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Vírus também pode chegar aos olhos. Mudanças em receptores de imagem

Vírus também pode chegar aos olhos. Mudanças em receptores de imagemFoto: Pixabay

Presença do RNA do Sars-CoV-2 na retina e na córnea de pessoas que tiveram covid-19 sinaliza que há o risco de o micro-organismo comprometer o sistema ocular. Especialistas não descartam o agravamento de doenças oftalmológicas, como o glaucoma

Vilhena Soares - Correioweb - 19/10/2020 - 11:02:04

No início da pandemia da covid-19, especialistas acreditavam que a nova doença, assim como outras enfermidades respiratórias, atacava principalmente os pulmões. Com o tempo, descobriu-se que a infecção pelo Sars-CoV-2 causa danos em outros órgãos, como coração, rins e até o cérebro. Em análises recentes, pesquisadores encontraram indícios de efeitos também nos olhos. Eles detectaram a presença do RNA do coronavírus e algumas alterações oculares em pessoas infectadas. As investigações são preliminares, mas, segundo especialistas, também essenciais para guiar novos trabalhos científicos que ajudarão a desvendar os impactos do agente infeccioso na visão.


Pesquisadores sabem que algumas doenças virais respiratórias podem causar um problema ocular comum: a conjuntivite. Por isso, não houve surpresa quando surgiram pessoas com covid-19 e a inflamação nos olhos. No entanto, pouco se sabia sobre a influência do novo coronavírus sobre a visão, o que motivou a realização de análises mais apuradas. “O envolvimento oftálmico em pacientes com essa enfermidade tem sido limitado, até agora, à conjuntivite. Não existem relatórios sobre a existência do Sars-CoV-2 no tecido intraocular. Isso nos motivou a analisar tecidos oculares de pessoas que morreram em decorrência da covid”, relata, em comunicado, Maria Casagrande, pesquisadora do Departamento de Oftalmologia da Universidade de Hamburg-Heppendorf (UKE), na Alemanha.


Casagrande e sua equipe analisaram os olhos de 14 pessoas e detectaram o RNA do agente infeccioso em três. “Nesse estudo, fornecemos, pela primeira vez, evidências de detecção do RNA do Sars-CoV-2 na retina humana. Em análises feitas anteriormente, a presença do vírus em tecidos oculares só ocorreu na conjuntiva (membrana mucosa que envolve a parte branca do olho) e nas lágrimas”, afirmam os autores do trabalho, publicado na revista especializada Ocular immunology and Inflamation.


Os investigadores acreditam que a presença do vírus justifica-se pela existência, no sistema ocular, da ACE2, uma proteína usada pelo patógeno para entrar no organismo. “A presença do receptor de entrada viral na retina de humanos e também de animais, como porcos e roedores, é algo conhecido na área médica e foi um dos motivos da nossa desconfiança inicial”, explicam.


A equipe acredita que os dados obtidos precisam ser aprofundados e abrem as portas para pesquisas que podem ajudar a entender o comportamento do Sars-CoV-2 no sistema ocular. “Devido aos riscos respiratório e cardíaco dessa enfermidade, a maioria das pesquisas foca nessas duas áreas, mas acreditamos que estudos em outros sistemas não devem ser ignorados”, destacam os autores. “Nosso estudo ainda é um piloto, um pontapé inicial para mais análises, até porque ainda não podemos afirmar que o vírus se replica na retina e em quais estruturas retinianas ele está”, ressalta Casagrande.


Novas perguntas
Um segundo estudo, feito por cientistas dos EUA, também encontrou indícios do RNA do vírus no sistema ocular. Nesse caso, a análise foi feita em material obtido de doadores de órgãos. Os cientistas analisaram a córnea de 33 pessoas e detectaram o RNA do coronavírus naquelas que testaram positivo para a infecção. O patógeno estava na córnea e no humor vítreo.

“Pelo que sabemos, nosso estudo é o primeiro a mostrar a presença do vírus na córnea. Mas ainda temos perguntas a responder. Não sabemos como ele chegou aos olhos e também não sabemos se ele se replica nesse local”, explicam os autores no artigo, liderado por Shahzad I Mian, da Universidade de Michigan. Os cientistas ressaltam que análises mais apuradas precisam ser feitas para esclarecer as dúvidas que surgiram. “Novos exames em pacientes que faleceram e também estudos in vitro poderão nos ajudar a compreender melhor o comportamento do vírus na córnea e em outras regiões oculares”, cogitam. Os resultados obtidos, até agora, estão em um artigo publicado no periódico MedRxiv.

Palavra de especialista

Uma doença sistêmica

“As primeiras manifestações documentadas do vírus Sars-CoV-2 foram as respiratórias, mas quando essa enfermidade surgiu, na China, um oftalmologista notou diversos casos de conjuntivite. Isso chamou a atenção dele, que definiu o aumento de casos do problema ocular como uma causa de uma doença desconhecida. Esses dados, que surgem após meses de pandemia e mostram a presença do vírus no olho e a possibilidade de quadros mais graves de enfermidades prévias, como o glaucoma, são exemplos do conteúdo que estamos aprendendo nesse longo caminho de manifestações clínicas da covid-19. Vemos todos os dias dados que reforçam como essa enfermidade é sistêmica. Ela causa danos em diferentes áreas, e os
olhos são mais uma região que pode ser afetada. É importante continuar acompanhando e escrevendo esse capítulo. Isso vai nos ajudar a abrir ainda mais o leque de fatores usados para fazer o diagnóstico dessa doença e a entender como ela se apresenta clinicamente, o que nos ajudará durante o seu combate.”

