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Vice, o filme mais frito do Oscar 2019

Vice, o filme mais frito do Oscar 2019Foto: Divulgação

Indicado a oito categorias, o filme conta a história do vice de Bush filho, Dick Cheney, e como ele conseguiu influenciar a política estadunidense

Jornal Opção - 03/03/2019 - 20:12:54

O título dessa matéria também poderia ser “Vice: trecho da história dos Estados Unidos contada para não americanos entenderem”. Porém há de se convir o quão excessivamente explicativo e longo seria. Esta, também, é uma das características de Vice, mas que cheguei à conclusão depois que saí do cinema. A minha primeira impressão, ao subirem os créditos definitivos (quando assistir você entenderá o porquê desse adjetivo aqui) foi: “esse é o filme mais frito entre os indicados ao Oscar 2019”.

Como boa deslumbrada com a premiação da Academia hollywoodiana, me propus a maratonar os indicados. Assisti a “Vice” no cinema, na 12ª Mostra O Amor, A Morte e As Paixões. A narrativa conta a história de Dick Cheney, vice-presidente dos Estados Unidos no governo de George W. Bush, ou Bush filho. Quase biográfico, o filme vai da juventude ao fim da carreira política de Cheney.

Com foco na vida do ex-vice-presidente, sua família, e de sua alçada ao Poder, a obra contextualiza e até explica um período da história daquele país. Com peso maior na política americana, o roteiro dá umas leves cutucadas no machismo da ala mais à direita dos EUA e, com mais evidência, acusa a ‘LGBTfobia’ daquela sociedade.

Interpretações

Dick é brilhantemente interpretado por Christian Bale, da juventude à velhice. Bale venceu o Globo de Ouro por melhor ator em Comédia ou Musical e foi indicado ao Oscar de melhor ator, mas perdeu para Rami Malek, que fez Freddy Mercury em “Bohemian Rhapsody”.O estudo das características de Cheney pelo ator é perceptível ao longo de sua interpretação. As transformações do personagem são muito bem-feitas, sem perder a personalidade do vice-presidente. O jovem inconsequente, o humilde estagiário e o poderoso político que Cheney foi em várias fases da vida são bem apreendidos pelos espectadores, mas sem nos esquecermos que ainda se trata do mesmo personagem.

Algo que valorizo muito em uma interpretação, e não se trata de algo técnico, é quando conseguimos esquecer quem é o ator por trás daquele personagem. Isso aconteceu comigo em Vice. Às vezes me assustava quando lembrava: “Caramba, esse é o Christian Bale!”. Muitos hão de discordar de mim; vi muitas críticas dizendo que a maquiagem contribuiu em 50% e que esse não foi seu melhor trabalho, e posso até concordar, mas isso não diminui o brilhantismo de sua atuação. Poucos atores conseguem transformar-se tanto para um trabalho, e essa é uma característica de Bale.

Era muito esperado, também, que Amy Adams, que interpreta a esposa, Lynne Cheney, finalmente conquistasse seu Oscar. Essa foi a quinta vez que ela concorreu e a quarta em que foi indicada na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante, mas perdeu para Regina King (muito merecido, por sinal). Há quem diga que recaiu sobre Adams a “maldição” de Leonardo Di Caprio, que também demorou anos para vencer. Não acho que a perda da atriz dessa vez tenha sido injusta, a indicação lhe bastava. A atuação foi muito bem-feita; assim como no caso de Bale, é visível o estudo da personagem, e, sim, a maquiagem ajudou. Mas o papel ainda não iria lhe garantir um Oscar, e isso era óbvio.

Aliás, entre as oito indicações do filme, a obra só saiu vitoriosa na categoria Melhor Maquiagem e Penteados. De fato, tudo foi feito com muita minuciosidade e Sam Rockwell, que nunca imaginaríamos ter semelhança com George W. Bush, ficou quase idêntico. Isso sem falar no perfeccionismo da demarcação de idade dos personagens, que passam por transições bruscas durante a história retratada. Apesar de eu ter achado a transformação de Steve Carell capenga, ele, sim, continuou sendo o Steve Carell para mim.

Narrativa

Mas o que mais me chamou a atenção foi a escolha narrativa. Nada que não fosse esperado de Adam Mckay, que não só dirigiu, como roteirizou o filme. Conhecido por suas comédias, ele consegue imprimir traços cômicos e de leveza numa história de puxadas de tapete e tragédias. Após contextualizar a juventude de Cheney, em certo ponto do filme, ele mostra quem está narrando, afinal, a todo momento se escuta uma voz em off que comenta e relata os fatos. Apresentado como “digamos assim, um parente”, ele nos deixa curiosos, à espera do momento em que finalmente saberemos de quem se trata. E, sim, quando isso é revelado, você ri de nervoso (não vou dar spoiler )! Escolher essa peça da história para narrar foi uma sacada um pouco cruel, mas genial, a meu ver.

