tempo indeterminado. “Ainda há barreiras que dificultam algo que, por si só, já é difícil. Precisamos de programas específicos que cuidem da mulher para que ela se sinta valorizada e dona de si, assim como me sinto hoje. As mulheres precisam ser salvas e também quererem se salvar”, ressaltou.


* Nome fictício

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