David Urbaez, diretor científico da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal

Mudanças em receptores de imagem

Cientistas também começam a observar alterações oculares em pacientes com covid-19. Um desses grupos é do Brasil. Paula Marinho, pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e colegas detectaram mudanças na retina e na mácula, a área da retina com maior quantidade de fotorreceptores (responsáveis pela captação de imagens), de 12 pessoas infectadas pelo Sars-CoV-2. “Eram alterações sutis em uma das camadas da retina. Observamos também a presença de micro-hemorragias, mas nada que afetasse a visão”, detalha ao Correio a pesquisadora, que publicou o artigo sobre estudo na revista The Lancet.


A equipe resolveu analisar um grupo maior, e hoje conta com dados de 200 pacientes com perfis distintos da enfermidade, de casos leves a graves da covid-19, e também de indivíduos que morreram em razão da doença. O trabalho, que ainda não foi publicado, mostra novas nuances sobre o papel do vírus no sistema ocular. “Temos observado efeitos na circulação, que é algo que a
covid-19 provoca em outros sistemas. A retina é um local em que essa avaliação pode ser feita da melhor forma. É a única região em que conseguimos observar, em tempo real, o funcionamento dos vasos sanguíneos”, explica.


Segundo a pesquisadora, ainda é muito cedo para afirmar que essas alterações podem causar problemas oftalmológicos ou agravar enfermidades existentes. “Falar sobre isso seria mais uma especulação, não temos como provar. Vimos poucos casos sobre isso”, justifica. “Tem um estudo em que pacientes apresentaram sinais relacionados à retinopatia diabética, mas também temos casos de pessoas que tinham problemas oculares antes da covid-19 e, nelas, não foram detectados agravamentos.”


Prevenção
Marinho acredita que os dados ressaltam a necessidade de se manter alerta quanto à saúde ocular. “Eles servem para reforçar a importância de as pessoas fazerem os exames. Em análises de fundo do olho, por exemplo, conseguimos observar essas alterações, sejam elas provocadas pela covid-19 sejam causadas por outras enfermidades”, explica.


Segundo Rafael Yamamoto, oftalmologista especialista em retina, as alterações que parecem ter sido causadas pelo Sars-CoV-2 não costumam ser graves. “Elas são importantes de ser monitoradas, mas não geram prejuízos, como uma infecção na conjuntiva”, diz. O médico também destaca a importância dos cuidados com a saúde dos olhos na pandemia. “Não vimos ainda danos oftalmológicos graves causados pela covid-19. O que pode ocorrer é o caso de pessoas que sofrem de problemas que exigem cuidado recorrente, como a degeneração macular, e que deixaram de se tratar na pandemia”, conta. (VS)

Impacto da pressão ocular

Desconfiados de que a
covid-19 poderia piorar danos oculares, cientistas chineses analisaram uma paciente infectada pelo Sars-CoV-2 que sofreu agravamento do glaucoma (o aumento da pressão ocular) um mês após ter se recuperado da doença viral. Em testes feitos nos tecidos oculares da paciente, os cientistas encontraram o RNA do vírus em diversos tipos de células (conjuntiva, trabecular e íris). Para eles, a presença do patógeno no local por tanto tempo, mesmo após a paciente ter se recuperado, pode ter contribuído para o agravamento da enfermidade ocular. “Não sabemos se isso pode estar relacionado ao vírus, mas acreditamos que esses indícios merecem ser aprofundados”, detalharam os autores, liderados por Ying Yan, pesquisador e médico do Hospital Theater Command, em Wuhan.


Tulio Reis, oftalmologista especialista em glaucoma e catarata, destaca que, como foi frisado pelos autores do trabalho, ainda é cedo para relacionar a piora de enfermidades oculares com a infecção pelo novo coronavírus. “Antes, não sabíamos que o vírus tinha potencial de chegar a tecidos oculares. Essa já foi a surpresa inicial, e, agora, essa descoberta nos instiga a pesquisar mais. Vemos, nesse estudo, uma possível relação do vírus com uma piora de um glaucoma, algo novo também. São dados muito interessantes, mas ainda muito incipientes, que não nos permitem tirar conclusões de causa e efeito”, analisa.


O oftalmologista lembra que efeitos semelhantes foram detectados com o zika vírus, encontrado no humor aquoso do olho de um paciente que teve uveíte. “Sabemos muito pouco desse vírus e precisamos ter esses dados. Quando um paciente chegar ao pronto-socorro, de acordo com as queixas, vamos poder dizer se existe risco de problemas específicos. Vamos usar esses dados para garantir um melhor tratamento.” (VS).

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