E ao longo da trama o sentimento varia entre boas risadas, às vezes empatia por um personagem ou outro e aquele famoso “nossa, que filho da puta”. Bem, o último não poderia deixar de existir em uma história sobre política. Para pessoas que não são dos Estados Unidos, como nós, brasileiros, e que não acompanham tão de perto a conjuntura política de lá, trata-se, também, de uma aula de história. Eu, por exemplo, não fazia ideia de que Bush poderia ser só um garoto meio burro e inconsequente e que, por trás, havia um manipulador de marionetes ditando tudo, como Dick Cheney. Bem, até 2016, no Brasil, pelo menos, dávamos pouca importância ao trabalho de um vice-presidente.

Mckay podia ter suprimido muitas coisas do filme, entendendo que americanos são obrigados a conhecerem sua própria história, mas ele é excessivamente explicativo, fazendo com que nós entendamos o que se passa. Afinal, apenas sabemos de ápices de pontos muito específicos que impactaram na história mundial. Uma amostra disso, para mim, é quando ele cria um final fake no meio do filme. Quem já conhecia, sabia que não havia chegado ao fim, mas como uma ironia ele finge que ali tudo poderia ter se encerrado e nada do que aconteceu depois aconteceria. Há quem diga, também, que, apesar da sacada boa, Mckay se empolgou com a duração da cena, sendo que nos primeiros cinco segundos da tomada já tinha ficado óbvia sua intenção, não precisaria de mais. Mas eu, particularmente, ri muito.

E é com essa deixa que passo a comentar os momentos mais fritos da narrativa. Além do final fake , e de algumas quebras da quarta parede, tem um momento em que o narrador está supondo uma conversa entre Cheney e a esposa em casa. Mas aí ele para e se dá conta de que seria impossível saber o que eles conversavam, dada a discrição do vice-presidente. Então, ele simplesmente os coloca para citar Shakespeare, e, apesar de bizarro, as falas cabem no contexto. Em outro momento, ao pensarem se fariam guerra ou não, ele faz uma metáfora com um cardápio em um restaurante que oferece opções de menu e, para além de apontá-la em off , ele resolve colocar os atores para encenarem isso, com direito a um garçom oferecendo as opções bélicas.

A edição também é bem maluca e nos obriga a querer assistir novamente, em casa, pausando, para tentar apreender tudo. Diversas vezes são colocadas imagens reais da guerra contra o Iraque e a crueldade das tropas americanas. Em outras, são feitas escolhas aparentemente aleatórias que nos deixam muito angustiados. Como o momento em que é dado um zoom out longo em uma foto de um homem e uma mulher em uma mesa comendo. Inclusive tenho que assistir de novo para entender, mas imagino que tenha sido para retratar a tranquilidade da sociedade estadunidense diante de todos os horrores cometidos no Oriente. Uma suposta “vingança” pelo 11 de setembro, que disfarçava a guerra pelo petróleo.

As filhas, que de início pareciam apenas alegorias para ilustrar a relação do protagonista com a família, se tornam peças fundamentais no futuro. Uma, lésbica assumida, e a outra, uma potencial política, sucessora dos pais, apresentam uma relação harmoniosa até o momento em que, a sexualidade de uma, influencia no Poder da outra e de seus pais.

A excessividade explicativa também passa por momentos em que Mckay podia ter deixado certas coisas para a experiência do espectador ou ter-lhes tratado com sutileza. É o caso, por exemplo, do primeiro diálogo de Adams com Bale, em que, em certo ponto, ela diz que ele tem que chegar ao Poder, afinal, ela, como mulher, nunca poderia. Isso não precisava ser dito, porque estava mostrado e poderia ser mostrado com ainda mais intensidade do que foi. É o que consegue fazer “A Esposa”, também de 2019, por exemplo.

A trilha sonora também é parte importante, que contrasta com os sons de bombas, quando há cenas de guerra. The Killers , com The Man é, com certeza, a música que combina tanto com o enredo como com o tom sarcástico da narrativa. Ou o que mais se pode dizer desse trecho: “Eu sou o cara, venha cá, nada pode me quebrar, nada pode me derrubar”?

Para finalizar, eu recomendo, e muito, que todos assistam a “Vice” mais de uma vez. Como disse, o roteiro e edição malucos pode te perturbar ou te encantar. Não dá para prever. Mas é um filme cheio de camadas que consegue prender e, apesar de conter clichês, consegue surpreender e tornar algumas coisas imprevisíveis.

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